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CRÍTICA
Em 'Men: Faces do Medo', alegorias bizarras revelam a perpetuação da masculinidade tóxica
Filme de horror de Alex Garland (diretor de 'Ex Machina' e 'Aniquilação') tem um dos finais mais inesperados e controversos do ano
Publicado: 07/09/2022 às 11:42
(Filme de terror é dirigido por Alex Garland, de Ex Machina e Aniquilação, em seu trabalho mais polêmico e divisivo até o momento. A24/Divulgação.)
Um longo e tortuoso pesadelo está longe de ter acabado para Harper (Jessie Buckley), que viu o relacionamento abusivo pelo qual vinha passando terminar em tragédia. Instantes antes de pular da cobertura do prédio, seu marido ameaçou que o faria caso ela fosse adiante com o divórcio, deixando clara com palavras a intenção de culpá-la pelo resto da vida.
Na busca pela cura desse trauma, ela aluga uma casa em um vilarejo remoto no interior da Inglaterra, onde sente a possibilidade de reconexão consigo mesma e, por tabela, com a natureza. Não demora muito, no entanto, para que a protagonista e o espectador percebam algo de errado naquele lugar — especialmente nos homens da região, que parecem persegui-la por todos os lados.
O que faz toda a diferença na criação do isolamento opressivo de Harper em Men: Faces do Medo, que estreia nesta quinta, é o fato de todos os personagens masculinos que surgem no vilarejo serem interpretados pela mesma pessoa (Rory Kinnear). Através de maquiagem e efeitos visuais, o ator encarna as múltiplas personificações de toxicidade masculina esquivando-se do exibicionismo performático e aproveitando o humor sarcástico inerente a esse conceito, do qual a interpretação literal inequívoca tende a se resume a “todos os homens são iguais”.
Conhecido por híbridos de ficção científica com terror psicológico, o diretor e roteirista Alex Garland (Ex Machina e Aniquilação) vem se especializando em atmosferas convidativas, verdes e paradisíacas que paulatinamente tornam-se ameaçadoras, materializando a perturbação interna dos personagens. No caso de Men, o cineasta abandona a aproximação cerebral com a ficção científica para criar um terror alegórico de estrutura quase experimental, movido mais pela sensação prolongada de desconforto e menos por uma trama com acontecimentos objetivos.
A ciência e tecnologia que marcaram seus filmes anteriores se convertem, desta vez, em elementos surrealistas do folclore britânico e até analogias bíblicas, o que, do ponto de vista temático, o coloca mais emparelhado com os controversos Anticristo, de Lars von Trier, e Mãe!, de Darren Aronofsky, do que com os demais filmes de Alex Garland — que, por sua vez, já demonstravam esse pendor para a parábola religiosa/existencial.
A simbologia social de Men é assumidamente desprovida de qualquer sutileza e seu comentário acerca das distintas representações do patriarcado (as figuras do policial, do padre, do adolescente, entre outros), não traz toda a epifania que a sofisticação visual e sonora do diretor tenta transparecer. Ainda assim, o debate sobre a masculinidade tóxica ganha vigor na forma como Alex Garland lida com a culpabilização feminina feita por homens que, segundo o filme, carregam uma ancestralidade de violência e misoginia cuja manifestação não encontra mais lugar num contexto mundial em desconstrução — um tópico particularmente ilustrado numa das sequências finais mais grotescas e inesperadas dos últimos tempos.
O maior mérito de Men, no entanto, é explorar imageticamente esses símbolos priorizando o impacto sensorial. Na intercalação entre as cenas do presente e os flashbacks das discussões de Harper com o falecido marido, o terror ganha uma força poderosa de conexão do espectador com a culpa da protagonista, fazendo o assunto sair da pura explanação e ganhar concretude. Se não é (e dificilmente poderia ser) uma visão profunda sobre a experiência feminina num mundo sexista, funciona como um bizarro e inquietate exercício de gênero.
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