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Morre no Recife Joel Datz, o emblemático Irmão Evento, aos 76 anos

Publicado em: 16/07/2021 11:32 | Atualizado em: 16/07/2021 14:51

Joel recebendo a placa da APDMN - Academia Passa Disco da Música Nordestina, nos 15 anos da Passa Disco (Foto: Hannah Carvalho/Divulgação)
Joel recebendo a placa da APDMN - Academia Passa Disco da Música Nordestina, nos 15 anos da Passa Disco (Foto: Hannah Carvalho/Divulgação)

Uma despedida que sentencia as ruas do Recife a permanecerem um pouco mais em silêncio. Morreu, na manhã desta sexta-feira (16), o emblemático Joel Datz, muito conhecido pelo apelido de Irmão Evento. Ele tinha 76 anos e estava internado no Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco (Procape), na região central da cidade, há cerca de cinco dias, após apresentar complicações cardíacas.

De acordo com o escritor e membro da comunidade judaica, Jacques Ribemboim, Joel era cardiopata e deu entrada no Procape, em Santo Amaro, no Centro do Recife, há cerca de cinco dias por conta de complicações do quadro. Na unidade, chegou a ser encaminhado para a UTI, onde passou cerca de três dias, mas não resistiu e veio a óbito nesta sexta.

"Era uma figura ímpar, a vida dele era andar, vivia caminhando pelo Recife inteiro. Com a pandemia, ele ficou mais recluso e ganhou peso. Era uma pessoa muito doce, terna, bem-humorada. Todo mundo gostava de Joel Datz, não fazia mal a ninguém, só bem", disse Ribemboim.

Joel era solteiro e não tinha filhos. O enterro está marcado para acontecer na tarde desta sexta-feira, no cemitério israelita. O horário não foi divulgado, por conta das restrições impostas pela pandemia da Covid-19.

"Todos esperamos a retomada dos eventos, mas não será mais possível esperar a chegada de alguém sempre presente. Joel sai de cena, mas não perde o seu lugar, que é mais do que simbólico. Uma arte que mereceu paixão assim nunca terá fim, vive e revive em quem a faz e quem sabe amá-la. Viva o Recife, viva Joel, irmão da nossa Cultura", afirmou o secretário de Cultura do Recife, Ricardo Mello, em nota.

Um marco na cena local
Judeu e frequentador da Sinagoga Israelita da Boa Vista, Joel ficou conhecido no Recife, junto ao irmão Abraão Datz, por ser figura assídua dos mais diversos eventos que aconteciam na capital pernambucana. De casamentos a exposições, a lenda construída no imaginário das ruas da cidade é de que um evento só era considerado bem-sucedido quando contava com a presença de ambos. Eram uma espécie de personalidade que se confundiam entre si; quase a demarcação de um tempo histórico para quem organizava as festas.

"Eram muito parcimoniosos, não gastavam, abdicaram das frivolidades do capitalismo moderno, embora tivessem posses. Foram muito coerentes com o pensamento, muito alegres e divertidos. As pessoas gostavam, às vezes eles eram até penetras, mas bem-vindos. Davam certo status ao evento, era quase que como uma assinatura de qualidade", relembrou Jacques Ribemboim.

Os dois eram engenheiros civis por formação, mas não exerciam o ofício. Depois da morte do irmão, em 1995, Joel passou a frequentar os eventos da cena cultural recifense sozinho. "Durante muito tempo, Joel ainda ficou sendo chamado no plural: 'chegaram os Irmãos Evento', mas era só um", acrescentou o membro da comunidade judaíca. 

O Irmão Evento era visto como uma icógnita, certas vezes. Entre os mais próximos, havia a inquietação do que estaria por trás do jeito um tanto misterioso e o questionamento de como alguém conseguia abdicar de tanto para viver uma vida simples, tendo os bens que tinha.

Jacques Ribemboim tinha uma entrevista marcada com Joel para completar as informações do seu novo livro, A História dos Judeus de Pernambuco. Uma das ideias do escritor era justamente captar dele as minúcias que até então não chegaram a ser ditas. O despertador, que serviria como lembrete do encontro, já estava a postos. Mas não deu tempo. 

Confira a nota da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife:

"Recife perdeu hoje a presença mais cativa de sua vida cultural. Um homem que, na companhia do irmão ou sozinho, era sinônimo de casa cheia, indicativo infalível de sucesso para empreitadas artísticas de quaisquer grandezas e naturezas. A Secretaria de Cultura do Recife e a Fundação de Cultura Cidade do Recife lamentam a morte do Irmão Evento, Joel Datz.

Depois de integrar e protagonizar as plateias de milhares de espetáculos, shows, números, estreias, vernissages e que tais festivos, Joel vai deixar uma cadeira para sempre vazia na cultura da cidade, justo neste momento de retomada gradual das atividades artísticas. Os aplausos hoje são todos para ele, que assumiu como motor de vida e alcunha a paixão pela cultura da cidade que adotou e por quem foi adotado".
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