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CINEMA

'Wonka' reapresenta personagem icônico sob um olhar inocente e visualmente encantador

Musical protagonizado por Timothée Chalamet e dirigido por Paul King (Paddington) substitui excentricidade das outras encarnações do personagem de 'A fantástica fábrica de chocolate' por doçura

Publicado em: 08/12/2023 09:00 | Atualizado em: 07/12/2023 16:31

 (Warner/Divulgação)
Warner/Divulgação
Publicado em 1964, o clássico livro A fantástica fábrica de chocolate, de Roald Dahl, foi adaptado para o cinema pela primeira vez em 1971, com o filme homônimo dirigido por Mel Stuart e Gene Wilder no papel do chocolateiro visionário Willy Wonka, que, depois de muitos anos sem abrir as portas da sua fábrica, resolve distribuir cinco convites dourados em barras mundo afora para que as crianças que os encontrem tenham acesso a uma visita ao lugar e recebimento vitalício de chocolate. Tanto no primeiro filme quanto no remake de 2005, com direção de Tim Burton e Johnny Depp no papel principal, a história é contada pelo ponto de vista de Charlie, o menino pobre que milagrosamente encontra um dos convites e vai à fábrica acompanhado pelo avô e por um quarteto de crianças detestáveis.

Já em cartaz, Wonka é protagonizado por Timothée Chalamet e conta a vida pregressa do confeiteiro a partir do momento em que ele chega na cidade grande com sua mala de invenções tentando abrir uma loja. Na sua primeira noite, porém, ele cai na armadilha de uma pousada que extorque seus hóspedes e transforma os endividados em prisioneiros. Buscando ganhar dinheiro para quitar a dívida, ele enfrenta na concorrência de um cartel que comanda e corrompe todas as instâncias de poder – da polícia à igreja. 

Descrevendo assim, Wonka pode parecer lúgubre e desventurado, mas o trabalho dirigido por Paul King (dos dois ótimos filmes de Paddington) é, na realidade, um musical terno e inocente. Para essa proposta, aliás, não poderia haver uma escolha mais certeira na direção, visto que King é não somente cheio de encanto visual, que abraça a fantasia com leveza e ingenuidade, como tem um senso de humor igualmente brincalhão e desprovido de cinismo.

Por partes. Os dois primeiros A fantástica fábrica de chocolate têm diferenças notáveis entre si: o primeiro tinha um visual em tons pasteis convidativos, mas um realismo cheio de desconfianças e desilusões; já a versão de Tim Burton usava a tecnologia para criar uma fábula soturna típica do diretor, escondendo singeleza e otimismo infantis por baixo da atmosfera triste. Ou seja, o filme de 1971 era quase uma obra adulta disfarçada de infantil ao passo que o de 2005 era um filme infantil num corpo sombrio.

Wonka, por outro lado, é infantil em todos os aspectos. Muito da melancolia do livro de Dahl está presente aqui – sobretudo nas lembranças que o protagonista, vivido com sentimento e carisma por Timothée Chalamet, guarda de sua mãe (Sally Hawkins) –, mas o que contamina a maior parte do projeto é o espírito de aventura e magia que Willy evoca. A própria escolha do musical como gênero dominante ajuda a imprimir essa suspensão de descrença (apesar das canções novas passarem longe do memorável), logo, não existem explicações racionais para a maior parte dos acontecimentos do filme. Na maneira como as coisas se atropelam e se revolvem através das músicas, ele remete até ao afobado O rei do show, numa chave inequivocamente mais honesta e bem intencionada.

Num conjunto tão doce, não haveria espaço para a excentricidade sugestiva e sádica das interpretações Wilder ou de Depp. O Wonka de Chalamet, ator sem tanto gingado para comédia e apenas operante na hora de soltar a voz, é, portanto, menos uma versão jovem dos antecessores e mais um mágico sonhador totalmente novo a partir da iconografia estabelecida. As aparições pontuais do Oompa-Loompa (Hugh Grant), por exemplo, servem mais como lembrança nostálgica do que como motor da trama.

Coerente com seu personagem, Wonka ambiciona sentimento e brincadeira em detrimento de grandes reinvenções de forma ou estrutura. O que pode parecer um passo modesto se revela uma boa receita para dar luz – ou gosto – ao que todos julgavam já conhecer.

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