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Entrevista: José Paulo Cavalcanti Filho, pernambucano é o novo imortal da Academia Brasileira de Letras

Publicado em: 10/01/2022 14:49

Jurista, escritor, ex-ministro e agora membro da Academia Brasileira de Letras, José Paulo Cavalcanti Filho recebeu o Diario para uma longa e boa conversa (RÔMULO CHICO/ ESP. DP FOTO)
Jurista, escritor, ex-ministro e agora membro da Academia Brasileira de Letras, José Paulo Cavalcanti Filho recebeu o Diario para uma longa e boa conversa (RÔMULO CHICO/ ESP. DP FOTO)
Por João Rêgo e Paulo Losada

Pernambuco tem um novo representante na Academia Brasileira de Letras (ABL). O jurista e escritor José Paulo Cavalcanti Filho, de 73 anos, tomará posse no dia 10 de junho. Ele foi eleito no dia 25 de novembro para a cadeira de número 39, antes ocupada pelo vice-presidente Marco Maciel, falecido em junho do ano passado.

Formado pela Faculdade de Direito do Recife, José Paulo tem livros publicados em 12 países. O destaque vai para a obra Fernando Pessoa: Uma quase autobiografia (618 pgs), um mergulho historiográfico, sentimental e revelador na vida e obra de um dos maiores poetas portugueses da história. Foi com este livro que o escritor venceu os prêmios Jabuti, Dário Castro Alves, José Ermírio de Moraes e o da Bienal do Livro, além de várias premiações no exterior, incluindo o Il Molinello, na Itália. 

Para não falar apenas dos méritos literários, o currículo de José Paulo também se estende para sua atuação como integrante da Comissão Nacional da Verdade, além dos cargos de secretário-geral do Ministério da Justiça e ministro (interino) da Justiça no governo de José Sarney, presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CA- DE), da EBN (depois Empresa Brasil de Comunicação- EBC) e do Conselho de Comunicação Social (órgão do Congresso Nacional). E por último (mas não menos importante), o primeiro surfista do Nordeste.

Em uma segunda-feira chuvosa, na Academia Pernambucana de Letras, onde ocupa a cadeira 27, José Paulo Cavalcanti concedeu entrevista ao Diario. Entre os assuntos, as memórias do período militar, a paixão pelo surfe, a eleição na ABL, sua missão como um imortal e a atualidade do Brasil.

ENTREVISTA JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO // JURISTA E ESCRITOR

A ELEIÇÃO NA ABL Sinto como se fosse uma homenagem a Pernambuco. Essa cadeira tem a cara de Pernambuco, a começar pelo primeiro ocupante dela, Oliveira Lima. Quem foi ele? Para Gilberto Freyre, “um Don Quixote gordo”, um grande autor que deixou uma biblioteca brasileira que hoje está em Washington. A Academia tem um problema, porque os estatutos foram redigidos por Machado de Assis, e ninguém cogita alterar o que Machado deixou. Só que no tempo do estatuto, se você morasse em Pernambuco, quisesse chegar ao Rio de Janeiro e não tivesse a sorte de pegar um vapor ou navio, você passaria um mês para chegar. A primeira relação eram 25 nomes e ele exigia que todos morassem no Rio, e até hoje é assim: dos 40 membros da ABL, 25 devem morar no Rio. Então os muitos pernambucanos que andaram pela Academia tinham uma característica comum: todos já moravam no Rio quando foram eleitos. Apenas um continuou morando em Pernambuco, que foi Mauro Mota. Então, há 40 anos não tinha um pernambucano que morava em Pernambuco eleito para a Academia.

As reações Uma pergunta que você pode fazer sobre minha entrada na ABL é “o que lhe impressionou mais?” A resposta é a reação de determinados cidadãos comuns, que eu jamais esperaria que fosse tão calorosa. Quando eu cheguei no meu edifício, os 12 funcionários estavam perfilados batendo palma, e eu abracei um por um. De noite, fui a um casamento, e o abraço dos letrados era previsível, mas quando eu saí, alguns f lanelinhas chegaram a bater palmas. No sábado, fomos à missa no Milagres (Igreja de Santa Cruz dos Milagres, em Olinda) e, quando acabou, pediram para eu ficar, e a comunidade pediu para fazer homenagens. Me deram uma caneta e fizeram uma camiseta preta, na qual estava escrito “O imortal”. Vesti a camiseta e bati foto de um por um. No domingo, Dona Graça Brennand fez uma missa em minha homenagem. Os outdoors também, eu não consigo agradecer porque não sei quem colocou. Esse tipo de coisa mostra a força da instituição, mas também que ainda é inusual que alguém que more aqui se eleja.

O TRÂMITE Perguntei a um acadêmico amigo meu, Alberto Venancio, “o que é preciso para entrar na Academia?”. Ele me respondeu: “Primeiro entrar, e depois ser eleito”. Eu já havia entrado e era amigo de todo mundo. Então, era uma coisa na cabeça dos meus amigos meio natural, mas na minha não, porque eu tenho ciência dos meus limites. Acertaram que seria na vaga de Alfredo Bosi, mas eu fiquei incomodado, porque ele não tinha nada a ver comigo. Mas houve um problema: Paulo Niemeyer Filho também iria entrar, e eu disse que não ia disputar com ele. “Digam a ele que a vaga é dele”, eu disse. E é aí onde entra o destino: dois dias depois de eu ter declinado, morre Marco Maciel, que era meu amigo e tem tudo a ver com Pernambuco.

Então era muito mais natural eu ir na vaga de Maciel do que na de um crítico paulista. Fernando Pessoa, inclusive, dizia que o destino “são malhas que o império tece”, é o destino montando o seu joguinho, conspirando comigo. No processo, você tem que informar a todas as pessoas que você é candidato. Minha mulher providenciou uma caixa com todos os meus livros e mandou para cada imortal. Eu tive que ligar para todos e visitar os que estavam recebendo pessoas, e cada uma dessas visitas eram horas conversando. A Academia não é só o mérito literário, é também o fato que você vai conviver pelo resto da sua vida com aquelas pessoas. Eu não pretendo ir toda semana para as reuniões, mas certamente a cada duas semanas eu irei.Paulo coelho Também tem uma história engraçada. Uma das pessoas que eu tinha que contatar era Paulo Coelho. Eu liguei para ele durante durante três semanas pela manhã, à tarde e à noite, e todos os seus telefones estavam desligados. Mandei e-mails, não tive resposta. Então, um amigo meu disse que ele só respondia por telegrama. Gastei R$ 1 mil com o telegrama e nada. Mandei uma carta para ele, e ele também não respondeu. Mas minha mulher, entre os livros que enviou, colocou o relatório que a gente fez na Comissão Nacional da Verdade. Certo dia, quando eu estou em casa, meu telefone toca. Era Paulo Coelho. Ele me disse: “Doutor, você sabia que eu fui torturado?”, e me contou as torturas que sofreu. “Estou vendo aqui que você foi da Comissão Nacional da Verdade, e eu me sinto redimido pelo trabalho dela. Então, como é que eu posso negar o voto a quem esteve nela? É uma honra para mim votar no senhor”. Então, eu considero que quem ganhou esse voto foi Maria Lectícia.

A ACADEMIA O primeiro artigo da ABL diz: ela foi feita para defesa da língua nacional e da cultura. Então eu penso que é preciso retraduzir essas palavras para dar-lhes um sopro de modernidade. A língua não é mais apenas um conjunto de símbolos articulados para produzir uma ideia. Ela tem que ser mais. Tem que ser um instrumento que diga quem somos, quem fomos e quem queremos ser. É compreender que a língua se renova continuamente, sobretudo em tempos da internetização, que cria um net speaking, e temos que compreender isso como sendo a norma. A língua é fator de unidade nacional e não há muitos. Tem o futebol, as novelas da Globo, mas tem a língua que nos une de uma ponta a outra do Brasil. É também compreender que existem duas línguas, a língua oficial dos letrados e a do determinado cidadão comum, que fala a língua errada do povo - segundo Manuel Bandeira, “a língua certa do povo”. Então, é sobretudo compreender que não há nada mais moderno, revolucionário, transformador e democrático no Brasil do que a educação popular.

%u201CÉ sobretudo compreender que não há nada mais moderno, revolucionário, transformador e democrático no Brasil do que a educação popular%u201D (RÔMULO CHICO/ ESP. DP FOTO)
%u201CÉ sobretudo compreender que não há nada mais moderno, revolucionário, transformador e democrático no Brasil do que a educação popular%u201D (RÔMULO CHICO/ ESP. DP FOTO)
 
Identidade do povo Eu encaro a tarefa de defesa da língua como se a academia tivesse como função básica a de formar cidadãos, o que também é cultura. A cultura é mais do que o homem faz agregando valor. É uma visão tríptica do tempo que é uma articulação entre passado, presente e futuro. Quem somos, o que queremos ser e compreender que vivemos um momento de globalização que molda nossa organização social, mas também que a cultura integra valores: o abstrato e o concreto, o pessoal e o universal, o barro e o brilho mágico das estrelas. É compreender a diversidade que molda o Brasil, e entender que a gente enriquece com ela. E quanto mais diverso o país seja, mais rico ele será. Por fim, compreender nossa identidade como povo: conceitos, preceitos, preconceitos, práticas morais, danças, cantos, sabores, o grito do gol, o espanto, rezas, mitos, saudades e esperanças. A Academia não pode ser uma instituição do Rio, ela tem que ser nacional e abrangente.

LIVROS RECENTES Escrevi dois livros recentes que me deram enorme prazer. Eu tinha conversas no meu escritório que eram fantásticas, e eu achava absurdo que quando eu morresse elas se perdessem. Reuni 21 histórias com o título Somente a verdade, que já foi lançado aqui, em Portugal e Israel. E o outro livro se chama Conversas de 1/2 minuto. São conversas que eu tive do presidente da República ao gari. E eu achei um prazer escrevê-las, porque eu morri de rir escrevendo.

O SURFE Eu fui o primeiro surfista do Nordeste. Eu surfava na frente do Acaiaca, e também em uma praia que fica depois de Serrambi, que o povo deu o nome de Lagoa Azul. O SporTV fez uma série sobre o surfe do Nordeste, e queriam me filmar de pranchão na praia. Eu respondi que “nem a pau”. E gravei umas 2 horas de terno (risos). Surfar foi de longe a experiência existencial mais fantástica da minha vida. Há um momento mágico que você sobe na onda e tem sempre o risco de embicar, aquele momento quevocê vira para o lado e não embica, essa é uma sensação que só sabe quem pegou onda.
 
Cenário político A radicalização impede o exercício do bom senso. O país está fraturado e dividido em dois lados e você é obrigado a escolher um dos dois. Não há espaço para o bom senso e para você fazer uma crítica isenta. Eu espero quena próxima eleição a gente tenha alguém que não seja representante de nenhum desses lados, uma terceira via, para que a gente possa reaprender a conviver com as pessoas e dar opiniões sem maiores constrangimentos. O país está muito ruim do jeito que está. Perde-se a racionalidade absoluta.

Ditadura militar Eu acho lamentável que alguém possa elogiar um tempo daquele. A gente comprovou com fichas 434 mortes via tortura. Inclusive, um torturador contumaz como Brilhante Ustra, você não pode afrontar quem morreu falando nele. No mês que Vladimir Herzog morreu e foi dado como “suicidado”, também foram “suicidados” 41 presos políticos. Lamento enormemente quem elogie um tempo que foi de tortura e assassinato. Mas também lamento quem não compreendeu que isso faz parte do passado.

A gente tem que reaprender a conviver. Lembre-se que houve 41 comissões da verdade no mundo, mas há uma diferença da nossa para essas, porque todas foram instituídas após um ano ou seis meses da transição de poder. Então, essa comissão da verdade era um instrumento para pacificar o país. Já nós chegamos 30 anos depois, com o país já pacificado.

Enterrando o passado O momento mais importante da minha vida foi o dia 7 de setembro de 1985. Porque aqui os militares me proibiram de estudar, mas também não contavam que eu conseguisse uma bolsa para Harvard. Quando eu me formei, me proibiram de ensinar. Então, eu era uma pessoa marcada por isso, quando ouvia o Hino Nacional ou via a bandeira do Brasil, era como um símbolo de opressão. Chega 7 de setembro, formado o palanque para o desfile. E aí tem uma coisa curiosa, a ordem dos ministros é pela data da sua criação, e Justiça foi o primeiro. Então eu fiquei à direita do presidente Sarney. E começa o discurso, o hino tocando sem parar, a bandeira nacional, os ex-combatentes batendo continência, e eu emocionado com aquilo tudo. Eu cheguei em casa e chorei o resto da noite, e não entendia o porquê. Depois eu entendi: eu estava dando adeus a um pedaço de mim, estava enterrando o passado. Ele passou, e nosso compromisso é com o futuro. A partir desse dia, eu comecei a ver o mundo com outros olhos. Lamento muito que certos combatentes da democracia não perceberam que o mundo avançou. A ditadura já acabou e agora nós temos outro Brasil para construir.
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