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Don L luta por passado e futuro contra fantasias capitalistas em novo disco

Publicado em: 29/11/2021 19:32 | Atualizado em: 30/11/2021 10:17

'Roteiro Para Ainouz, Vol 2' foi lançado na última sexta-feira (Bel Gandolfo/Divulgação)
'Roteiro Para Ainouz, Vol 2' foi lançado na última sexta-feira (Bel Gandolfo/Divulgação)
“Sou muito mais guerrilheiro do que MC”, diz o rapper cearense Don L em Todo Vapor, uma das 17 faixas de Roteiro Para Ainouz, Vol 2, que por sua vez sucede o Roteiro Para Ainouz, Vol 3. São detalhes que acabam contemplando duas importantes propostas que um dos maiores nomes do hip-hop brasileiro da década vem propondo com esse novo trabalho. Uma delas é o mergulho total no clamor à coletividade e organização de classe para lutar. E lutar, não apenas pelo futuro, mas também pelo passado a partir do presente, em uma hibridização temporal que demarca a estabilidade do intocado estado das coisas das tragédias brasileiras. É atacar ao mesmo tempo engenhos e centros financeiros, bandeirantes e banqueiros, colocando a especulação de uma revolução tanto no que passou, como no que virá.

“A gente mergulhou num mar de individualismo que é pura ideologia. Até nós, enquanto rap, passamos de uma perspectiva coletiva no começo para um extremo de individualidade. Mas foi só depois que fui entender o conceito de ‘realismo capitalista’, quando devorei a obra do Mark Fisher, que entendi exatamente o que era. A gente não consegue viver grandes sonhos sem grandes utopias e nossos sonhos estavam pautados pela publicidade, propaganda, que é pura fantasia individualista. A gente chama de realismo capitalista porque eles vendem como realismo, mas é fantasia. Isso não tem como trazer uma vida que possa ser chamada de digna e plena”, elabora Don L, em entrevista ao Viver. 

A partir daí, Don L cria um disco embebido em gasolina e fósforo, voltando a usar seus versos para pintar cenas vivas que se pautam na construção de alianças, tomadas de consciência, ação direta e também saber respirar entre as batalhas. Ele classifica a trilogia que está trilhando como “reversa”, um looping que ressignifica o próprio passado para ter perspectivas do futuro, continuando buscando “aquela fé” que, de acordo com ele, é a música chave do disco anterior, mas deslocando o eixo da busca, saindo um pouco mais da introspecção que trazia reflexões sobre suas vivências enquanto um rapper nordestino em São Paulo e se permitindo especular mais de dentro pra fora. 
 
 

Nessa busca pautada pela coletividade, ele vai resgatar nomes da história brasileira e global que fazem parte do continuum de sua luta, seja para tirá-los da demonização ou para não permitir que sejam absorvidos pelas narrativas capitalistas. Sem receio, ele cita revolucionários como Thomas Sankara, Che Guevara, Assata Shakur, Marielle Franco e Carlos Marighella como parte fundamental dessa luta pelo passado. 

“O anticomunismo, uma das forças mais violentas de nosso tempo, vem acompanhado pelo falseamento da história. A luta por ela precisa ser uma das principais. É preciso fazer o resgate de figuras históricas que são nossos heróis pela forma como eles são: revolucionários. Ou, daqui a pouco, eles estarão em propagandas de multinacionais, porque o anticomunismo quando não consegue apagá-los ou demonizá-los, os coopta. Hoje, por exemplo, vejo as pessoas tentando pintar o Marighella como um defensor da democracia burguesa, mas ele é um revolucionário comunista que deu a vida por isso, então temos que respeitar a luta dele”, afirma Don L. 
 
 
 
Por mais que os caminhos estivessem anunciados, o RPA 2 é lançado em um mundo completamente diferente do seu sucessor, que completou quatro anos de lançamento neste 2021. O rapper não pretendia demorar tanto, mas a luta para produzir um disco enquanto artista independente é dobrada. Ele se vê como um rapper que, por exemplo, não conseguirá contar com dinheiro de marcas pelos discursos que propõe. Também não quer fazer uma produção de música quase que seriada na busca por views que talvez viabilizassem novos projetos. Ele respeitou seu tempo de criação e a recepção do disco vêm mostrando que valeu a pena. 

Nessa caminhada, Don L pode trabalhar na produção ao lado de outros veteranos como Nave, além da mixagem de Luiz Café, contando ainda com contribuições de nomes como Mahmundi, Daniel Ganjaman, Deryck Cabrera, 808 Luke e Willsbife, além das vozes e coros de Djonga, Alt Niss, Tasha & Tracie, Rael, Giovanni Cidreira, Terra Preta, Eddu Ferreira e Luiza de Alexandre. 

“É um disco que tem trap, drill, boom bap, afrobeat, funk brasileiro, tudo muito ligado pelo conteúdo. Pude contar com mais estrutura agora do que tinha antes. Ainda não estou em 30% do potencial que eu tenho de fazer um disco caso tivesse melhores condições, mas tive grana para excelentes produtores, beatmakers e essa galera toda que está comigo em uma caminhada de evolução”, comenta o rapper.

Ele volta também a conectar seu trabalho com o audiovisual, começando, logicamente, pelo nome do projeto, que diz ser um roteiro para ser filmado pelo diretor conterrâneo Karim Ainouz, assim como sua aptidão em montar cenas e pensar visualmente em seus versos, algo que sempre acontecia quando ouvia rap gringo e não entendia o que se estava falando, mas as imagens eram criadas em sua cabeça. 

Ele busca no cinema mais elementos que compactuam com suas ideias de permanência das estruturas de exploração tipicamente, mas não só, brasileiras. Em um dos interlúdios do novo disco, ele coloca um trecho de São Paulo, Sociedade Anônima, clássico de Luis Sérgio Person, filme de 1965 que já trazia anseios tão presentes, em especial dentro das relações trabalhistas e seus conflitos. “Eu coloco esse trecho dos anos 1960 para ver como as coisas não mudaram. A gente acha que mudou, mas o país em que vivemos é uma continuação do colonialismo, as relações de trabalhos sendo cada vez mais duras e nossas perspectivas de futuro sendo cada vez mais destruídas. 

Agora Don L quer rodar o país com o disco. Fará um primeiro show no Rio de Janeiro, mas confessa que não será ainda nos moldes como quer, com toda uma estrutura de instalação de artes visuais nos palcos. “Terminamos esse disco numa correria, até os 45 do segundo tempo, estávamos ainda fazendo as coisas. Queria fazer coisas que não tinha grana, mas queria fazer, peguei dinheiro emprestado e pagar com os shows. Estamos com expectativas de rodar o Brasil com essas instalações no palco. Quero fazer isso porque a gente precisa fortalecer a arte anticapitalista, que não é puramente panfletária, que tem um requinte e tem uma perspectiva de mudança social”, conclui. 
 
 

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