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Em 1991, A-ha causou histeria no Recife com show histórico

Publicado em: 06/10/2020 11:31 | Atualizado em: 15/10/2020 11:01

Trio esteve no Recife com a turnê Walk Under Sun, Dance Under Moon (Foto: Reprodução)
Trio esteve no Recife com a turnê Walk Under Sun, Dance Under Moon (Foto: Reprodução)


Três rapazes saem de um avião no Aeroporto dos Guararapes e entram em um carro-forte de transporte de valores. Parece cena de filme de ação, mas foi a chegada dos noruegueses Morten Harket (vocal), Magne Furuholmen (teclado) e Påul Waaktaar (guitarra) a Pernambuco. Eles seguiram para o Hotel Miramar, em Boa Viagem, onde dezenas de fãs faziam tumulto na esperança de um mínimo contato. Pela noite, eles se apresentaram no Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães, o Geraldão, na Imbiribeira. O show da banda A-ha no Recife, em 2 de junho de 1991, marcou uma geração de pernambucanos e nordestinos, como uma materialização sonora do fim do século 20.

O trio despontou como um fenômeno global em 1985 com o disco Hunting high and low, de onde saiu o single homônimo e Take on me, um dos hinos da década. O sucesso fez o A-ha ser indicado ao Grammy e varrer o VMA, da MTV estadunidense, com oito prêmios em 1986. A primeira vez da banda no Brasil foi em 1991, quando se apresentou para 198 mil pessoas em um show histórico do Rock in Rio II, no Maracanã. Esse sucesso estimulou uma nova turnê no país, em junho. No Recife, o empresário responsável pela vinda foi Pinga, apelido de José Carlos Mendonça, com patrocínio da Liserve Vigilância, da rede de supermercados Hiper Bompreço e apoio da Onyx Jeans. No Nordeste, a Bahia também entrou na rota do grupo.

Na época, o A-ha divulgava o quarto disco, East of the sun, west of the moon (1990), recebido com frieza nos EUA. "As más línguas comentam que nem na Noruega o grupo é tão popular. A Folha de S. Paulo considerou o grupo um fenômeno brasileiro, dizendo que eles são quase desconhecidos nos EUA, o que não chega a ser bem verdade", registrou a jornalista Solange Domingos, no Jornal do Commercio. "Os invejosos torcem o nariz e lembram que o A-ha já não é mais mesmo. Não é. Mas, e daí? Se a esnobe Sampa foi em peso assistir aos roqueiros nórdicos, por que Recife iria ficar atrás? Bairrismos à parte, A-ha, aí vamos nós."

Os jovens recifenses que podiam pagar pelos ingressos (entre CR$ 6 mil e CR$ 8 mil) compareceram em peso. A tietagem começou no hotel. Na recepção, havia 40 nomes de moças de Alagoas que se hospedaram exclusivamente para ver os astros - a diária de um apartamento variava entre CR$ 21 mil e CR$ 30 mil. 

Notícia sobre show de A-ha no Diario, em 2 de junho de 1991 (Foto: Arquivo DP)
Notícia sobre show de A-ha no Diario, em 2 de junho de 1991 (Foto: Arquivo DP)

A turnê Walk under sun, dance under moon trouxe ao Recife uma equipe de 25 pessoas (40, ao contar com técnicos brasileiros), com três sistemas de som e luz, além de um palco de 65 metros com dois telões e 700 refletores. No total, 265 toneladas de equipamentos. A acústica do Geraldão, que sempre teve uma fama negativa, recebeu um som de 220 watts. Esse megashow custou a Pinga cerca de CR$ 2 milhões, embora a previsão de lucro fosse o dobro.

"Fomos buscar eles no aeroporto e usamos um carro forte da Liserve Vigilância, que era um dos patrocinadores do evento. Eles chegaram no Geraldão pela tarde para testar o som. Ficaram lá dentro do camarim com um buffet 24h”, conta Paulo Roberto Rodrigues, o Paulão, que integrava a equipe de segurança de Pinga. A lista de exigências causou polêmica: caviar, salmão, cinco garrafas de uísque Ballantine’s 12 anos, vinho Fernet Blanc e mais. Pinga não atendeu nem metade dos pedidos. “O caviar, eles vão ter de deixar para comer lá mesmo, na terra do bacalhau", registrou Solange.

Chegado o esperado dia, a histeria tomou conta. Antes da apresentação, marcada para 20h, 20 pessoas já tinham sido atendidas no posto de saúde. Eram casos de embriaguez e pequenos acidentes. A equipe de segurança também encontrou venda de ingressos falsos. Muitos jovens chegaram bem cedo para garantir um bom lugar nas arquibancadas, embora os portões só tenham sido abertos pela noite.

"Fiquei muito nervosa com a possibilidade de não conseguir ver o show, então cheguei às 13h com amigas. Estava chovendo e tinha muito comércio no entorno", relembra a jornalista Adriana Santana, que tinha 15 anos na época. “No final das contas, eu nem fiquei perto, porque uma amiga minha passou mal e tivemos de recuar. O Geraldão estava muito cheio. Eles tocaram todos os sucessos, tudo o que queríamos. Também fizeram aquelas coisas que todo gringo faz, como arriscar o português com um ‘Amo Recife’. Particularmente, foi como um sonho para mim. Era uma coisa de outro mundo. Inesquecível."

O êxito do A-ha estimulou Pinga a também trazer outros grupos com um perfil parecido, no sentido de já não ser uma febre mundial, mas ainda despertar o fascínio do jovem recifense. O Information Society fez show no Geraldão em 23 de abril de 1993. Na década de 1990, o Recife também assistiu ao rock doFaith No More (12 de setembro de 1991, no Geraldão) e do Men At Work (3 de maio de 1996, no Moritzstadt, que ficava na Rua do Apolo). O gringo que encerrou o roteiro de shows internacionais no Recife naquele século, em 2 novembro de 2000, foi o "guerrilheiro pop" francês Manu Chao, que vivia o seu auge com o álbum Clandestino (1998).

Confira o anúncio do show do A-ha para a TV:



Confira o pôster promocional do A-ha no Jornal do Commercio:


 (Foto: Thiago Lúcio/Divulgação)
Foto: Thiago Lúcio/Divulgação



Esse é o sexto texto de uma série de reportagens que visa resgatar os grandes shows internacionais em Pernambuco no século passado.

Confira as demais reportagens, em linha cronológica:



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