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CRÍTICA

'Halloween Ends' foca menos em Michael Myers e mais no legado de sua violência

Desfecho deliberadamente anti-climático da trilogia adia ainda mais o confronto com o vilão, o que traz vantagens e desvantagens

André Guerra

Publicado: 13/10/2022 às 14:50

/Longa encerra nova trilogia comandada por David Gordon Green e marca despedida de Jamie Lee Curtis no papel de Laurie Strode. Universal/Divulgação.

(Longa encerra nova trilogia comandada por David Gordon Green e marca despedida de Jamie Lee Curtis no papel de Laurie Strode. Universal/Divulgação.)

Já no seu capítulo anterior, o divisivo Halloween Kills, lançado no ano passado, essa nova trilogia comandada por David Gordon Green e iniciada em 2018 com Halloween vem se mostrando cada vez mais preocupada em politizar sua história, adicionando camadas à mitologia do icônico assassino Michael Myers, dando sequência ao enredo original do clássico de 1978 e ignorando completamente as inúmeras continuações lançadas desde então.
 
Esse esforço em honrar o legado da obra de John Carpenter fica evidente na dramaticidade e tom solene com que os três filmes exploram a relação da protagonista Laurie (Jamie Lee Curtis) com o vilão, num antagonismo que, a seu modo, vem ganhando contornos até metafísicos.

Pelo bem e pelo mal, a promessa de um grande embate reservado para o suposto encerramento da saga, Halloween Ends, em cartaz, provavelmente será frustrada justamente devido a essa exploração das dimensões do mal que assombra a comunidade de Haddonfield. No filme, Michael Myers está desaparecido há quatro anos, mas a população está longe de ter esquecido os horrores passados nos longas anteriores, os quais Laurie narra através de um livro enquanto tenta se recuperar do luto pelo assassinato da filha. A misteriosa ausência do assassino parece transformar o medo, a raiva e a maldade num vírus que contamina todas as relações da cidade até criar novos monstros.

É bastante sintomático que a usual cena de abertura em Halloween ends subverta as expectativas do público ao estabelecer a presença do mal através apenas de alguns códigos (a porta aberta, a faca na mesa, a luz apagada), como se nem precisasse da manifestação física para se poder senti-lo. A cena culmina num conflito que parece paralelo, mas revela uma das razões de existir do filme: o novo personagem apresentado aqui, Corey (Rohan Campbell), é o bode expiatório de culpa, solidão e sofrimento do roteiro assinado por Gordon Green. Acusado e hostilizado devido a um incidente trágico, o jovem se torna o vetor principal da trama à medida em que se aproxima da neta de Laurie, e, progressivamente, traz de volta a figura mascarada.

O aguardado confronto entre a heroína e o vilão, portanto, sofre adiamentos proporcionais às também espaçadas aparições de Michael Myers. A mancha de ódio e ressentimento impregnada em Haddonfield segue todas as interações entre os personagens (principais e secundários) e o diretor, em mais uma tentativa arriscada, porém notável, de subversão, estica esse mote até onde pode.
 
A consequência negativa inevitável é que Halloween Ends não tem tempo para aprofundar todas as suas ideias, que tomam caminhos abruptos e dramaticamente pouco convincentes. Mais cedo ou mais tarde - nesse caso, mais tarde -, os momentos esperados de terror precisam acontecer para atingir a conclusão epicamente satisfatória, o que faz do filme ironicamente lento e apressado demais.

Gordon Green, cineasta sem experiência prévia relevante com o gênero e que se revelou com essa trilogia, mantém a coerência formal dos capítulos anteriores, as mortes brutalmente explícitas e a atualização bem feita da atmosfera de tensão social presente em quase toda a obra de Carpenter (aqui são nítidos ecos de Christine: O Carro Assassino, por exemplo), mas seus comentários sobre as 'formas do mal' rapidamente ficam redundantes e, ao final, abandonados em função do que presumivelmente interessa à plateia: o embate com o 'monstro'. 
A ousadia da subversão de expectativas é admirável e, na maior parte do filme, feita com um propósito, respondendo bem ao atual momento do mundo. Para boa parte dos espectadores, no entanto, esse tom resignado que impera em Halloween Ends pode facilmente ser encarado com frustração.
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