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HUMOR

'Mulheres são passíveis de serem ridicularizadas por fazer humor', diz Ademara Barros

Publicado em: 04/09/2020 11:22

 (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação

As sátiras e reproduções de arquétipos do cotidiano, em sua maioria do imaginário nordestino, permeiam as produções da atriz e jornalista pernambucana Ademara Barros, a Ademaravilha, que tem conquistado grande repercussão nas redes sociais. Depois de ter as contas no Instagram e Twitter invadidas no início de agosto por hackers, que criaram páginas falsas e apagaram conteúdos, a humorista ganhou ainda mais força, com apoio de milhares de seguidores e personalidades como o humorista Gregório Duvivier, a ativista Winnie Bueno e o coletivo Midia Ninja. Os perfis oficiais voltaram cerca de uma semana após o ocorrido, e os vídeos publicados estão sendo recuperados e repostados aos poucos.

Atualmente, Ademara tem mais de 220 mil seguidores nas duas contas. Com popularidade em alta, Ademara fechou parceria com o estúdio de conteúdo Play9, do youtuber Felipe Neto. A empresa é especialista em cases de sucesso na produção e gestão de canais de YouTube. O convite surpreendeu Ademara, que só há quatro meses passou a produzir conteúdo mais assiduamente. “Eu não esperava por isso, comecei de forma despretensiosa. Vejo essa parceria como uma chance de reverberar o meu trabalho, além de sofisiticar o conteúdo, com o suporte da empresa.”

Natural de Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, Ademara começou a turbinar views após publicar um vídeo no qual dubla o meme de Rayanne Menezes, que reclama da prova do Enem. O conteúdo viralizou e, a partir daí, diversos outros vídeos inundaram as redes, como o da repórter sudestina Laura Tampurini. A personagem é uma crítica à forma como o Nordeste é retratado em outras regiões do país.

A humorista participou, na sexta passada, do Encontro com Fátima Bernardes (Globo), onde falou de trajetória, próximos passos e episódios de preconceito com nordestinos que inspiraram os roteiros dos vídeos. "Eu sou acostumada a fazer humor no meu dia a dia, com meus amigos, mas comecei a publicar vídeos há pouco tempo. Apesar de fazer teatro desde nova, não imaginava que fosse dessa maneira que o teatro fosse se tornar mais presente na minha vida”, diz a humorista.

Ademara é formada em jornalismo, estuda teatro desde os 14 anos e já fez parte da equipe do Diario."Me formei em jornalismo por acreditar que teria uma carreira profissional com mais oportunidades formais e menos incerta que a artística, porque vim de família de baixa renda, e não podia me arriscar a não ter oportunidade de trabalho."

Confira a entrevista:

Como o humor costura sua vida?
Sempre foi uma ferramenta de defesa. Venho de uma família que não teve muito acesso à educação e tive uma criação muito recatada. Então eu cresci tolhendo a maioria dessas minhas características de descontração e dinamismo para não assustar meus familiares. Toda vez que eu fazia piada e tentava ser bem-humorada, era um choque, não aprovavam o comportamento. Quando saí de casa, entrei na faculdade, conheci pessoas que possibilitavam a exposição do meu comportamento extrovertido, então eu consegui desenvolver melhor meu comportamento e a minha personalidade.

O que te inspira na produção dos vídeos?
Gosto de falar sobre contradições do cotidiano, comportamentos elitistas ou algum outro aspecto que traga a identificação de uma classe econômica. Costumo fazer humor com situações que merecem ter um tipo de ref lexão, não necessariamente mais “cabeçudos”, como o Esquerdomacho e Laura Tampurini. Quero fazer as pessoas rirem da maneira mais natural e gostosa possível.

Por que fazer humor com a região Nordeste?
Desde que vim morar no Rio de Janeiro, há pouco mais de um ano, passei por muitas situações de xenofobia e constrangimento por causa do meu comportamento, sotaque, jeito de falar. As pessoas conhecem o Nordeste a partir da imagem consolidada: do Sertão, do povo que passou por dificuldade, que é mais ignorante, tradicionalista e beato. Acho importante colocar essa temática em evidência no meu trabalho, fazer as pessoas pensarem sobre uma ignorância que existe sobre uma região com vários estados diferentes e plurais.

De onde surgiu a personagem Laura Tampurini, repórter do sudeste brasileiro? 
A personagem vem do entendimento dessa estrutura do imaginário do Nordeste como imagem consolidada. Ela estava presente em um texto de stand-up que eu criei, mas logo em seguida veio a pandemia e eu não tive oportunidade de me apresentar presencialmente, então eu transformei em vários vídeos. É uma forma de expressa a minha arte mesmo que não pudesse ser por meio do encontro com o público, como o teatro proporciona.

Sobre a relação com a comédia, Tatá Werneck disse uma vez que, na cabeça de muitos, “os homens são engraçados, as mulheres malucas”. Como é ser uma mulher que faz humor?
Tatá é minha maior inspiração. Ela quebrou paradigmas sobre o que a gente conhecia sobre a performance feminina e abriu um espaço para mulheres que até então se sentiam apreensivas de desenvolver o humor. A questão é que as mulheres são muito passíveis de serem ridicularizadas por fazer humor. Apesar de ter muita gente que admira meu trabalho, sou ridicularizada por muitas outras. Recebo muitas mensagens falando que sou feia, que pareço maluca. Muita gente me chama de doida, mas não entende que isso é uma postura de liberdade, de uma atriz que se propõe a performar das maneiras que lhe interessam. E eu não faço só humor, faço tragédia, drama..

Você recebe muita ofensa por conta do gênero nas suas redes sociais. Como lida com os ataques?
Me atacam muito usando o termo "humor feminino". Para mim, essa expressão é a mais representativa para deslegitimar uma mulher que faz comédia, como se o humor feminino não fosse permitido, não existisse ou pertencesse a uma categoria mais baixa. Eu tento ignorar esse tipo de postura, costumo avaliar e aceitar todas as críticas que recebo de maneira educada, mas comportamento previsível de homens que não conseguem entender a liberdade de uma mulher para fazer o que quiserem, inclusive humor, eu nem sei… só coloco numa caixinha para inspirar outros vídeos.

Você chegou onde você imaginava que chegaria? Quais são os seus planos daqui pra frente?
Eu imagino chegar em tanto lugar ainda… [risos] mas eu não imaginava que o teatro me levaria a essa situação agora, de produzir para a internet e considerar fazer só isso em determinado momento da minha vida. Não tenho plano definido, mas busco tentar conciliar de maneira responsável o que faço como artista e como jornalista. Minha essência é de atriz, eu gosto de promover transformação na cabeça das pessoas por meio do humor ou de qualquer outro gênero, mas não deixo de ser jornalista, isso acaba sendo um traço da minha personalidade.

Veremos uma mudança nos formatos dos vídeos?
Eu tento fazer um vídeo por semana. Eu que faço roteiro, captação e edição. Espero poder aumentar esse fluxo e produzir com mais frequência em breve. É como eu digo, não basta ser bonita, tem que ser ligeira. [risos] E eu venho tentando ser ligeira dentro dos meus limites.
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