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CINEMA

Para Kleber Mendonça, 'sabotagem' da cultura no Brasil cobra o preço no cinema

Por: AFP

Publicado em: 14/07/2021 18:23 | Atualizado em: 14/07/2021 19:09

 (Foto: John MacDougall/AFP)
Foto: John MacDougall/AFP
A "sabotagem" do governo brasileiro à cultura está cobrando seu preço no cinema, considera o diretor Kleber Mendonça, que integra este ano o júri do Festival de Cannes presidido pelo americano Spike Lee.

Mendonça, premiado em 2019 em Cannes com o Prêmio do Júri (ex aequo) por "Bacurau", conversou com a AFP sobre as consequências dos cortes no setor da cultura decididos pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, bem como os debates para atribuir a Palma de Ouro, o prêmio mais cobiçado do cinema autoral.

Pergunta: Você já foi membro do júri da Berlinale e presidente da Semana da Crítica de Cannes. Agora que entregará a Palma de Ouro, sente uma responsabilidade maior? 
Resposta: "É sempre uma responsabilidade. Cannes tem um peso histórico no cinema. Eu tenho consciência dessa importância".

P: Como o júri de Spike Lee é organizado? 
R: "Nos falamos a cada dois dias. A cada quatro ou cinco novos filmes, nós conversamos. Spike Lee é um artista muito antenado e os diálogos que temos tido têm sido todos muito democráticos, francos e bem-humorados".

P: Deve ser menos estressante do que competir pela Palma.
R: "Claro que é menos estressante. Ao mesmo tempo, ter um filme na competição e ser bem recebido é algo que não se compara. Mas o trabalho no júri é muito prazeroso. São muitos diálogos de boa qualidade. É um privilégio poder conversar e entender como cada filme bate em cada pessoa... ver questões de coração, políticas, sociais de um ponto de vista francês, americano, brasileiro. É fascinante".

P: Há cinco anos o senhor denunciou um "golpe" contra Dilma Rousseff no tapete vermelho. Desde então, os protestos contra o governo continuaram ocorrendo em Cannes, a exemplo do que aconteceu após a exibição do filme "O Marinheiro das Montanhas", de Karim Ainouz. Além disso, o senhor denunciou o fechamento da Cinemateca em entrevista coletiva.
R: "O que nós temos hoje no Brasil é uma sabotagem do sistema de apoio à cultura. O apoio à cultura faz parte da Constituição brasileira. Isso começou depois do Coup d'Etat (...) e com a entrada desse presidente as coisas ficaram ainda mais agressivas.

Sobre o fechamento da Cinemateca (em São Paulo), nem sei como falar. É como se hoje o Brasil não tivesse aceso ao seu álbum de família. A Cinemateca não e só um depósito, é um lugar vivo com a memória do pais".

P: Mesmo assim, o Brasil é o país da América Latina com maior presença neste festival.
R: "'Medusa' faz parte do último lote de filmes que ainda foram feitos no sistema normal. Mesmo assim, eu sei que enfrentou problemas burocráticos criados artificialmente.

Quando em 2019 tivemos aqui "Bacurau" e a "Vida invisível" e no festival de Berlim nós tivemos 18 filmes, estava muito claro que essa política de apoio ao cinema brasileiro finalmente mostrava os frutos. É irônico que a sabotagem começou no clímax de um bom momento".

P: Até que ponto o setor está mobilizado contra a "guerra cultural" de Bolsonaro?
R: "Há um certo número de homens e mulheres da cultura que nunca ficaram calados. Felizmente eu sou uma dessas pessoas.

Acredito que com a volta do pensamento democrático no Brasil, com as eleições no ano que vem, o sistema do apoio à cultura será reconectado e o Brasil vai voltar a respeitar (os) artistas e trabalhadores da cultura.

Temos 300.000 trabalhadores na cultura. Eu conheço pessoas que estavam se sustentando com a cultura - iluminação, figurino - e hoje estão fazendo Uber. É muito triste".

P: Qual é o seu próximo projeto?
R: "Estou escrevendo para rodar em Recife. Se chama "O agente secreto". Parei para vir para Cannes e quero muito voltar já com uma carga, uma energia desses filmes aqui. Eu lembro o último que vi em Cannes antes de filmar "Aquarius": "Memórias e Confissões" de Manoel de Oliverira, de 1982. É um filme sobre a casa dele. Dos filmes atuais não posso falar agora!
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