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CRÍTICA

'A Pior Pessoa do Mundo' explora angústias e descobertas da vida adulta

Comédia dramática de Joachim Trier venceu o Prêmio de Interpretação Feminina no Festival de Cannes (para Renate Reinsve)

Andre Guerra

Publicado: 30/03/2022 às 15:46

/Em cartaz nos cinemas, filme norueguês dirigido por Joaquim Trier foi nomeado às categorias de filme internacional e roteiro original no Oscar 2022. Diamond Films/Divulgação.

(Em cartaz nos cinemas, filme norueguês dirigido por Joaquim Trier foi nomeado às categorias de filme internacional e roteiro original no Oscar 2022. Diamond Films/Divulgação.)

As responsabilidades e cobranças do mundo adulto bateram na porta de Julie há alguns anos, mas ela não apenas deixa de atender como, indiretamente, cultiva nelas a expectativa de que em instantes serão recebidas. Esse é mais ou menos o mote do norueguês A Pior Pessoa do Mundo, que concorreu ao Oscar nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original, e segue em cartaz no Brasil.
A protagonista, vivida pela vencedora do prêmio de atuação feminina do último Festival de Cannes, Renate Reinsve, acaba de fazer 30 anos e se apaixona por Aksel, um romancista prestigiado e mais de uma década mais velho. Ele sonha com um futuro sólido ao lado dela, um sentimento nem de longe recíproco.
Apesar da boa relação que o casal constrói, o encontro com um desconhecido numa festa acaba balançando a cabeça e o coração de Julie. Embora não chegue a trair o companheiro — ao menos não na sua ideia de traição — fica evidente que sua visão do relacionamento com Aksel já não é mais a mesma e que uma profunda insatisfação tomou conta de sua mente.
 
O diretor dinamarquês Joachim Trier, juntamente com o co-roterista Eskil Vogt, compõe um mosaico de expectativas criadas em torno da figura feminina — em especial a da mulher na faixa etária de Julie — do qual sobretudo ela não é capaz de se desvencilhar. Ao mesmo tempo que a protagonista é dona de desejos incontroláveis e de uma personalidade fluida que descamba às vezes para a imaturidade, existe sempre um acúmulo de culpas por não corresponder às expectativas criadas pelas pessoas próximas. Culpa que é ao mesmo tempo cultivada pelos homens ao seu redor como também fruto da cobrança pessoal de decidir um rumo na vida.
Apesar de tratar essa voluptuosidade de sensações com um contumaz senso de humor, A Pior Pessoa do Mundo não se torna refém de nenhuma amarra narrativa de gênero. O que, a princípio, se assemelha a um desenrolar próximo à comédia romântica gradualmente se metamorfoseia em um filme de realismo não raro bastante dolorido.
 
 
 
Ainda que sua filmografia inteira até aqui tenha abordado com grande versatilidade o impacto de tragédias na vida das pessoas (seja em dramas como Oslo - 31 de Agosto e Mais Forte que Bombas, seja no suspense sobrenatural Thelma), o cineasta ainda não tinha trabalhado com essa virada de chave tão verdadeira da leveza para a tristeza. Sua câmera parece tão fluida e em busca de vida nos cenários como a própria Julie; suas pontuais — e precisas — inserções de trucagens de visuais desestabilizam o tom e as sensações de modo incrivelmente apropriado para representar sua protagonista.   
Mas talvez o que mais encanta seja como Trier constrói essa jornada não a partir de uma lógica de julgamentos e racionalismos, e, sim, de descoberta. O libertador amadurecimento de Julie é um processo natural de erros e acertos que se desamarra das convenções e pode ser também assustador na sua imprevisibilidade. Em momento algum da vida se sabe exatamente qual o caminho certo a se escolher, mas o que nos faz as melhores pessoas do mundo é justamente a obstinada tentativa de acertar.
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