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MEMORIA

Há 35 anos, Menudo causava furor no Recife com o primeiro grande show do Arruda

Publicado em: 29/08/2020 12:17 | Atualizado em: 06/09/2020 15:33

Registro do show no Arruda, Zona Norte do Recife (Foto: Arquivo DP)
Registro do show no Arruda, Zona Norte do Recife (Foto: Arquivo DP)

O modelo de shows em estádios está estritamente ligado à consolidação da cultura de massa em uma sociedade de consumo. Não é por acaso que os Beatles inauguraram essa prática no Shea Stadium, em Nova York, em 1965. A apresentação histórica contou com 55 mil pessoas que, no auge da beatlemania, queriam mais ver do que ouvir os ingleses. E é num outro contexto de "mania" que o primeiro grande show em estádio foi realizado no Recife, em 1º de março de 1985. O grupo porto-riquenho Menudo, na sua era de ouro, desembarcava para se apresentar no Estádio José do Rego Maciel, o Arruda, reunindo cerca de 60 mil pessoas em uma noite que entrou para a história dos concertos internacionais em Pernambuco.

Com formações voláteis, o grupo se encontrava na sua composição mais memorável: Robby Rosa, Charlie Massó, Roy Rosselo, Ray Reyes e Ricky Martin. A chegada do quinteto contou com mais de 200 soldados e seis viaturas, ainda assim insuficientes para conter a multidão no Aeroporto dos Guararapes. Extensas filas foram formadas para compra de ingressos, que esgotaram e foram vendidos por preços extorsivos pelos cambistas. A Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos criou um esquema especial de ônibus para beneficiar a chegada do público de todas as zonas da cidade. Era a segunda turnê do Menudo no Brasil, com uma agenda de 12 shows que começou no Belém do Pará, em 26 de fevereiro.

Para entender a história do Menudo é preciso conhecer a trajetória de seu empresário, Edgardo Díaz. O jovem gestor começou a carreira como vocalista de um conjunto familiar, cuja finalidade era combater as drogas. Ele alcançou prestígio em Porto Rico e montou a primeira formação do Menudo em 1977. Os integrantes deveriam ter bom comportamento, entrosamento com a família, ser aluno exemplar e se manter distante das drogas. Nos bastidores, Edgardo era conhecido como um gestor controlador e que trocava os integrantes caso sua vontade não fosse feita - mais tarde, ele foi acusado por Roy Rosselo de abuso sexual praticado contra os integrantes, adolescentes na época.

Construção de palco no Arruda, em 28 de fevereiro de 1985 (Foto: Arquivo DP)
Construção de palco no Arruda, em 28 de fevereiro de 1985 (Foto: Arquivo DP)

A "menudomania" se espalhou por toda a América Latina nos anos 1980, quando a banda tinha contrato com a RCA. Pernambuco não ficou de fora da tendência, já que o grupo, dono de hits como Não se reprima, tinha aparições constantes na TV brasileira. A vinda ao estado foi  promoção da produtora Via Brasil com a Rádio Cidade, que anunciou o show em dezembro de 1984. No Recife, quem fechou parceria para promoções e cobertura foi a Rádio Clube, que faz parte do grupo do Diario de Pernambuco. Sendo assim, o jornal fez uma ampla cobertura.

O anúncio causou euforia nas adolescentes, que eram o público-alvo do grupo. Logo começou a disputa por ingressos, que eram vendidos em agências bancárias. Um tíquete para arquibancada custava Cr$ 8.000 - com cambistas, mil cruzeiros a mais. Sócios do Santa Cruz que tivessem cadeira cativa poderiam acessar o espaço, desde que comprassem o ingresso e tivessem boletos em dia. A estrutura do palco foi montada perto da área que dá para a Rua das Moças, com pista (com cadeiras no gramado), pista livre (em pé no gramado) e arquibancada. Os promotores garantiram aos diretores do clube que arcariam com a recuperação do campo, já que haveria jogo na semana seguinte.

A chegada do Menudo no aeroporto foi um alvoroço, até com portão quebrado. Os carros com os jovens astros precisaram usar as saídas do Aeroporto Militar do Ibura. O tumulto seguiu até a frente do Othon Palace Hotel, em Boa Viagem, onde eles se hospedaram. "Carregando cartazes e usando camisas e broches, uma legião de fãs gritava pelos nomes dos integrantes do conjunto e, quando um deles aparecia na varanda do apartamento, o histerismo era total. As meninas só faltam se rasgar na disputa de um lugar que desse melhor condição de visão", registrou o Diario.

Fãs na frente do Othon Palace Hotel, em Boa Viagem (Foto: Arquivo DP)
Fãs na frente do Othon Palace Hotel, em Boa Viagem (Foto: Arquivo DP)

Uma coletiva de imprensa ocorreu no hotel. Robby, Charlie, Roy, Ray e Ricky atrasaram cerca de 40 minutos, o que gerou um pequeno tumulto. O assessor do grupo não conseguia convencê-los com a alegação de que "os meninos estão estudando, pois têm três horas de aula por dia". Quando finalmente chegaram, os menudos estavam acompanhados pelo empresário. "Apesar da descontração dos integrantes do conjunto, deu para perceber que todos são ‘programados’ pelos que detêm ‘o poder’ de orientá-los na carreira artística", disse o texto do Diario

"O Ray, por exemplo, com 14 anos, terá de deixar o grupo dentro de alguns duas, mas demonstra-se satisfeito. Por gostar muito de cantar, disse que poderá dar um tempo e, dependendo das coisas, seguir a carreira isolado. Cheio de tiques, comentou não ser verdade que está recebendo acompanhamento de psicólogos para poder se afastar "do pessoal numa boa". Os outros integrantes do conjunto falam pouco. Reconhecem o sucesso e lamenta, em alguns casos, não poderem visitar os pontos turísticos das cidades por onde estão passando com o show." Perguntado sobre o sucesso do grupo, Edgard respondeu que "havia uma carência de ídolos no mundo". "Os Menudos apareceram numa boa hora e estão aí comandando o mercado musical."

Menudo em coletiva no hotel (Foto: Arquivo DP)
Menudo em coletiva no hotel (Foto: Arquivo DP)

Um anúncio da Rádio Clube no Diario avisava aos fãs que levassem radinhos de pilha, pois a emissora faria cobertura "em tempo real". A jornalista pernambucana Taís Paranhos comemorou 7 anos no show. "O Arruda estava lotado, mas lembro que atrasou muito e teve até queda de energia. Lembro de vê-los dançando por um binóculo. Ricky Martin era um integrante mais recente e costumava falar 'un beso a las chicas del Recife'. O frisson era realmente entre as mocinhas, se respirava Menudo naquela época."

"Quem esteve no Arruda viu e sentiu de perto a força que aquele grupo exerce sobre a juventude", registrou o jornalista Robson Sampaio, em uma cobertura publicada em 4 de março. "Uma mocinha, em torno de seus 13 ou 14 anos, silenciosa, postada no alambrado do estádio, chorava silenciosamente. As lágrimas exprimiam a emoção de ver de perto os seus ídolos."

"'Valeu. Não são apenas as meninas que curtem o Menudo. Nós também. É a força da juventude. É isso aí', respondia um rapaz no meio de tantos outros entrevistados pela televisão no Estádio do Arruda”, continuou Robson. "Suas palavras representam, sem sombras de dúvidas, o pensamento generalizado deste garotões dos anos 1980. Muitos deles com corte dos cabelos de roupas parecidas com o Rock, o líder do conjunto. A dança, roupas e músicas dos jovens Menudo fazem o dia a dia de nossos filhos. À saída do Arrudão ficou comprovada nos semblantes daquelas crianças - um público infanto-juvenil - a alegria de ter visto seus ídolos."

Título de reportagem de Robson Sampaio em 4 de março de 1985 (Foto: Arquivo DP)
Título de reportagem de Robson Sampaio em 4 de março de 1985 (Foto: Arquivo DP)

Em 5 de março, João Alberto opinou em sua coluna: "A grande verdade é que nunca um espetáculo no Recife despertou tanto interesse e foi tão comentando quanto o show (dublado) do grupo Menudo. Nem mesmo Roberto Carlos no auge do seu prestígio."

Também houve crítica negativa, como a do colunista Paulo Fernando Craveiro. "Ao grupo musical, que é promovido como uma marca de cigarro ou um sabonete, pouco interessa a qualidade. No estádio do Arruda, fingiram que cantavam. Uma parafernália eletrônica garantia a performance em playback. À porta do campo do Santa Cruz, havia de tudo para vender com o nome do Menudo. Vitamina, creme dental, fotos, broches, camisas, espelhinhos e bonés. Até supositório teriam mercantilizado, se houvessem."

O Diario publicou diversos artigos de opinião e cartas de leitores que criticaram a "menudomania" como um produto raso, fruto da massificação da cultura através da TV. O grupo voltou ao Recife em 19 de abril de 1987, desta vez no Geraldão, e acabou oficialmente em 2002 - uma nova e mal sucedida versão existiu entre 2007 e 2009. Aqueles críticos de 1985 estavam certos quanto à efemeridade do fenômeno, o que é natural na cultura pop. Mas um trecho da cobertura de Robson Sampaio resume bem sobre a importância dos ídolos na juventude: "É tudo uma questão de tempo, de fase. De ser criança e jovem e de viver novos tempos, de liberdade e opção de vida, símbolos de uma democracia."

Confira o vídeo da chegada do Menudo no Aeroporto:


Confira os anúncios da Rádio Cidade e Rádio Clube:

Anúncio da Rádio Cidade em 3 de março de 1985 (Foto: Arquivo DP)
Anúncio da Rádio Cidade em 3 de março de 1985 (Foto: Arquivo DP)

Anúncio da Rádio Clube em 1º de março de 1985 (Foto: Arquivo DP)
Anúncio da Rádio Clube em 1º de março de 1985 (Foto: Arquivo DP)



Essa é o quarto texto de uma série de reportagens que visa resgatar os grandes shows internacionais em Pernambuco no século 20.

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