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DOCUMENTÁRIO

Filme conta história de Cafi, pernambucano responsável por capas icônicas da MPB

Publicado em: 29/09/2020 09:35 | Atualizado em: 29/09/2020 17:39

 
Documentário lançado no canal Curta! apresenta vida e obra do fotógrafo mais influente da música brasileira, autor de várias capas de discos icônicas. (Foto: Reprodução/Facebook)
Documentário lançado no canal Curta! apresenta vida e obra do fotógrafo mais influente da música brasileira, autor de várias capas de discos icônicas. (Foto: Reprodução/Facebook)
 
 
"Pra onde o pernambucano vai, o céu de Pernambuco vai atrás", dizia Cafi, parafraseando o historiador Leonardo Campos. Carlos da Silva Assunção Filho, um dos fotógrafos e artistas plásticos mais influentes do Brasil, carregou esse céu de sua terra natal, adentrando o país e o universo das capas dos discos, perto de 300, com as artes para o Clube da Esquina entre as mais icônicas. Cafi faleceu em 2019, mas parte de suas memórias, encontros e trajetória está registrada na cinebiografia Salve o prazer, com direção dos também recifenses Lírio Ferreira e Natara Ney. O documentário estreou na noite de ontem no canal Curta! e terá reprises hoje (às 3h e 17h), amanhã (11h), sábado (15h30) e domingo (23h).


Às margens do Capibaribe, Salve o prazer começa no reencontro de Cafi com as águas do rio que corta a cidade e espelha o céu na primeira cena do filme. Através de imagens de arquivo de um Recife dos anos 1950 e 60, o documentário nos situa na infância do artista no Recife e logo depois nos primeiros trabalhos com fotografia de maracatu rural, ainda aos 17 anos. Mesmo quando foi morar no Rio de Janeiro sempre voltava para Recife, que permaneceu na sua imaginação como um lugar primordial pra sua formação cultural. Nos anos 1970, fotografou na capital pernambucana a primeira apresentação do disco Transa, após o fim do exílio de Caetano Veloso.
 
Com um elenco de estrelas de MPB, uma das primeiras presenças ao lado de Cafi é a de Alceu. No Sítio Histórico de Olinda, os dois confabulam sobre o poder da cidade: "Olinda é um sonho, né?", dizia Cafi. A produção segue uma linha cronológica e nos traz histórias como a de Alceu vestido de cangaceiro entre os carros no Rio de Janeiro, enquanto Cafi buscava o clique da capa de Espelho cristalino (1977).  Mesmo anos depois já estabelecido no Rio, Cafi continuou a colaborar e ser figura ativa com outras gerações artistas pernambucanos como na capa do disco Certa manhã acordei de sonhos intraquilos (2009), de Otto. 
 
 (Foto: Reprodução/Internet)
Foto: Reprodução/Internet
 
 
Nessa linha do tempo de afetos e relação profícua entre fotografia e música, o documentário segue com diálogos de Cafi com Jards Macalé, que relembra os tempos de juventude no Rio. Também o encontro com a coreógrafa Deborah Colker, ex-esposa do fotógrafo, que da relação com o pernambucano foi apresentada a João Cabral de Melo Neto e usou o poema O cão sem plumas para inspirar um dos seus principais espetáculos. A intervenção dos diretores é quase nula nas conversas, conduzidas por Cafi de forma muito espontânea, que ao lado de figuras tão importantes é simplesmente um amigo. 

Aliado aos belos enquadramentos, o filme se sustenta em uma narrativa visual, também muito enriquecida pelo próprio acervo do fotógrafo. Mesmo que suas obras não se resumam às capas dos LPs, o fotógrafo explica no filme como o suporte do disco era fundamental. "Com 31 cm por 31 cm, a capa de disco sempre foi um espaço generoso (para a criação). Você vende sensibilidade", comenta Cafi. Essa sensibilidade fica bem exposta na obra-prima do Clube da Esquina. A princípio, a gravadora não achou muito boa a ideia de uma capa sem palavras, apenas com dois meninos sentados numa estrada de terra, fotografados por Cafi de dentro de um carro. Mas o fotógrafo soube argumentar. "Não pode ter uma embalagem qualquer, como qualquer produto." Resultado: o olhar aguçado de Cafi prevaleceu e rendeu um dos discos mais icônicos da música brasileira.
 
 (Foto: Reprodução/Internet)
Foto: Reprodução/Internet
 
 
Da relação com o pai, é revelada a boemia, e com a mãe, o hábito de fumar - inclusive, em uma das cenas, Jards Macalé repreende Cafi, que dizia ser uma forma se conectar com ela. Sua última capa é do disco Besta Fera (2019), de Jards. O documentário também mostra o quanto a família incentivou a arte.  Foram quase quatro décadas de ofício, até Cafi morrer, no dia 1º de janeiro de 2019, aos 68 anos, vítima de um infarto. Seu legado está imortalizado em discos de artistas como Fagner, Nana Caymmi, Edu Lobo, Beto Guedes, Geraldo Azevedo e tantos outros. E agora esse documentário, que revela de forma saudosa, íntima e  simples, toda uma vida pautada na arte.

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