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Música, a arte na resistência

De movimentos psicodélicos à expressão da cultura popular, artistas de Pernambuco foram protagonistas na renovação musical durante os anos de chumbo

Publicado em: 30/03/2024 06:00 | Atualizado em: 29/03/2024 17:09

O golpe civil-militar completa, neste domingo (31), 60 anos desde que instaurou o regime de exceção por 21 anos no Brasil. Em Pernambuco, o clima de apreensão começou nas primeiras horas da ditadura, quando já se viam tanques nas ruas e o governador Miguel Arraes foi deposto do cargo e preso. A forte repressão reverberou no ambiente cultural do estado, com artistas e intelectuais pernambucanos sendo alvos de perseguição política ou moralista por suas obras consideradas “subversivas”.

É importante salientar que a repressão cultural já era uma prática estabelecida na Constituição antes mesmo do início da ditadura. "Esses mecanismos de censura vinham desde Getúlio Vargas”, explica o historiador Ivan Lima, investigador da Universidade do Porto, em Portugal. O Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP) era o órgão responsável por fiscalizar conteúdos bibliográficos, culturais e midiáticos. A partir de 1972, passou a ser uma subdivisão da Polícia Federal com as mesmas finalidades.

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Na esfera musical, o SCDP determinava no decreto 20.493/1946, artigo 77º, a proibição “de trechos musicais cantadas em linguagem imprópria à boa educação do povo, anedotas ou palavras nas mesmas condições”. Pernambuco teve casos emblemáticos de censura em várias frentes na música: artistas locais no eixo Rio-São Paulo, como Alceu Valença e Geraldo Azevedo; os que se apresentavam no estado, como Zé Ramalho e Odair José; e os movimentos de contracultura, especialmente a cena psicodélica, que era representada por Zé Ramalho, Lula Côrtes e Ave Sangria.

Ave Sangria (Divulgação/PMO)
Ave Sangria (Divulgação/PMO)


“Seu Waldir, o senhor magoou meu coração (...). Seu Waldir, isso não se faz, não”. O cantor e compositor Marco Polo escreveu os versos românticos de Seu Waldir, a sétima faixa do álbum Ave Sangria lançado pela banda homônima. “O Ave Sangria, por toda aquela psicodelia visual, musical, letrista, se tornou uma grande referência da música pernambucana naquele momento”, avalia Ivan Lima.

Porém, o primeiro LP do grupo psicodélico foi removido das prateleiras devido ao teor supostamente “homossexual” da canção, em 1974, apesar de ter sido liberado pelos censores a princípio. “Seu Waldir era uma paródia. Achei que os militares tinham mais senso de humor, mas infelizmente não tinham, não”, comenta Marco Polo.

A proibição do disco em rádios e lojas desmobilizou o grupo composto por Marco Polo (vocais), Ivson Wanderley (guitarra solo e violão), Paulo Rafael (guitarra base, sintetizador, violão, vocal), Almir de Oliveira (baixo), Israel Semente (bateria) e Agrício Noya (percussão).

Quinteto Violado (Divulgação)
Quinteto Violado (Divulgação)


Três anos depois, os órgãos de controle voltaram atrás, mas não havia clima e dinheiro para continuar. “Desestimulou todo mundo”, lembra o vocalista. Em 2019, Ave Sangria voltou à cena com dois remanescentes - Marco Polo e Almir Oliveira - e saudades dos antigos parceiros, entre eles Paulo Rafael, que morreu em 2021.

Outro exemplo de rompimento com a sonoridade tradicional durante os Anos de Chumbo é o Quinteto Violado. Sob a égide de Luiz Gonzaga e outras influências da cultura nordestina, “Os Violados” trouxeram um olhar da música regional voltada para o mundo e foram exaltados por Gilberto Gil, que batizou o estilo do Quinteto como “free nordestino”.

Divulgação (Zé da Flauta no Quinteto Violado)
Divulgação (Zé da Flauta no Quinteto Violado)


“Era uma identidade para superar todas aquelas pressões e limitações que existiam”, aponta Dudu Alves, tecladista e diretor musical da banda. Apesar de não haver conotação político-ideológica em suas composições, o Quinteto também sofreu censura. A música Mourão Voltado (1978) foi interpretada pelos órgãos de controle como uma provocação ao general Olímpio Mourão Filho, um dos articuladores do golpe.

“Mourão Voltado faz parte de um dos movimentos do fogueiro popular. É uma forma de cantoria que existe há muitos anos. Não tem nada a ver com o que pensaram”, destaca Dudu.

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