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MEDIDA PROVISÓRIA
'A distopia já chegou e já estamos nela': confira entrevista com Lázaro Ramos
Publicado: 05/04/2022 às 19:29
Lázaro Ramos veio ao Recife para estrear 'Medida Provisória', longa que conta com sua direção (Romulo Chico/DP Imagem)
A semana começou com uma grande agitação cultural no Centro do Recife. Para uma plateia lotada e com direito a ingressos esgotados em poucas horas, Lázaro Ramos apresentou Medida Provisória, sua estreia como diretor de longas, no Cinema São Luiz. Acompanhado por Alfred Enoch, ator anglo-brasileiro protagonista do filme, o cineasta baiano viu um grande público tomar os quase mil lugares do equipamento cultural para uma sessão muito viva, de reações enérgicas e palavras de ordem, em especial contra o Presidente da República, engatilhadas pela ficção distópica desenvolvida por Ramos a partir do texto teatral Namíbia, não!, de Aldir Anunciação.
A narrativa do filme gira em torno de uma medida provisória decretada pelo governo do país que obriga todos os cidadãos que apresentem “mesmo que de longe”, aparência de ascendência africana retornem ao continente africano de forma obrigatória, vendida como uma atitude de reparação histórica pelos anos de escravidão. Um advogado, uma médica e um jornalista negros então encontram formas de resistir e permanecer no país. Ao final da sessão, os dois participaram de um debate sobre posturas anti racistas com o professor Érico Andrade a partir da exibição do filme.
Poucas horas antes, o cineasta recebeu a equipe do Viver para uma entrevista no hotel onde estava hospedado. Na conversa, Lázaro revelou como um dos maiores mestres e pioneiros do cinema negro brasileiro, Zózimo Bulbul, foi quem pessoalmente plantou a semente para o nascimento de seu lado cineasta, além de como seu trabalho como ator e entrevistador ajudaram nesse novo ofício e perspectivas para um futuro do cinema e do cinema negro no Brasil. Confira a entrevista:
VIVER: Dentro de um princípio de revolução que o cinema negro vem vivendo na última década no país, você, ao lado de nomes como Jefferson De, estão conseguindo levar essa produção para um circuito mais amplo, não tão restrito aos festivais. Como você vê a chegada nesses espaços e como esse cinema negro do Brasil influenciou seus caminhos?
LÁZARO RAMOS: Tem uma história negra do cinema que me alimenta desde o momento que eu decidi dirigir. Eu comecei a dirigir porque Zózimo Bulbul, quando acabei a entrevista com ele, me segurou no braço e falou ‘Lázaro, isso é uma arma, use'. Foi Zózimo que botou isso em mim, eu nunca tinha pensado em dirigir nada. Ele me alimenta em várias escolhas estéticas, escolhas de elenco, jeito de escolher textos para serem ditos. É alguém de muita relevância e é uma voz que foi muito pouco escutada no nosso cinema. O filme acaba flertando com linguagens mais populares, como a comédia, o melodrama, de forma intencional. Porque eu queria que esse filme, essa história, ocupasse as salas. Eu queria que esses temas, e alguns deles a gente nem desenvolve até o fim, mas que eles estivessem no cotidiano de mais pessoas.
VIVER: Há uma tendência na ficção distópica atual de não mais precisar datas desse futuro trágico, mas deixar em aberto, como você faz, ao colocar a narrativa em algum lugar de um futuro próximo. Você acha que essa é uma atitude que vem de um sentimento de vivermos muito próximo de um colapso.
LÁZARO RAMOS: A gente terminou a base do roteiro em 2015. O exercício era, nessa distopia, imaginar coisas que a gente não quer que aconteça, coisas catastróficas que a gente não gostaria de ver no nosso país. O filme estreia e várias daquelas situações já aconteceram. É sinal de que a distopia já chegou e já estamos nela. Inclusive foi um pouco o que determinou minha escolha de final. Eu filmei três versões do fim. Eu não sabia como terminar essa história. Como você encerra uma distopia? No final, a gente viu que o melhor remédio para a distopia era a utopia. A gente foi numa coisa utópica porque é a sensação que tenho sobre nosso dia a dia. O sonho já não tá mais dando conta das nossas angústias. Precisamos ser distópicos, pensar o inimaginável. Mesmo porque já vivemos o inimaginável. (CONTINUA APÓS VÍDEO)
VIVER: Você traz um grande elenco, mas me chama atenção o papel que você dá a Seu Jorge. Ele é um ator que o cinema brasileiro insiste em colocar ele em um lugar de tensão ou fúria. Você o coloca em um lugar de descontração e até de leveza. Por que você faz essa escolha?
LÁZARO RAMOS: Porque eu conheço Seu Jorge. Nos encontros que temos, ele é mais isso do que a tensão. Agora, curiosamente, eu queria inaugurar Seu Jorge de outra forma, o papel do Antônio (vivido por Enoch) foi escrito para ele. Minha intenção já era de quebrar esse lugar que colocam ele sempre, fazendo dele um herói romântico. Luis Miranda faria o personagem dele, que é uma escolha natural para mim pelo talento e inteligência de comédia dele. Mas ele precisou sair e eu inverti esses papéis, o que deu uma camada muito interessante ao personagem, ganhando uma força, uma nobreza e um humor inesperado que Seu Jorge tem no dia a dia e que pouca gente conhece. Jorge merecia esse personagem. Ele é tão múltiplo e ele não foi visto com a multiplicidade de talentos que ele ainda tem como ator.
VIVER: A história do cinema é repleta de jornadas bem sucedidas de atores que decidem dirigir, de Clint Eastwood ao seu conterrâneo Wagner Moura. Queria entender um pouco como essa experiência prévia, como ator e também como entrevistador, ajudaram no Lázaro diretor?
LÁZARO RAMOS: O tipo de ator que sou, formado no Bando de Teatro do Olodum, na Bahia, é um ator que observa as pessoas e tenta representar vozes que não estão em cena, sempre. Eu fui treinado assim minha vida toda. Eu nunca consegui ser um outro tipo de ator. Isso acaba indo para o jeito que eu entrevisto, que eu escuto e provoco. O diretor também é assim, o diretor que apareceu em mim e que eu não sabia como seria. Achei que eu não teria recursos para conversar com os atores e foi o oposto. A minha escuta como diretor é um estímulo para que as pessoas se sentissem donas do filme, porque de fato são, aí entra o lado ator. O jeito de eu explicar a cena por intensidade de cada ator, por exemplo. Isso me ensinou que são dois lugares próximos, esse lugar de oferecer valorização para cada pessoa.
VIVER: E a partir de toda essa experiência, como você vislumbra o futuro do cinema negro brasileiro?
LÁZARO RAMOS: Acho que a parte positiva é que a gente tem bons contadores de histórias. A mão de obra fica cada dia mais interessante. Quando você vai ver o coletivo de Minas, a Glenda Nicácio, o Ary Rosa, um monte de filme que vai chegar e eu já tive a chance de assistir, a gente tem uma mão de obra que merece espaço. O futuro eu não sei porque qual vai ser o futuro do cinema no Brasil? Um futuro de um país que não tenha compreensão de quão o cinema é estratégico e importante, falando em relação à política pública. Não dá para imaginar o futuro. O momento em que os streamings estão chegando, estão tomando o mercado com suas próprias regras, sem ainda uma regulamentação ideal para o mercado nacional. Enquanto não tiver essa conversa, não dá para pensar em futuro. Não sei qual o futuro. Ele consiste em pessoas com ideias e qualidades para contar histórias. Mas a viabilização prática disso tudo, eu não sei.
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