Vida Urbana
Pessoas fantasiadas de almas penadas fazem parte das imagens do passado que relembram o surgimento do Galo da Madrugada (Sem autoria identificada - Acervo Galo da Madrugada)
A alvorada do sábado 4 de fevereiro de 1978 foi anunciada por um canto diferente, coletivo. Segundo registro da agremiação (clique aqui), cerca de 75 pessoas fantasiadas de almas penadas percorreram as ruas do bairro de São José, na Região Centro da Capital. Com sacos de confetes e serpentinas, acompanhadas por uma orquestra de frevo com 22 músicos, o grupo liderado por Enéas Freire queria resgatar o carnaval de rua do Recife. Naquela madrugada surgia o Clube das Máscaras o Galo da Madrugada e sua história de números crescentes a ponto de figurar nas páginas do "Guinness Book”, o “Livro dos Recordes”, como “o maior bloco de carnaval do planeta”, quando teria reunido, em 1994, 1,5 milhão de foliões.
Um ano após a fundação a agremiação passou a acordar foliões com o canto criado pelo professor José Mário Chaves, o Hino do Galo (clique aqui e conheça a letra). “Ei pessoal, vem moçada/ Carnaval começa no Galo da Madrugada…”, entoava o crescente público de foliões que, ano-a-ano, alongavam o cortejo, a ponto de “mudar o horário” do início da folia. No carnaval de 1995 surgia uma enorme alegoria, a primeira escultura gigante do Galo, saudado na sexta-feira anterior ao desfile do bloco, pela primeira e única vez abrigado numa balsa ancorada no Rio Capibaribe, antes de passar a ser erguido e imperar na Ponte Duarte Coelho. Do improviso da montagem que quase custou a cabeça da primeira escultura, criada pelo artesão Paulo Vicente, viria uma tradição de aprimoramento expressa no Galo Preto Ancestral deste carnaval 2023.
Na virada de século, a aprovação pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) do título de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado (2009), e, depois, o recebimento da Medalha da Ordem do Mérito Guararapes (2012) e a Medalha da Ordem do Mérito Cultural pelo Governo Federal (2017), apenas referendavam aquilo que a crescente multidão já consumara como referência no carnaval do Brasil, e, no aniversário de 40 anos, a agremiação teria arrastado cerca de 2,3 milhões de foliões. Tal qual ocorre com o trabalho que ergue a escultura gigante do Galo, a agremiação também move toda uma economia e geração de emprego e renda que passa despercebida para a maioria dos foliões, mas é motivo de sobrevivência para muitas famílias. E inspira o surgimento de outras agremiações pelo Brasil.
As alvoradas marcadas pelas “almas penadas” que viravam a noite para garantir o desfile e seus cafés da manhã improvisados do bairro São José ficaram nas memórias de foliões que mesclam saudosismo com fidelidade. Ninguém discute números. O chamado cortejo se agigantou e não cabe mais em fotos e imagens que não sejam feitas do alto dos prédios e depois de helicópteros. Iniciando o desfile bem mais tarde. O roteiro também sofre mudanças e o gigantismo eventualmente “trava” parte do desfile, quando alguns dos carros alegóricos ou das dezenas de grandes caminhões que transportam as também dezenas de orquestras, artistas, intérpretes eventualmente ficam retidos em vias mais largas que as estreitas ruas dos desfiles iniciais, movendo as multidões no chamado Sábado de Zé Pereira.
Últimas
Mais Lidas