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CINEMA

Luiz Carlos Barreto critica política de perseguição ao artista brasileiro

Publicado em: 24/05/2021 14:40

 (Foto: Leo Lara/Acervo Universo Produção)
Foto: Leo Lara/Acervo Universo Produção

Produtor de cinema à frente dos clássicos A dama do lotação e Dona Flor e seus dois maridos, diretor de fotografia de Terra em transe e Vidas secas e um dos criadores do Canal Brasil, Luiz Carlos Barreto, aos 93 anos, não perde o fio da meada do bom e velho repórter de vanguarda que já foi. "Não sou saudosista de maneira nenhuma. Uso o passado para construir o futuro. Você não constrói futuro sem conhecer o seu passado. Não digo 'no meu tempo'. O meu tempo é hoje", destaca.

O cearense que pôs o Brasil na corrida pelo Oscar e fortaleceu o imaginário esportista dos brasileiros - ao lado de Armando Nogueira, produziu Garrincha, alegria do povo, além de ter dirigido Isto é Pelé - vive um momento de reflexão ao testemunhar a convivência entre teatro, cinema, rádio, podcast e plataformas digitais.

Na cabeça dele, fervilha a atenção reservada à cultura brasileira, em dimensão bem ampliada. "O Brasil tem cozinhas regionais de caráter internacional, há a moda brasileira, que poderia ser uma indústria de exportação muito grande, com artesanato único. Mas não há política pública para isso. Ao contrário, agora se faz uma política de perseguição aos artistas brasileiros, sem perceber que estão fazendo um crime contra o país", adverte.

Valorizar talentos é atitude constante de Luiz Carlos Barreto, pronto para a nova empreitada: Amazônika, frente de futuras produções. Antenado com temas e vertentes do cinema, ele sabe reconhecer as singularidades dos colegas, como o enaltecido Paulo Gustavo, que desbancou as bilheterias de Dona Flor e A dama do lotação, produções de Barreto, com as sequências de “Minha mãe é uma peça”.

"Ele é, antes de tudo, um grande ator. Humor é o forte da nossa indústria cultural, no cinema, no teatro e na televisão", diz. "Paulo Gustavo é um cômico comparável aos grandes nomes mundiais, como foram Grande Otelo e Oscarito. O humor é o melhor remédio para preservar a vida, e ele teve a força do humor com ele. Rezei pela recuperação dele, na torcida pelo cinema", sublinha.

O que o senhor pode adiantar sobre a Amazônika, a nova produtora dos Barreto? Aliás, como é empreender no meio de uma pandemia e investir no terreno do desenho animado?
A animação é uma das coisas mais fortes do cinema mundial, com enorme mercado. Ela rende maiores possibilidades. No projeto Amazônika, vamos contar a história da origem da floresta, algo impossível de ser feito no modo tradicional. Em 2022, a animação atingirá US$ 250 bilhões em cifras de negócio. Em termos de renda, uma animação traz entre US$ 800 milhões e US$ 1,5 bilhão. Amazônika tem o objetivo de entrar num mercado com dublagens facilitadas e enorme aceitação. Pretendemos fazer a franquia de 10 filmes sobre temas amazônicos. Vamos explorar as lendas, elementos de sustentabilidade, de política e de preservação. Ampliaremos para áreas amazônicas colombianas, peruanas e equatorianas. Vamos fazer muitos documentários. Há encaminhado o “Icamiabas”, que traz a história do feminismo ancestral, nas tribos. Falaremos ainda dos biomas amazônicos, das riquezas que estão escondidas e inexploradas. Preservar não é sacralizar a floresta, há um viés de desenvolvimento econômico sustentável. Quem tem nos assessorado é o Carlos Saldanha. Ele visualiza projetos infinitamente melhores do que “A era do gelo”. A floresta amazônica é magnânima pela fauna, flora e hábitat humano.

O senhor não se diz saudosista, mas torcedor voraz. Como vê o futebol de ontem e o de hoje? Bolsonaro seria, de alguma perspectiva, um técnico para qual Brasil?
Costumava comentar com o cronista Armando Nogueira que encompridamos os calções dos jogadores e encurtamos nosso estilo de jogar. O futebol brasileiro, aliás, está entrando por um caminho errado, que é o de querer assimilar o estilo de jogo europeu. A chamada posse de bola foi criada por eles, ao perceberem que não dava para competir com a nossa Seleção em jogos vitais. O jogador brasileiro conta com capacidade e técnica individuais. Do Rivellino, do Pelé, do Gérson, do Garrincha, do Neymar. O brasileiro tem cintura, tem o drible, a negaça. Nele, há a ginga da capoeira. Os europeus ficam no jogo burocrático. Desde 1958, combinamos o jogo coletivo com o talento individual. Quanto à política de Bolsonaro, não costumo perder tempo para discutir. Considero-o um acidente de percurso que não ficará na história. Foi um erro praticado na ânsia de se livrar do PT. Nos meus 93 anos, nunca vi nada parecido. Em cinco anos, nem nos lembraremos mais (dele), quando o Brasil estiver recuperado. Gosto de citar a frase do Lúcio Costa: o Brasil não tem vocação para a mediocridade. Lúcio dizia que éramos maiores do que o abismo, e nele não cabíamos.

O que falta para o Brasil reestruturar novamente o seu cinema?
O Brasil, como diz o Gabriel García Márquez, que escreveu sobre isso na revista inglesa Sight & Sound, é, ao lado dos Estados Unidos, o país com a maior vocação cinematográfica. O Brasil se afirma não só pela dimensão continental, mas há a diversidade cultural, a riqueza paisagística. Transformando um pouco a frase: o sertanejo é, antes de tudo, um forte; o brasileiro é, antes de tudo, um criativo. Um povo incomparável. Não vai nisso nenhum chauvinismo, nada de nacionalismo rudimentar. É realidade: na música, nas artes plásticas, na literatura, no cinema. É pena que não haja políticas voltadas para participar desse grande mercado que hoje é a indústria do entretenimento e do lazer cultural. É uma pena que o Brasil não tenha despertado, os poderes públicos brasileiros não despertaram ainda para essa importância, não só cultural, social, mas como economia. Em pesquisa e relatório da Price Waterhouse, de prestígio mundial, houve a divulgação de que, em 20 anos, a cifra de negócios da indústria do entretenimento e do lazer cultural atingiu US$ 2,2 trilhões. No Brasil, há potencial para negócios da indústria do entretenimento, que envolve cinema, teatro, indústria editorial, moda, design e a indústria da cozinha brasileira.

Que perspectivas de trabalho existem em meio à pandemia?
No cinema, em plena pandemia, estamos terminando agora um filme que é uma comédia familiar. A Glória Pires faz o papel de uma avó que procura incutir nos seus netos os bons costumes e o bom estilo de vida. Chama-se “Vovó Ninja”, estamos rodando. Estará pronto assim que o mercado se recompuser. Em desenvolvimento, com o grande acervo da Copa e do futebol brasileiro, iniciamos o documentário “O Brasil de todas as copas”. Na HBO, exibimos o seriado “A escravidão no século 21”, que mostra esta chaga enorme da sociedade brasileira que é o trabalho escravo. Temos trabalho escravo muito maior do que na época da escravidão mesmo, na época do império. Hoje em dia, a Lucy (Barreto, mulher de Luiz Carlos) e eu somos apenas consultores. O destino da nossa produção está todo comandado pela Paula Barreto, Marcelo Santiago e Bruno Barreto. Para 2022, há um projeto da Lucy Barreto que se chama “Madame conta a história da Guerra do Paraguai” – essa guerra, esse genocídio, um outro genocídio acontecido em tempos remotos.

Falta algo para que a representatividade negra se afirme no cinema? Ou ela já está consolidada?
Hoje em dia, o Brasil tem um cinema muito diversificado, do qual os negros participam muito. (A representatividade) Já existe. Não há só atores negros famosos; existem produtores negros, diretores negros em franca atividade, e isso é uma tendência. Como no caso das mulheres. A política de gêneros no cinema brasileiro já é um problema resolvido. E só tende a melhorar, porque os resultados têm sido muito bons. Tudo é motivo de enriquecimento do nosso panorama artístico, porque a raça negra, a cultura brasileira, é construída exatamente na base do amálgama da raça brasileira. Somos um país onde as raças se amalgamaram, num misto consolidado. Temos a representação de cinco raças no Brasil, e isso é a grande riqueza. Não é motivo de conflito racial, ideológico, religioso. Os confrontos são uma coisa artificial, conflitos que inexistem. O brasileiro, na hora em que tem que se revoltar, se revolta contra injustiças. A nossa história está cheia de períodos violentos, de luta pela liberdade.

Por que o Brasil não ganha o Oscar? Como o senhor viu o reconhecimento de “Bacurau” em Cannes?
Do Festival de Cannes, participamos com grande sucesso desde os anos 1950, 1960. Já ganhamos a Palma de Ouro com “O pagador de promessas”. Houve prêmio especial do júri para “Terra em transe”, ganhamos prêmios da imprensa internacional com “Vidas secas”. “Bacurau” e outros filmes vão seguindo essa tradição, comprovando que o cinema brasileiro é um cinema de vocação internacional. No Oscar, também temos uma participação muito especial. Por vezes, fomos finalistas. O cinema brasileiro, dos anos 1960 para cá, se transformou num cinema muito cultivado na Europa, nos Estados Unidos e até na Ásia.
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