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LITERATURA

HQ futurista mostra Recife daqui a 200 anos

'Comuna dos Sonos', HQ assinada pela pernambucana Roberta Veras, projeta uma realidade em que a humanidade manipula os próprios sonhos

Publicado: 17/02/2024 às 07:00

HQ é ambientada na realidade virtual 'Hypnos'/Crédito: Divulgação

HQ é ambientada na realidade virtual 'Hypnos' (Crédito: Divulgação)

O ano é 2220: estruturas históricas como a Torre Malakoff e a igreja da Madre de Deus resistem, em estado de deterioração, e a atmosfera do carnaval pernambucano se preserva em bits e pixels. Esta é a representação do Recife futurista em Comuna dos Sonos - história em quadrinhos idealizada pela designer e ilustradora Roberta Veras. A trama é inspirada nas experiências subconscientes da autora. Com 60 páginas, a revista será lançada neste sábado, no Museu do Estado de Pernambuco (MEPE), a partir das 15h, em evento seguido de bate-papo com a idealizadora. Neco Tabosa (co-roteirista) e Raul Souza (storyboard e cores) também participam. Os exemplares estarão à venda por R$ 40.

O primeiro trabalho autoral de Roberta no universo das HQ's se passa num futuro em que a humanidade aprendeu a manipular e compartilhar sonhos lúcidos - nos quais há plena consciência de estar sonhando - dando origem à rede social Hypnos. Em uma noite agitada de sono, Princi tem sua consciência involuntariamente arrastada para Hypnos, onde se encontra participando de um imenso sonho coletivo situado 200 anos à frente da sua realidade temporal. No primeiro episódio da série, Princi irá descobrir os mistérios, aventuras, custos, perigos e amores de ser uma ‘‘fora de tempo’’.

Desenvolvida entre 2015 e 2016, a narrativa é derivada de um sonho lúcido da autora. Nele, embora houvesse semelhanças geográficas, Recife se encontrava drasticamente alterado, inclusive com uma população diferente da representação convencional do povo recifense. Já em outra dimensão, Roberta foi avisada de que criaturas poderiam aprisionar sua mente e, desse modo, deixá-la em estado de coma. “Sabia que estava sonhando. Ao mesmo tempo fiquei desesperada, porque não conseguia acordar de jeito nenhum. Me perguntei se era real”, conta. A jornada criativa também envolveu pesquisa, busca por referências artísticas e troca de ideias com pessoas acerca das suas experiências oníricas.
 
Princi e Eli se aventuram em sonho coletivo distópico
Amante de gibis desde criança, ela acatou a ideia da amiga ilustradora e companheira de apartamento para traduzir as imagens do sonho em um formato visual cartunesco. “É muito mais do que um livro escrito, qualquer coisa do tipo, porque você visualiza. Ao contar a história do sonho, você visualiza as imagens.” Em sua primeira incursão nos quadrinhos, Roberta assinou a ilustração da revista TIRA (2019), reportagem adaptada a quadrinhos sobre abortos clandestinos no Recife, contemplada na categoria “Arte” pelo Prêmio Jornalístico Vladmir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Enquanto trabalham sem descanso para garantir sua sobrevivência no mundo físico, os usuários da Hypnos desfrutam de uma simulação onde podem experimentar as mesmas sensações materiais e manter seus corpos intactos. Roberta aponta a redução de lixo eletrônico como uma vantagem da realidade virtual. “Tem uma necessidade emergente de reduzir o uso desses dispositivos que a gente usa como mediadores para ter acesso ao mundo virtual, como smartphones e laptops”. Por outro lado, a designer e ilustradora enfatiza os riscos para a privacidade. “Há um acesso que é muito fácil da sua vida privada, do que você vivencia”.

Princi, assim como a autora, pertence à comunidade LGBTQIAP%2b. No entanto, vai levar um tempo para o leitor perceber. “Eu tinha a intenção de naturalizar e não centralizar a história no fato de que ela é lésbica. Não existe nenhuma menção sobre a sexualidade dela, até o ponto em que ela encontra outra personagem, sente atração e algo acontece”. Roberta lamenta a ausência de protagonistas lésbicas em ficções nacionais. “Nós somos praticamente inexistentes em Pernambuco”.

Ao ser questionada sobre descrever o Recife ideal daqui a 200 anos, excluindo o contexto do Hypnos, ela defende uma cidade que valorize a segurança, o respeito e a liberdade nos espaços públicos. “A gente tem uma cidade majoritariamente esquematizada para atender as demandas dos negócios, dos carros, das pessoas que vão trabalhar em escritórios”, diz. Ela admite que se rende à tecnologia em apenas um aspecto. “Não vou negar que um ar-condicionado central é o único aspecto artificial que eu gostaria”, brinca. 
 
SERVIÇO
Lançamento da HQ COMUNA DOS SONOS, de Roberta Veras (seguido de bate-papo)
Local: Museu do Estado de Pernambuco (MEPE) - Av. Rui Barbosa, 960 - Graças, Recife
Data: sábado, 17 de fevereiro, a partir das 15h
Valor do exemplar: R$ 40,00
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