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LITERATURA

Retrospectiva 2020: crise no mercado editorial, perdas e grande prêmio para PE

Publicado em: 27/12/2020 09:04 | Atualizado em: 27/12/2020 09:38

O ano de 2020 pareceu ficção, adiou lançamentos de livros, cancelou eventos literários cancelados e agravou a crise do mercado editorial, mas aguçou a mente de muitos escritores (Foto: Pixabay/Reprodução e Andrea Rego Barros/PCR
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O ano de 2020 pareceu ficção, adiou lançamentos de livros, cancelou eventos literários cancelados e agravou a crise do mercado editorial, mas aguçou a mente de muitos escritores (Foto: Pixabay/Reprodução e Andrea Rego Barros/PCR )


Há um limite entre a realidade e a ficção que costumamos saber diferenciar, mas embarcamos na fantasia facilmente quando nos debruçamos sobre uma nova leitura. O ano de 2020 foi assim, um misto de realidade e terror, com doses até de ficção científica. Abandonamos as ruas, os espaços públicos, os abraços e viramos "antisociais convictos", reduzidos a um ou mais cômodos, e a basicamente um só personagem. O contato, majoritariamente virtual, permitiu que certas práticas ainda seguissem e fossem ressignificadas. Essa expansão e digressão, ao mesmo tempo, proporcionaram para a literatura um ano de menos produções do que se estimava, preocupação com o mercado editorial, investimento em e-books, mais lançamentos on-line e proliferação de novos projetos.

No ano da Covid-19, a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) conseguiu manter um certo ritmo, ao lançar 32 livros digitais e físicos, de autores locais e nacionais. O número, no entanto, foi inferior ao de 2019, quando a editora lançou 45 títulos. A meta para 2020 seriam 80 obras. “Reduzimos a produção, mas não cessamos as atividades, nos adaptamos à realidade do mercado e às restrições determinadas pelo governo do estado”, explica o jornalista e presidente da Cepe, Ricardo Leitão.

“Foi um ano difícil, passamos sete meses com a gráfica parada, mas lançamos um volume bom de livros, e a produção agora está voltando a se estabilizar”, afirma Diogo Guedes, editor da Cepe. Entre os grandes lançamentos da editora no ano estão A arte queer do fracasso (Jack Halberstam), Fisiologia da composição (Silviano Santiago), Literatura, meu fetiche (Ítalo Moriconi) e Opulência (Luís Krausz). A Cepe liberou ainda 24 e-books para download gratuito, promoveu lives, fez lançamentos virtuais de livros e realizou o Circuito Cultural de Pernambuco no formato digital.

Para além do impacto nas produções deste ano por conta da pandemia, uma questão ainda permeia o mercado editorial brasileiro: uma provável taxação de 12% nas publicações brasileiras. A proposta consta no texto da reforma tributária enviado por Paulo Guedes ao Congresso em agosto. No documento, o ministro da Economia defende a criação da Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), o que geraria o tributo.

O medo é que a medida agrave a situação do mercado editorial brasileiro, e o encarecimento das obras literárias possa afastar novos leitores, impedindo a democratização do acesso à leitura. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro e Itaú Cultural em 2019, o país perdeu 4,6 milhões de leitores nos últimos quatro anos. No Recife, só metade da população (52%, para ser mais exato) é identificada como leitora, o que corresponde a 803 mil pessoas.

Busca virtual
Os escritos e poemas se tornaram grandes aliados da população durante a pandemia. De acordo com o Google Trends, a procura por livros digitais em Pernambuco apresentou um pico de crescimento na semana de 22 a 28 de março. O período compreende o início da quarentena na maioria das cidades brasileiras. O número se manteve em alta até o final de agosto, apresentando uma queda em setembro, mas retomando o crescimento no meio de outubro.

Já uma pesquisa realizada pelo Twitter nos últimos nove meses aponta que 41% das pessoas estão lendo mais na pandemia, e os meios mais procurados são os digitais. De acordo com o levantamento, as pessoas passaram a investir mais em hobbies e passatempos: uma em cada três está pensando mais em como ter mais tempo dedicado à prática.

Centenários
O ano foi marcado também pelo centenário dos escritores Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, celebrados com eventos comemorativos, homenagens e lançamento de livros. Os dois construíram suas trajetórias literárias usando o Recife não apenas cenário e inspiração, como presença ativa em suas obras. Eles ouviam, sentiam e vivam a cidade, deixando marcas da capital em suas obras e vestígios que ainda ecoam. Também neste ano, a Clarice e João se tornaram Patronos da Literatura e da Poesia de Pernambuco, respectivamente. A ucraniana ainda foi reconhecida como cidadã pernambucana. Outro pernambucano exaltado foi Gilberto Freyre, um dos maiores sociólogos da história do país, com um infindável legado muito além do clássico Casa-grande & senzala. O intelectual completaria 120 anos em 15 de março.

MELHOR LIVRO DO ANO É DE PERNAMBUCO
Depois de lançar um canal de poesia no YouTube, o Fresta, ser alvo de ataques de hackers bolsonaristas em lançamento de novo livro e ser eleita vereadora do Recife, a pernambucana Cida Pedrosa fechou o movimentado ano da melhor forma: conquistou o Prêmio Jabuti 2020, a maior premiação literária do país, na categoria principal, Livro do Ano, com a obra Solo para vialejo (Cepe Editora).

A obra também venceu na categoria Poesia. Outras quatro publicações pernambucanas ficaram entre os finalistas da 62ª edição do Jabuti: Negra sou: A ascensão da mulher negra no mercado de trabalho (Jaqueline Fraga), Lutar é crime (Bell Puã), Recife - Fotografias: 1986-2018 (Fred Jordão) e a HQ O obscuro fichário dos artistas mundanos (Clarice Hoffmann, Abel Alencar, Maurício Castro, Greg, Paulo do Amparo e Clara Moreira).


A poeta pernambucana Cida Pedrosa conquistou o Prêmio Jabuti 2020 na categoria principal: Livro do Ano (Foto: Divulgação)
A poeta pernambucana Cida Pedrosa conquistou o Prêmio Jabuti 2020 na categoria principal: Livro do Ano (Foto: Divulgação)


Foi uma fotografia com oito músicos de terno cercados por sax, trompetes, banjos, bateria e contrabaixos que despertou a curiosidade de Cida para a obra. A poeta descobriu que se tratava da Jazz Band União Bodocoense, grupo que agitou, na década de 1940, as ruas de Bodocó, no Sertão do Araripe, onde ela nasceu.

A relação com o grupo costura toda a narrativa, que revela um forte viés musical da artista, relacionando as lembranças sonoras de quando acompanhava a colheita de algodão e ouvia os assobios musicados de seu pai. “É um livro em busca de mim, das minhas raízes sertanejas, onde me entrego inteira ao Sertão e suas negritudes”, diz a autora. “Eu saí do Sertão para o mar, pois sou sertaneja. Esse é um livro da volta, uma migração ao contrário. Eu migro do mar para o Sertão e vou contando sobre os sons dos negros e das negras, de mim mesma. Eu me reencontro com a minha ancestralidade, com minha bisavó indígena, com o meu pai e com minha mãe, que me ensinaram a ler mesmo sem nunca terem ido para a escola.”

Escuta
A escritora pernambucana Luna Vitrolira, finalista do Prêmio Jabuti em 2019, transformou a solidão, os medos e angústias das pessoas durante o período de isolamento social em poesia, lançando um projeto de escuta. A ação gratuita aconteceu através de conversas por e-mail, telefone, WhastApp e videochamada, e buscou conhecer a história do “entrevistado”.

A poeta pernambucana usou recursos digitais para ressignificar angústias (Foto: Divulgação
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A poeta pernambucana usou recursos digitais para ressignificar angústias (Foto: Divulgação )


O depoimento era transformado em poema e postado em vídeo nas redes sociais, preservando a identidade de cada pessoa responsável pelo relato. A iniciativa teve o intuito de ajudar as pessoas em momento de fragilidade emocional com o confinamento, reconstruindo suas histórias através de poesia.

Salve Miró!

O poeta Miró foi acolhido - virtualmente - por amigos e leitores (Foto: Felipe Ribeiro/Secult-PE
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O poeta Miró foi acolhido - virtualmente - por amigos e leitores (Foto: Felipe Ribeiro/Secult-PE )


Fragilizado com a Covid-19 que o acometeu no início de novembro, o poeta e escritor pernambucano Miró da Muribeca recebeu apoio de artistas e amigos para a realização do Leilão de Artes pra Miró. O objetivo é arrecadar fundos para a continuidade do tratamento do poeta, que apesar de estar hospitalizado pelo SUS, tem vários custos privados, como cuidadores 24 horas por dia e itens de higiene pessoal. Ele segue internado na enfermaria do Hospital Getúlio Vargas com comorbidades urológicas e pulmonares.

Em maio, a corrente de solidariedade tinha sido construída para fornecer auxílio financeiro, possibilitando que o poeta, que é um artista de rua, não estivesse desamparado e mais suscetível ao contágio. Quatro meses depois, a ajuda voltou a se fazer necessária para custear o tratamento do artista na clínica de reabilitação Raid. Ele sofre de dependência do álcool e teve uma recaída.

Mortes
Grandes nomes da literatura pernambucana partiram em 2020. Faleceram os poetas Jaci Bezerra e Terêza Tenório, que integraram a chamada Geração 65, um profícuo grupo literário pernambucano da década de 1960, formado ainda por nomes como Alberto da Cunha Melo, Marcus Accioly, Raimundo Carrero e Lucila Nogueira. Outra morte de impacto foi a do premiado jornalista e escritor Nagib Jorge Neto, natural de Pedreiras, no Maranhão, que morou grande parte de sua vida no Recife. Comunista, foi preso político da ditadura.

A jornalista e escritora Loyde Alves, a Tia Lola, também faleceu. Ela esteve por anos à frente do suplemento infantil do Diario, o Júnior, que depois virou Diarinho. No cenário nacional, dois gigantes morreram . Um foi Luiz Alfredo Garcia-Roza, mestre da literatura policial e criador de personagens como o detetive Espinosa. Ele faleceu aos 84 anos, de AVC. O outro foi Rubem Fonseca, escritor que renovou a literatura brasileira no século 20. O contista, romancista e roteirista, vencedor do Prêmio Camões (em 2003), morreu aos 94 anos, após sofrer um infarto.

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