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Há 35 anos, Nina Hagen aterrissou o seu disco voador no Recife

Publicado em: 06/09/2020 15:20 | Atualizado em: 07/09/2020 13:13

Nina Hagen fez show no Recife em 19 de setembro de 1985 (Foto: Arquivo DP)
Nina Hagen fez show no Recife em 19 de setembro de 1985 (Foto: Arquivo DP)

Durante um período de reclusão em uma casa na praia de Malibu, em 1981, a cantora alemã Nina Hagen acreditou ter tido contato com um disco voador. Segundo relatos em entrevistas e na letra da canção UFO, a nave emitia raios de luz com cores fluorescentes, muito fortes, que se moviam ao redor do objeto rosa, turquesa e amarelo. Maravilhada e paralisada, Nina sentiu uma energia nova e decidiu levar aquela experiência aos palcos. E foi assim, em um disco voador cenográfico, que o público pernambucano a viu chegar no palco do Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães, o Geraldão, em 19 de setembro de 1985. Para Pernambuco, a figura de Nina Hagen parecia realmente interplanetária: uma mulher nascida na Alemanha Oriental, musa do movimento punk, conhecida por caretas, roupas, perucas e maquiagens extravagantes.

A parafernália que vinha junto com a alemã também era "de outro mundo": uma equipe de 60 pessoas e 13 toneladas de equipamentos, como efeitos de som e luz da empresa canadense Solotech Inc, a mesma que havia realizado o encerramento das Olimpíadas de Los Angeles no ano anterior. Um espetáculo futurista. O tal disco voador foi suspenso por um guindaste no Geraldão, o principal palco para grandes shows no Recife até então.

Filha de atriz e escritor, Nina Hagen construiu um senso político precocemente por ter o ativista Wolf Biermann como padrasto desde os 10 anos. Com temperamento anarquista que não combinava com a burocracia da Alemanha Oriental, ela começou a estudar canto lírico e interpretação. Em 1976, liderou um movimento pela volta do padrasto, impedido a retornar ao país após uma viagem. Como resultado, conseguiu um visto para atravessar o muro e assinou contrato com a gravadora CBS. Inquieta, ela viajava constantemente para Londres, onde brotava o movimento punk. Na década de 1980, já mundialmente famosa, Nina Hagen se muda para os Estados Unidos e conquista o mercado mais cobiçado do mundo.

In Ekstase era o álbum de trabalho de Nina Hagen durante a visita ao Recife (Foto: CBS Records/Divulgação)
In Ekstase era o álbum de trabalho de Nina Hagen durante a visita ao Recife (Foto: CBS Records/Divulgação)

A vinda da alemã dialoga com um contexto maior de abertura do Brasil para mais artistas estrangeiros, tendo como consolidação o Rock in Rio, em 1985. Foi justamente nesse festival que ela fez sua estreia no país, com um show que arrebatou o público e conquistou a imprensa brasileira. Pernambuco, mesmo que timidamente, também começava a entrar numa rota gringa com Jimmy Cliff (1980), Rick Wakeman (1981) e Menudo (1985). Essa atmosfera fez com que o superintendente do Geraldão, Eduardo Cavalcanti, assinasse um contrato com o empresário Sandro Samelli, representante da Latitude Promoções, responsável pela vinda de Nina.

A sua chegada no Aeroporto dos Guararapes, na tarde de 18 de setembro, foi acompanhada por cerca de 100 de jovens. O Jornal do Commercio registrou que, quando ela saiu do avião, foi um delírio. "Gritos, canetas e papéis propagavam pelo ar, mas Nina, com uma peruca vermelha, o rosto bem maquiado e roupas exóticas, foi rápida e entrou num dos três ônibus que a esperavam e a sua equipe. Sentou na primeira fila, deu autógrafo num papel que havia recebido e devolveu-o para os fãs com a cara meio desolada." Ela se hospedou no Hotel 4 Rodas, em Olinda, onde foi entrevistada pela TV Viva, emissora que tinha sede no município.


O jornalista pernambucano radicado em São Paulo João Luiz Vieira, 50, tinha 15 anos na época. "No Nordeste, só ia ao Rock in Rio quem tinha dinheiro. Eu e meus colegas éramos muito jovens, então víamos tudo pela TV. Alguns artistas nos foram apresentados através do festival. A Nina, por exemplo, era muito distante do universo do Nordeste. Eu me apaixonei quando ela cantou My way, de Frank Sinatra, destruindo o arranjo original. Essa transgressão me chamou muita atenção. Quando o show foi anunciado aqui, fui um dos primeiros a comprar o ingresso no Geraldão". As entradas foram vendidas por CR$ 25 mil (arquibancada) e CR$ 50 mil cruzeiros (cadeira).

"Quando chegou o dia do show, os portões foram abertos às 15h e eu já estava lá, assim como pessoas de  Alagoas e da Paraíba”, relembra João Luiz Vieira. “Eu nunca fiz isso com ninguém na minha vida. Nina chegou no palco num disco voador e usava um ursinho na região da virilha. Fiquei bem embaixo do microfone dela. Ela olhou para mim, eu mandei um beijo e ela retribuiu. Eu vi as obturações da arcada dentária dela. Fiquei o show todo em êxtase."

A repercussão do Diario, através do colunista Paulo Fernando Craveiro, apontou que o show foi pouco rentável, rendendo CR$ 149 milhões no Recife, dinheiro pago por 3,9 mil pessoas. "Esperava-se público de 15 mil espectadores e renda de CR$ 525 milhões. A Latitude Promoções deve estar amargando prejuízo", comentou Craveiro.

Capa do caderno Viver em 18 de setembro de 1985, divulgando show de Nina Hagen. (Foto: Arquivo DP)
Capa do caderno Viver em 18 de setembro de 1985, divulgando show de Nina Hagen. (Foto: Arquivo DP)

Sobre a apresentação, o colunista escreveu: "O show, que em nenhum momento contagiou o público, começou com 70 minutos de atraso e se destacou por dois fatos não musicais: a cavalgada que a cantora deu nas costas do baterista do conjunto e a simulação de que masturbava a língua do ursinho de pelúcia que conduz numa pequena bolsa estrategicamente colocada sobre a região do púbis. A cantora fez uma sessão de exorcismo, com uma cruz, conseguindo apenas esconjurar uns pobres diabos da plateia. Os que louvam, destacam: a poderosa e cristalina voz e a expressiva interpretação de New York, New York."

Apesar do contumaz tom ácido, Craveiro registrou também a necessidade da expressão de artistas como Nina Hagen naqueles tempos austeros no Brasil e no mundo. "Os tempos mudam, cumpre reconhecer. É preciso absolvê-los e absorvê-los. [...] A roqueira integra os ácidos dias contemporâneos. Impossível dissociá-la de uma sociedade enferma pela crise. É preciso protestar. Suba-se ao palco. Que se faça careta e que se berre."

Esse é o quinto texto de uma série de reportagens que visa resgatar os grandes shows internacionais em Pernambuco no século 20.



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