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CINEMA

'Duna: Parte 2' constrói sequência de momentos climáticos e deixa gancho poderoso para um 3º capítulo

Filme aproveita estrutura catártica e ambígua da história para expandir o antecessor em escala visual e dramática - e se aprofundar nos temas

Publicado em: 29/02/2024 13:12 | Atualizado em: 01/03/2024 16:32

Duna: Parte 2 estreia hoje nos principais cinemas do Brasil (Crédito: Warner Bros)
Duna: Parte 2 estreia hoje nos principais cinemas do Brasil (Crédito: Warner Bros)

Quase três anos atrás, quando lançou o primeiro Duna, o diretor Denis Villeneuve gerou críticas e curiosidade ao dividir o livro canônico da ficção científica, escrito na década de 1960 por Frank Herbert, em dois filmes. Elogiada pela sua ambição visual, a primeira parte venceu seis prêmios no Oscar e consolidou nos cinemas um universo que, apesar de adaptações anteriores (malsucedidas), era considerado intraduzível para as telas. Ainda assim, o longa de 2021 deu a muita gente sensação de incompletude, visto que ele terminava no ponto em que o grande conflito da trama estava para se desdobrar.

 

Agora, com Duna: Parte 2, que estreia hoje, a saga traz precisamente esse senso dramático de catarse prometido pela introdução e, dessa forma, reafirma a inteligência e prudência da divisão proposta pelo cineasta. O resultado é um filme que, de fato, abraça o épico com letras maiúsculas.

 

Na primeira parte, passada num futuro longínquo, a família Atreides, liderada pelo Duque Leto, era obrigada a se mudar de seu planeta-natal para governar o inóspito e desértico Arrakis, que contém uma substância imprescindível para o universo, mas a mudança se revelava uma emboscada e todos os integrantes da casa foram destruídos num violento golpe de estado. Agora, na Parte 2, o jovem Paul (Timothée Chalamet), filho do Duque, e sua mãe, Jessica (Rebecca Ferguson), únicos sobreviventes da família, devem reunir forças com os Fremen, povo nativo de Arrakis que, durante séculos, ouviu uma profecia sobre um estrangeiro que os viria libertar da opressão e da escassez absoluta de água.

 

Villeneuve tem uma das carreiras mais bem gestadas da indústria, passando de uma voz forte do cinema independente canadense (Polytechnique, Incêndios) para suspenses de médio-porte em Hollywood (Os suspeitos, Sicário) e ficções científicas cada vez maiores (A chegada, Blade Runner 2049). E é essa bagagem que torna sua visão de Duna (ambos) formal e tematicamente tão autoral.

 

Afeição pela escala de cenários grandiosos, encenação estetizada e tendência à solenidade sombria são marcas tão presentes no primeiro filme que, apesar do sucesso, provocou certo distanciamento e indiferença em parte do público. Sem largar mão dessa imperiosidade – e a intensificando sempre que possível –, Villeneuve comanda esse novo capítulo da adaptação com um senso de urgência notoriamente maior. O diretor aproveita que os conceitos foram estabelecidos no antecessor e introduz novos personagens, mostrando mais das intrigas políticas e revelando que aquilo que parece uma jornada catártica de vingança é, na verdade, um debate franco sobre fundamentalismo religioso.

 

Essa crescente climática que o filme consegue orquestrar, sem precisar acelerar demasiadamente o passo e tampouco reproduzir o espírito contemplativo do primeiro, é um trunfo notável, sobretudo quando a jornada do protagonista – novamente abalado por visões que ensaiam um (quase certo) terceiro filme – é tão cheia de ambiguidade. Duna: Parte 2 estremece a sala com som e fúria e tem até um resquício de alívio cômico, mas, curiosamente, a sua escalada de momentos poderosos vem com sentimento de tragédia iminente e não tanto com a típica satisfação emocional confortável. Nesse quesito, é dramaticamente essencial a participação maior de Zendaya no papel de Chani, guerreira Fremen e interesse romântico do protagonista.

 

Entre todas as virtudes como cinema, Duna: Parte 2 ganha tração a partir do trampolim da primeira parte, sim, mas funciona como experiência de imersão autônoma. É também um combo de autoralidade com iconografia comercial cheia de fãs – receita que frequentemente Hollywood tenta acertar e consegue com considerável raridade. 

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