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LITERATURA

Livro resgata textos de intelectuais de esquerda do Recife dos anos 1920

Publicado em: 22/06/2021 09:42

Ricardo Japiassu Simões e capa de Crônicas Comunistas (Foto: Cepe/Divulgação)
Ricardo Japiassu Simões e capa de Crônicas Comunistas (Foto: Cepe/Divulgação)

O Recife do alvorecer do século 20 sofria intensas transformações urbanísticas, políticas e sociais. Novos pensamentos começavam a ganhar mais espaço entre intelectuais e, consequentemente, na imprensa e na literatura. Durante pesquisas na microfilmagem da Fundação Joaquim Nabuco e nos acervos da Faculdade de Direito do Recife e da Biblioteca Pública Estadual, o jornalista, escritor e professor Ricardo Japiassu Simões encontrou um interessante recorte sobre essa época com edições bastante deterioradas do jornal O Tacape, entre 1928 e 1929. Esses achados foram reunidos no livro Crônicas comunistas (Cepe Editora, 168 páginas), lançado nesta terça-feira (22), a partir das 19h, no canal do YouTube da Cepe.

Na live, o autor vai conversar com o escritor Raimundo Carrero, com o professor de literatura, poeta e crítico literário Alexandre Furtado e com o editor da Cepe, Diogo Guedes. Crônicas comunistas resgata textos de três intelectuais e ativistas influentes na história e na cultura daquele Recife: Raul Azedo (médico baiano radicado no Recife, progressista que contribuiu muito para a imprensa), Joaquim Pimenta (jornalista, advogado e professor cearense também aqui radicado) e Alice Azedo Pimenta (feminista atuante numa sociedade patriarcal e conservadora, filha de Raul e esposa de Joaquim).

O Tacape se descrevia como um "quinzenário de crítica social e de educação popular" e, com críticas contra o capitalismo, debatia assuntos como educação, ciência, religião e saúde. Sendo uma ferramenta de divulgação e esclarecimento da visão marxista, a publicação era engajada nas lutas dos trabalhadores e na emancipação feminina. Essa última temática era abordada por Alice, que, em publicações como essa, agora podem ser mais conhecidas enquanto representatividade feminina em nossa história. Isso é ressaltado pelo prefácio de Luzilá Gonçalves Ferreira.

Para se ter uma ideia, Alice já falava sobre a necessidade do divórcio (só instituído em 1977), além da violência doméstica, do direito ao voto e à participação das mulheres na vida pública. Segue um trecho bastante atual: "Os últimos assassinatos ocorridos nesta capital devem pesar na consciência dos legisladores como crimes: duas mulheres tombaram sem vida e três outras feridas gravemente. Não foram revólveres vingativos ou punhais acerados que as abateram: foram as leis brasileiras. Foram decretos que armaram braços de maridos cruéis. Se tivéssemos o divórcio, essas infelizes não teriam sucumbido".

Entre os textos, ainda é possível encontrar relatos de apoio a operários grevistas que, orientados por Joaquim Pimenta, exigiam aumento de salário e oito horas de trabalho. Ou relatos de manifestações de descontentamento de diversas camadas dos trabalhadores, dos comícios organizados por apoiadores de Dantas Barreto e mais. "Os males sociais que nos afligem: corrupção e desvarios políticos; bancarrota financeira crônica, produto de governos imprevidentes, inábeis ou pouco escrupulosos; crises econômicas generalizadas e tendentes, dia a dia, a agravar-se; atentados ostensivos a direitos irrevogáveis", diz um trecho assinado por Joaquim.

Ricardo Japiassu explica que a primeira parte da pesquisa foi realizada nos anos 1990, com financiamento da CNPq e enfoque nas mulheres do estado - quando ele encontrou Alice Pimenta. A segunda foi nos anos 2000, com financiamento da Faculdade Damas e auxílio de quatro alunos. "É um registro de uma época quente da história de Pernambuco, com uma movimentação política intensa, novas ideias chegando através da literatura", conta Ricardo Japiassu, em entrevista.

"Eles tomaram conta dessas questões comunistas através da literatura e criaram um jornal liberal, para frente, aberto. É interessante a releitura desses textos num momento tão complicado politicamente. A liberdade é quem determina a coragem em viver. Eles falam do cotidiano, da luta do proletariado, da luta cultural. Joaquim Pimenta criticou Gilberto Freyre no livro O homem de um olho só e foi elogiado por Câmara Cascudo. Alice pediu divórcio para as mulheres. Raul defendeu uma religião científica e não acreditava no catolicismo. Eles tiveram essa coragem e foram esquecidos pela história."

"É muito importante esse resgate, as páginas do jornal desfaleceram, não tem nenhuma edição que dê para ler", diz o autor, que ressalta o vácuo sobre a família nos registros historiográficos. "De Alice, por exemplo, não encontramos sequer uma fotografia. De Joaquim Pimenta, achamos um passaporte na Fundaj. Mas não achamos nenhum descendente que nos desse mais ideias sobre a família”, conta. “Eu espero que, com a publicação, essas pessoas apareçam", finaliza.
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