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Museu de Arte Negra, no Inhotim, é a materialização do projeto do visionário Abdias Nascimento

Publicado em: 27/12/2021 09:10 | Atualizado em: 27/12/2021 01:00

Mostra inicial tem 90 obras, 60 de autoria de Abdias, num passeio de tradição e ancestralidade. (Inhotim/Divulgação)
Mostra inicial tem 90 obras, 60 de autoria de Abdias, num passeio de tradição e ancestralidade. (Inhotim/Divulgação)
 

Brumadinho - Localizada a cerca de 60 quilômetros da capital Belo Horizonte, a cidade de Brumadinho ainda tenta se curar da tragédia provocada há quase três anos. As fotos das 270 vítimas fatais, das quais sete sequer foram encontradas, estampam o letreiro do município, num monumento à lembrança, mas também à impunidade - até hoje, ninguém foi julgado. Mais da metade da população local ainda não possui o abastecimento regular de água; produção e renda foram afetadas. Os impactos são ambientais, econômicos e sociais. O caminho pela estrada sinuosa, com vista para rios cor de lama, leva a um oásis: o Instituto Inhotim.

Maior museu a céu aberto do mundo e um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil, o espaço também foi duramente afetado pelo rompimento da barragem da Vale e posteriormente pela pandemia. Passou oito meses fechado. Felizmente, resistiu. E neste mês de dezembro, deu uma das mais importantes provas de sua força, com a inauguração do Museu de Arte Negra (MAN).

Julio Menezes e Elisa Larkin ajudaram a tornar real o sonho de Abdias por uma sede da arte negra. (Rodolfo Bourbon/DP)
Julio Menezes e Elisa Larkin ajudaram a tornar real o sonho de Abdias por uma sede da arte negra. (Rodolfo Bourbon/DP)

O espaço contará com exposições de longa duração de artistas negros. A primeira mostra não poderia ser com obras de outra pessoa além do artista plástico, poeta, escritor, dramaturgo, ator, professor universitário, político e ativista Abdias Nascimento. Afinal, foi ele quem idealizou este projeto, ainda na década de 1950, com o Teatro Experimental do Negro. "Em geral, os museus naquela época tinham concepções eurocentradas e eram fechados a artistas negros. Abdias questionou os conceitos vigentes sobre a arte moderna e promoveu um lugar para trazer o negro ao mainstream da arte", explica Julio Menezes Silva, coordenador do MAN e pesquisador do Ipeafro, parceiro do Inhotim na iniciativa.

Um dos maiores nomes da militância negra, Abdias Nascimento foi indicado oficialmente ao prêmio Nobel da Paz em 2010. A ideia de reivindicar o modernismo negro e ter sede própria é agora materializada, dez anos após sua morte, com uma espécie de quilombo na imensidão do Inhotim. “É como um museu dentro do museu, algo inédito aqui", afirma Douglas de Freitas, curador do Instituto.

Leia mais: Inhotim, um museu em movimento e que busca ainda mais conexão com o público

O pavilhão sediará o MAN até dezembro de 2023. “É uma mudança por dentro, num processo de cura frente a um racismo estrutural que nos alija de espaços como esse”, diz Julio Menezes, sinalizando planos para atrair escolas ao local, como ferramenta de implementação da Lei 10.639, sobre a obrigatoriedade da inclusão do ensino da história e da cultura afro-brasileira.

“Este projeto tem a perspectiva de construir uma ação reparatória, não apenas uma exposição, mas uma ação com benefícios para a população, para a população negra e a população do entorno”, explica a socióloga norte-americana Elisa Larkin, ex-esposa de Abdias, com quem viveu 38 anos de sonhos e luta. Ela esteve presente na abertura do museu, no início de dezembro.

Exposição será dividida em quatro atos, cada um com cinco meses de duração. (Inhotim/Divulgação)
Exposição será dividida em quatro atos, cada um com cinco meses de duração. (Inhotim/Divulgação)

TUNGA
A exposição será dividida em quatro atos, cada um com cinco meses de duração, num diálogo entre trabalhos de artistas diversos e obras do MAN, cujo acervo é fruto de doações e aquisições feitas pelo próprio Abdias, com pinturas, fotografias e esculturas. A primeira mostra é intitulada Abdias do Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra e segue até abril de 2022.

Pernambucano, natural de Palmares, falecido há cinco anos e amigo de longa data de Abdias, Tunga foi um escultor, desenhista e artista performático. Sua obra está presente desde os primórdios do Inhotim, em 2006, ocupa dois pavilhões inteiros e é fortemente influenciada pela arte negra.

A mostra inicial tem 90 obras, 60 de autoria de Abdias, num passeio de tradição e ancestralidade, onde o negro representa e é representado.

* O jornalista viajou a convite do Inhotim

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