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Curta pernambucano leva memórias de uma família de Água Fria para Paris

Publicado em: 01/10/2021 17:30 | Atualizado em: 01/10/2021 18:32

'Elos da Matriarca', curta do recifense Thor Neukranz, terá exibições em Paris, Chicago e pelo Brasil (DIVULGAÇÃO)
'Elos da Matriarca', curta do recifense Thor Neukranz, terá exibições em Paris, Chicago e pelo Brasil (DIVULGAÇÃO)
Em uma casa no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife, uma família se abarrota naquilo que parece ser a festa de natal de 1995, entre abraços, trocas de presentes, cerveja, pagode e uma senhora que faz questão de identificar com bastante carinho diversos membros dessa família para o arquivo que ali está sendo gerado, a partir de uma antiga câmera de vídeo. 25 anos depois, na entrada da mesma casa, essa senhora, dona Luzinete Lupercina, está isolada após ter sido um dos centenas de milhares de casos da covid-19, recebe uma homenagem mais serena dos filhos, com direito à lágrimas e dizeres da fé cristã. 

São dinâmicas que falam sobre os diferentes fluxos de afetos pelo qual esteve sujeita uma família da periferia recifense nas últimas décadas, assim como também revela em suas brechas algo de um Brasil como um todo. Essa arqueologia desses arquivos foi reunida no curta-metragem Elos da Matriarca, dirigido por Thor de Moraes Neukranz, neto de dona Luzinete, que começa a realizar sua circulação internacional no próximo dia 2 de outubro, sendo exibido dentro da programação do Festival Brésil en Mouvements, realizado em Paris. De lá, ainda segue por exibições na cidade também francesa de Rennes, assim como também terá passagens por Chicago, Rio de Janeiro e Penedo.

O projeto é fruto de uma longa trajetória de Thor tentando encontrar seus caminhos até chegar no cinema. Aos 29 anos, o cineasta recifense passou por cursos como Turismo, Direito e Engenharia Agrícola e Ambiental, mas sempre paralelamente buscando formações dentro da sétima arte. Em 2017, vira aluno do curso de Cinema da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e de lá pra cá, começou a presenciar cobranças familiares que acabariam levando ao Elos da Matriarca, que se tornou seu projeto de conclusão de curso. 

“Desde quando eu entrei no curso, vários parentes ficavam me falando que eu deveria fazer um filme da família. Uns pediam ficção, outros sugeriam contratar desenhistas para contar essa história, mas isso tem custos, em especial para uma pessoa da periferia”, conta Neukranz. Perto do final da faculdade, foi convencido pela professora Nina Velasco para que seu trabalho final fosse um projeto que tivesse importância para ele. “Então decidi que ia fazer esse filme, esse documentário com arquivos da família e também filmado com meu celular, longe de ser uma tecnologia de ponta”, complementa Thor, que diz ter se desapegado da ideia de que precisaria ter uma perfeição técnica para fazer um bom filme.

A matéria prima era farta, visto que a família do cineasta mostra ter um sensível carinho em estar criando arquivos de si mesma, construindo uma memória a partir dos registros em imagem e sons dos grandes eventos. Em diversos momentos, dona Luzinete faz questão de mostrar à câmera o retrato de um filho que não se encontrava lá ou de ir identificando quem são as pessoas presentes no espaço. Pouco depois, ela também passeia por álbuns de fotografias ao lado do neto e também faz questão de rever imagens que foram tomadas pouco tempo antes. 

“Esse hábito de rever as memórias é algo muito comum pra ela e que acaba passando para todos nós. A gente absorve muito dos hábitos delas e um deles é esse. Eu acho que observando essas memórias, esses arquivos, a gente pensa o presente e o futuro. Eu fico observando essas memórias também com um senso crítico elevado. O que quero manter delas e o que quero deixar de fora da minha vida. Nessa revisita, eu encontrei coisas que não gostei, microagressões, preconceitos, falas desagradáveis e tudo isso me fez pensar muito sobre o caminho que quero seguir e o que eu não quero”, conta Thor. (CONTINUA APÓS IMAGEM)
 
Dona Luzinete é a liga que conduz as memórias do curta (DIVULGAÇÃO)
Dona Luzinete é a liga que conduz as memórias do curta (DIVULGAÇÃO)
 

Foram cerca de 60 horas passeando por esse acervo para que fosse construída a estrutura do filme. Acompanhamos três distintos momentos da família nos anos de 1995, 2005 e 2020, filmadas pelo próprio Thor já durante a pandemia. São recortes temporais nos quais Thor consegue enxergar nuances de mudanças profundas no bairro e no país como um todo a partir desses pequenos fragmentos. 

“Por exemplo, a questão ideológica, o que era a periferia no Brasil em 1995 e o que é em 2021. O crescimento evangélico, em 1995 ainda era pequeno, hoje, em Água Fria, temos dezenas de igrejas, estão infestadas no bairro. De uma forma lateral, o filme retrata isso a partir de alguns hábitos. Minha família era muito festeira, na década de 1990, ouvia Raça Negra, tomava cerveja, fazia festas com muita gente. Esses hábitos mudaram, as festas foram ficando um pouco mais comportadas, com menos álcool e hoje em dia, na minha família, acho que 50% é evangélico”, elabora Thor. 

Com a seleção para o festival realizado na França, veio o desejo de Thor em estar presente na exibição, para poder debater e ter contato com perspectivas tão distantes do lugar de onde veio e filmou. Para conseguir cobrir os custos da viagem, foi atrás de diversos tipos de apoio e também lançou um financiamento coletivo que está bem próximo de atingir a meta no site Vakinha. Esses esforços vêm funcionando, Thor concedeu essa entrevista ao Viver já estando na França, com algumas despesas sendo adiadas graças à cartões de créditos e ajudas de familiares. A conexão Água Fria-Paris-Mundo de sensibilidades e afetos já está garantida.

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