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Herança multicultural

A pluralidade de ritmos e culturas no Carnaval de Pernambuco remonta ao século 17, período em que houve forte influência dos africanos e portugueses nos festejos de Momo

Publicado em: 10/02/2024 06:00

 (Ariel Martini/ Divulgação)
Ariel Martini/ Divulgação

Na fusão de uma infinidade de povos, tradições e linguagens artísticas, o Carnaval de Pernambuco se insere entre as manifestações culturais mais influentes do planeta. Samba, axé, eletrônica, jazz, brega, funk, brega funk, rap, sertanejo e até a mistura bossa-pop-rock ilustram o amplo espectro musical presente no período que se estende do Sábado de Zé Pereira à Quarta-Feira de Cinzas. A programação deste ano mantém a essência multicultural da festa em Pernambuco, a qual não se formou espontaneamente, mas é reflexo do contexto histórico, político e social.

 

 

No Recife, o carnaval tem suas raízes fincadas no final do século 17, durante a celebração da Festa de Reis pelos trabalhadores da época, entre eles os carregadores de açúcar e outras mercadorias, muitos dos quais eram negros alforriados e foram os precursores do maracatu como é conhecido hoje. Além da forte presença africana, a população também foi impactada pelo entrudo português, reconhecido por suas correrias e brincadeiras de mela-mela entre os foliões. “O que a gente vive atualmente é fruto das interações sociais que Pernambuco viveu ao longo da sua história”, explica Luiz Vinícius Maciel, historiador e analista de pesquisa do Paço do Frevo.

 

Dessa forma, o Carnaval de Recife foi sendo moldado através das tradições portuguesas, festividades europeias, cultura africana e também da própria herança indígena. Foi somente entre os anos 1970 e 1980 que a prefeitura começou a se envolver mais ativamente na organização do carnaval, visando transformá-lo em produto atrativo para turistas. “Há de se reconhecer que muitas políticas públicas são pioneiras em Pernambuco, sobretudo na segunda metade do século 20, mas também recentemente", avalia Luiz. A prefeitura garantiu apoio financeiro e de infraestrutura à Federação Carnavalesca de Pernambuco, para posterior repasse às agremiações.

 

O carnaval dos anos 1990 ficou marcado pela expansão do desfile do Galo da Madrugada, assim como o Recifolia, um dos “carnavais fora de época” que acontecia no segundo semestre. O evento trazia para a cidade os grandes astros do gênero musical mais popular na época, o axé music, além de adotar um modelo carnavalesco já consagrado em Salvador: o dos trios elétricos e blocos de abadá. A partir de 2001, durante o mandato do prefeito João Paulo, o Carnaval do Recife passou por uma reformulação e foi implementado o conceito descentralizado e multicultural, que continua em vigor até hoje.

 

Em 2024, mais de 3 mil atrações - sendo 98% locais - estarão em 49 polos espalhados na cidade. Ricardo Melo, secretário de Cultura do Recife, celebra o legado composto por várias tradições que culminam na identidade cultural atual. “Nossas representações, genuínas, que formam um berço amplo e multifacetado de expressões, são a base de tudo, espalham-se pela cidade, em palcos e ruas, dando cores e ambiente a um carnaval participativo, que desperta em todo mundo o sentimento de pertencimento, até em quem nos visita. O povo recifense faz carnaval, porque veio dessas origens historicamente culturais”.

 

Além da programação oficial, outros eventos gratuitos contemplam diferentes sonoridades e tendências musicais. O Festival Rec-Beat, conhecido por revelar talentos locais e nacionais, apresenta um encontro de diversas gerações e ritmos. Entre os destaques está Ana Frango Elétrico, que retorna ao evento, porém, carregado de dúvidas sobre como o público irá reagir aos instrumentais dançantes e intimistas que caracterizam seu último álbum, 'Me Chama De Gato Que Eu Sou Sua". “Fico um pouco nervoso e curioso, pois confesso que não vou fazer um show diferente do que faria. Então fico curioso como umas músicas mais “disco” vão ser recebidas por uma onda carnavalesca”.

 

 

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