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CRÍTICA

'Maestro' busca tanto uma apresentação prestigiosa ao ponto de ficar distante

Filme dirigido por Bradley Cooper e estrelado por ele e por Carey Milligan trata da relação entre o regente Leonard Bernstein e sua esposa Felicia Montealegre

Andre Guerra

Publicado: 21/12/2023 às 15:19

/Netflix/divulgação

(Netflix/divulgação)

Quando estrelou e estreou na direção com a quarta versão de Nasce uma Estrela, em 2018, com Lady Gaga no papel principal, Bradley Cooper conquistou a crítica, o público e a temporada de premiações com uma abordagem que, durante alguns anos, parecia ter ficado para trás: o romance naturalista clássico. Agora com Maestro, já disponível no catálogo da Netflix após ganhar sessões especiais no cinema, o ator/diretor segue na toada de filmes relacionados a música, mas, desta vez, com a história real de Leonard Bernstein, conhecido como o primeiro  grande regente norte-americano e célebre na direção da Filarmônica de Nova York.

Contando a vida do personagem desde a juventude, quando suas imensas habilidades como compositor foram reconhecidas, Cooper – que o interpreta com inegável empenho e perfeccionismo, auxiliado por uma maquiagem irrepreensível – escolhe como recorte a sua relação de três décadas com a esposa Felicia Montealegre (Carey Mulligan), mãe de seus três filhos e por quem ele tinha um amor imensurável. Durante o casamento, Bernstein teve vários casos com outros homens e, apesar do consentimento dela, a forma dele agir e misturar pessoas, trabalhos e circunstâncias se tornou, argumenta o filme, o principal conflito do casal.

É curioso que, enquanto Nasce uma Estrela dá uma roupagem contemporânea para uma estrutura clássica de modo bastante natural, Maestro, por outro lado, soa como uma tentativa mais vaidosa e calculada de reconhecimento no Oscar. A parte inicial da história, por exemplo, é filmada em um preto e branco de ar prestigioso que tem a função de transportar o público para os anos 1940 (quando os protagonistas se conheceram), mas que, com todos os malabarismos de câmera e jogos de luz, acaba distanciando o público de qualquer humanidade dos personagens.

Apesar das interpretações cheias de detalhe e expressividade, Maestro falha em mergulhar o espectador nesses dilemas complicados e emocionalmente devastadores pelos quais Leonard e Felicia passam. Na primeira discussão pesada do casal, o roteiro despeja de modo expositivo várias questões que mal foram vistas ou sentidas até então, ao passo que a fotografia, novamente encantada consigo mesma, tem sempre uma maneira de resolver a cena com um truque de luz pomposo. Há outra sequência – um enorme plano contínuo envolvendo a regência de Bernstein numa igreja, observado por Felicia – que é uma perfeita demonstração de afetação: um plano que grita para que espectador perceba a sua genialidade.

Não há problema, em princípio, com essa linguagem maneirista e afetada, especialmente quando ela é assumida pela unidade do projeto. Este aqui, porém, quer notoriamente se filiar a uma tradição de cinebiografia emocional e classuda, só que expõe tanto seu método que o filme se torna artificial.

À medida que se aproxima do desfecho, Maestro diminui essa obsessão por lances poderosos, ganha força dramática e até algumas sutilezas. O ato final consegue encontrar os respiros que a obra parecia sufocar, momento no qual a já excelente atuação de Carey Mulligan tem ainda mais espaço.

Justiça seja feita, Cooper cumpre o que muita gente considera principal critério para uma cinebiografia bem sucedida: retratar o(a) biografado(a) com realismo e produção virtuosa. O esforço para acertar a receita do prestígio, no entanto, aparece mais em Maestro do que a carga emotiva da história de Bernstein e Felicia. A experiência tem uma aparência vistosa e cheia de bons momentos, mas é também, no geral, um tanto remota.
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