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André Santa Rosa lida com ruínas geograficas e internas em livro de poemas
Publicado: 28/03/2022 às 12:00
André Santa Rosa lançou Retratos de ruínas & outros fantasmas comuns com 35 poemas (Divulgação)
Quando o poeta e jornalista André Santa Rosa saiu de Maceió para estudar no Recife, a experiência do deslocamento foi intensa, pois muitos dos lugares que precisou deixar para trás não permaneceram como estavam, passando também por mudanças drásticas. Durante o período, por exemplo, viu bairros de sua infância e juventude tremerem e afundarem, em decorrência do desastre promovido pela petroquímica Braskem na exploração do sal-gema na capital alagoana. Tais transformações vieram acompanhadas por situações parecidas tanto no interior de sua intimidade, como no país como um todo. É a partir dessa experiência que ele construiu os 35 poemas que compõem o livro Retrato de ruínas & outros fantasmas comuns, lançado na última quarta-feira pela editora Urutau.
“Nesse processo de deslocamento para o Recife, mesmo que em uma distância curta, eu fui percebendo muitas coisas sobre mim e sobre Maceió ao mesmo tempo. E então, eu sentei efetivamente para escrever um livro, em um processo que durou dois anos em um ritmo muito pessoal. Eu não tinha um horário muito certo para fazer isso, é um processo mais solto, quando vem alguma coisa, eu escrevo. Mas isso não significa que eu não paro em certo momento para trabalhar o livro”, relata André sobre o processo de reunir todas essas vivências tão transformadoras em poemas.
Foi um período em que muita coisa que existia em sua vida virou ausência, no qual as transformações/devastações do mundo ao seu redor conversavam diretamente com aquelas de suas relações interpessoais e internas. Ele saiu de casa ao mesmo tempo em que outras 40 mil também o fizeram, cimentando na cidade bairros fantasmas. Viu o time da infância, o CSA, ter que abandonar seu centro de treinamento, assim como as casas de amigos que permeiam as memórias de sua infância. “Eu também tinha saído de casa, emocionalmente falando, quando vi que Maceió estava nessa situação. Então algumas coisas acabam se confundindo e o sentimento das coisas macro se confundem com os sentimentos pessoais”, elabora.
E no meio dessa sequência de abalos, acabou ainda vindo uma pandemia, que acabou entrando em convergência com uma dimensão espacial que Santa Rosa trabalha em seus poemas. Em um momento que os lares foram quase que os únicos espaços que pudemos habitar, tais espaços são quase que essenciais na construção poética de Retratos de Ruínas. Em seu posfácio, o crítico Schneider Carpeggiani fala sobre como o livro tem um aspecto de mapeamento de uma casa assombrada, um lugar deixado pra trás, mas não sem antes deixar algo de si nele. As casas da infância viraram apartamentos cada vez menores, no qual se apertaram ainda mais as memórias e o sentimento do que não estava mais lá.
“Eu falo muito do lugar onde se mora. Eu morei em uma casa até os 12 anos, em um bairro longe, depois fui para um apartamento e indo para outros apartamentos que, na pandemia, virou esse único lugar de se estar. Então acabo sendo atravessado por todas essas mudanças de paisagens, de formas de habitar e viver. Quando escrevi, lembrei muito dos versos de Ana Cristina Cesar em A teus pés, ‘preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios’. Sempre que eu pensava nesse vazio, eu pensava naquela minha primeira casa de infância, que hoje é uma casa abandonada”, conclui.
Retratos de ruínas & outros fantasmas comuns está à venda no site da editora Urutau, custando R$ 40.
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