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Luna Vitrolira investiga ancestralidade da Zona da Mata em livro 'Memória tem Águas Espessas'

Escritora pernambucana que levou a poesia para o palco do Marco Zero do Recife, ela descreve a busca dos ossos da família para curar e libertar os ancestrais ainda presos; livro tem previsão de lançamento ainda para este ano

Publicado em: 27/02/2024 17:20 | Atualizado em: 28/02/2024 14:08

 (Foto: Estúdio Orra)
Foto: Estúdio Orra
A poeta pernambucana Luna Vitrolira se tornou a primeira a levar a poesia para o palco do Marco Zero na abertura oficial do Carnaval do Recife 2024 e se prepara agora para o lançamento do seu segundo livro, 'Memória Tem Águas Espessas', que deve sair ainda este ano. A obra da multiartista originou de uma imersão na Zona da Mata de Pernambuco, onde ela busca sua ancestralidade canavieira.
 
Com o livro de poemas 'Aquenda: o amor às vezes é isso', em 2018, lançado pelo Selo Livre, ela foi finalista do Prêmio Jabuti em 2019, recebendo destaque na crítica nacional. Após o lançamento, ela gravou seu primeiro disco homônimo (Selo Deckdisc), iniciando assim a carreira musical em 2021. Com dez faixas autorais, o álbum une poesia e música. No mesmo ano, lançou o filme curta-metragem de mesmo nome.

“Antes de poeta, sou brincante e foliã. Tive a oportunidade de aprender a tocar percussão nas oficinas de Naná e de crescer vendo o nosso mestre reger o Tumaraca. Foram cerca de 700 batuqueiros e batuqueiras homenageando o percussionista Naná. Estive também ao lado da mestra Joana e de mais 12 mestres. A poesia é a minha vida, a minha guia e essa conquista é para toda a nossa literatura e para o poder da palavra poética. O livro é uma parte apagada da minha história e vida sobre a qual nunca tive conhecimento ou contato. Escrevo sobre o peso do sentimento de não ter família, nem passado, o que é comum na vida das pessoas brasileiras devido ao processo de colonização e ao sistema escravocrata que dispersou a genealogia do povo preto e dos povos originários”, conta. 

Na obra, Luna questiona sobre o fato da manutenção do sistema colonial na cultura da cana-de-açúcar até os dias de hoje, ao falar do cenário canavieiro da Zona da Mata.
 
“O racismo no Brasil faz parte do projeto político hegemônico de dominação e extermínio de povos não brancos, que dentre suas estratégias estão o apagamento étnico-estético cultural, o silenciamento e a invisibilidade do povo que vive em exílio dentro do território do país que lhe confere nacionalidade”, argumenta. 

A poeta de 31 anos, que também mergulha no universo artístico como cantora, escritora, compositora, atriz, performer, pesquisadora, apresentadora, educadora e Mestra em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), traz poemas a partir do seu trajeto de volta ao território no qual há pertencimento e memórias ancestrais.

“É a busca dos ossos da família para curar e libertar os ancestrais ainda presos, enterrados vivos, sob o mar de cana-de-açúcar. A memória é a base e o princípio da história de um indivíduo ou indivídua, do povo ou comunidade. Sem ela não existe o tempo, seja passado, presente ou futuro. E isso se torna mais severo quando estamos falando de uma população que foi ceifada da convivência com os parentes, da relação com o sagrado e também da possibilidade de dizer e contar a partir de suas narrativas. Além disso, existe o sofrimento com o epistemicídio, a necropolítica, e, sobretudo, com a falta de pertencimento ao mundo devido à ausência de referência de origem familiar”, reflete. 

A partir da escrevivência, Luna elabora e revela processos de autorreconhecimento da própria história, imagem, origem, território, ancestralidade, herança imaterial e simbólica. Ela já soma 13 anos de carreira na poesia, com experiências também como palestrante e professora de Literatura Brasileira e de escrita criativa, além de licenciada em Letras/língua vernácula pela UFPE. 

“Acredito que o livro ‘Memória tem Águas Espessas” contribui para a representatividade na Literatura Brasileira Contemporânea, destacando a importância da poesia enquanto espaço criativo, artístico e político para a construção de uma literatura e uma estética de pertencimento para povos não brancos desse território”, ressalta a autora. 
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