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CINEMA

'Batem à Porta' usa dilema de fim do mundo para exercício de suspense

M. Night Shyamalan faz um de seus trabalhos mais diretos e regulares, ainda que perca força no terceiro ato

André Guerra

Publicado: 02/02/2023 às 10:00

/Estrelado por Jonathan Groff, Ben Aldridge e Dave Bautista, longa é adaptado do livro 'O Chalé no Fim do Mundo'. Universal/Divulgação.

(Estrelado por Jonathan Groff, Ben Aldridge e Dave Bautista, longa é adaptado do livro 'O Chalé no Fim do Mundo'. Universal/Divulgação.)

De férias numa cabana isolada na floresta, a pequena Wen (Kristen Cui) está sozinha caçando gafanhotos no mato quando avista, de longe, um estranho se aproximando lentamente. O homem se apresenta gentilmente como Leonard (Dave Bautista) e diz querer fazer amizade, mas ela logo percebe que ele está acompanhado de três pessoas que carregam armas brancas pesadas e vai avisar aos seus dois pais, Andrew (Ben Aldridge) e Eric (Jonathan Groff). Os desconhecidos insistem em entrar para conversar, mas ao encontrarem resistência, invadem o local e fazem os três de refém, afirmando que estão ali para executar o trabalho de convencê-los a sacrificar um membro da família e, assim, impedir o apocalipse.

Em cartaz nos cinemas, Batem à Porta leva a dúvida sobre a veracidade do que aquelas pessoas falam por tempo suficiente para o espectador não tirar os olhos da tela. Com uma carreira vasta em ideias novas, célebre pelos altos e baixos na sua receptividade, o diretor e roteirista M. Night Shyamalan (cujos esforços mais aclamados incluem O Sexto Sentido, Sinais e Fragmentado) vem fazendo exercícios de gênero francos e diretos desde seu retorno às graças do público com A visita. Nessa nova fase, é sintomático que ele tenha decidido filmar tropos batidos como o “filme de cabana” e a “invasão domiciliar” para dar as doses certas de complexidade ao dilema moral que os protagonistas terão de enfrentar.
Adaptado do livro O chalé no fim do mundo, o filme parece um projeto tematicamente sob medida para Shyamalan, que se especializou não apenas em suspense, mas em narrativas em que o sobrenatural se mistura ao mundo real de forma quase indivisível. Em alguns deles, é a própria crença coletiva no místico que corrobora sua existência. Aqui em Batem à Porta, o assunto se repete com maior intensidade, já que o cineasta concentra nossa visão no espaço fechado, e, com a pandemia, ganha sobretons de contemporaneidade ao trabalhar a tensão na possibilidade constante do fim do mundo.

Shyamalan não ignora a interpretação de que tudo se trata de uma “punição” àquela família por ser constituída de um casal homoafetivo. Na voz do personagem Eric, de longe o mais proativo e resiliente, o filme reitera a percepção de toda aquela suposta necessidade de sacrifício recair justamente sobre as costas de pais gays, mas frequentemente joga essa hipótese fora com diferentes desculpas (algumas colam, outras não). 
Ainda que os assuntos clamem por debates, a força de Batem à Porta está na praticidade da resolução dos conflitos e na objetividade inventiva da câmera enquanto desliza por esse único cenário. A maneira como o diretor sugere a estranheza através de uma luz no espelho é gloriosa e a ambiguidade criada pelo tratamento dos antagonistas deixa a situação com boas doses de ansiedade. É provavelmente seu trabalho mais prático e regular em muito tempo – a falta de brilho e impacto do desfecho certamente tem a ver com isso –, mas também um dos mais bem resolvidos em suas ambições. 
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