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CINEMA
Em 'Tár', Cate Blanchett dá vida a uma poderosa maestrina no limite de perder o controle
Filme dirigido por Todd Field é um dos mais complexos e desafiadores do ano
Publicado: 27/08/2022 às 10:05
(Filme dirigido por Todd Field concorre a 6 categorias no Oscar, incluindo melhor filme, melhor atriz e melhor direção.)
A arte da condução se tornou para Lydia Tár (Cate Blanchett), primeira diretora feminina da Filarmônica de Berlim, uma espécie de Olimpo musical do qual observa e controla quase tudo o que está ao seu alcance, dentro e fora do palco. Sob um falso semblante de modéstia, a maestrina não destaca o mérito de ser pioneira num meio masculino e advoga de maneira contundente em suas aulas sobre a importância da separação entre a obra e a vida pessoal do autor. Mas justamente em um momento criativo crucial, a gravação ao vivo da Sinfonia de nº 5 de Gustav Mahler, seus dias se tornam progressivamente assombrados por algumas de suas atitudes — e todo o seu equilíbrio aparentemente inabalável começa a ruir.
Dizer que Tár, em cartaz nos cinemas, é um complicado retrato da queda lenta e corrosiva de uma pessoa que vê tudo e todos de cima para baixo não faz jus à elegância e ousadia do filme escrito e dirigido por Todd Fiel, que tem apenas outros dois longas no currículo (os também premiados Entre Quatro Paredes e Pecados Íntimos). Vale lembrar que ele escreveu essa personagem fictícia exclusivamente para Cate Blanchett, agora indicada pela 8ª vez ao Oscar.
Apresentada ao público desde o começo como uma personalidade forte e imperiosa, Lydia Tár demonstra com suas performances no palco a dimensão obsessiva de sua relação com a música e como isso afeta o trato que ela tem com as pessoas em volta.
É muito importante que Tár provoque logo no primeiro ato – dedicado a questões técnicas do mundo da música e, portanto, distante para grande parte do público – a sensação de que se está diante de uma protagonista impenetrável. O filme, afinal, vai gradualmente tirando todas as máscaras de poder dela para torná-la não exatamente relacionável, mas vulnerável (às forças externas que vão além do seu controle e, sobretudo, a si mesma).
Em um trabalho que frequentemente flerta com o terror psicológico, esses desdobramentos poderiam cair no esquematismo da ‘espiral de loucura’, mas o desempenho formidável de Blanchett humaniza Lydia a níveis imprevisíveis, escapando de qualquer obviedade ou justificativa apaziguadora.
O debate sobre as convicções do artista e a durabilidade da arte que ele produz (trazido numa cena desconfortável, mas virtuosa) está refletido na própria trajetória da protagonista: personalidade mundialmente aclamada por seu trabalho, mas de caráter questionável e atitudes abusivas, Lydia é uma pessoa mais difícil de decifrar quanto mais o espectador a conhece, já que o contato com sua intimidade, virtudes e características desprezíveis, tira o filme de qualquer zona de conforto.
Todd Field rejeita julgamentos morais e não sucumbe ao mais remoto tipo de sentimentalismo. Os seus enquadramentos são gélidos, precisos e simétricos, mas, ao mesmo tempo, propensos ao descontrole e ao abstracionismo assim como Lydia.
Assistir a um estudo de personagem tão sem concessões como Tár demanda não apenas paciência, mas também alguma disposição para mergulhar em conflitos sem respostas. A gratificação vem em testemunhar uma interpretação que compõe com tantos detalhes e texturas uma pessoa fictícia que se torna quase impossível não enxergá-la como uma figura mitológica da vida real.
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