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SAÚDE

Transplante de órgãos aumenta quase 60%

De janeiro a julho, ocorreram 724 transplantes, uma variação positiva de 59,47%, quando comparado com o mesmo período de 2020

Publicado em: 27/09/2021 08:30 | Atualizado em: 27/09/2021 10:43

Andressa passou pelo transplante de coração e rim, durante uma mesma cirurgia, no IMIP. A operação realizada em 2015, foi a primeira de Pernambuco. (Divulgação)
Andressa passou pelo transplante de coração e rim, durante uma mesma cirurgia, no IMIP. A operação realizada em 2015, foi a primeira de Pernambuco. (Divulgação)

Viver ultrapassa qualquer entendimento. A frase reflete bem o processo enfrentado por quase 2 mil pessoas que estão na lista de espera por um transplante de órgão, de acordo com os últimos dados da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES-PE). Diante de um cenário de baixa adesão da população para doação órgãos dos entes que foram a óbito, e com o abrupto surgimento da Covid-19 no ano passado, houve no período crítico da pandemia a suspenção de algumas cirurgias e o aumento da fila de espera, registrados pela Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE). Neste ano, no período de janeiro a julho, ocorreram 724 transplantes de órgãos e tecidos, uma variação positiva de 59,47%, quando comparado com o mesmo período de 2020, no qual apenas 454 cirurgias foram realizadas.

“É importante que quem não se declarou como doador, se declare. Pois, facilita muito a decisão da família na hora do falecimento. E também, acima de tudo, se colocar no lugar do outro. ‘E se eu precisar de um transplante, e se eu vir a precisar de um órgão para continuar vivendo? Será que vou querer ser transplantado?’ Essas são perguntas que precisamos nos fazer, para que a gente se imagine na situação e vislumbre o que é estar na fila de espera, tendo a própria vida nas mãos de pessoas que se quer conhecemos. É preciso exercer esse ato de solidariedade, de amor ao próximo, para que outras pessoas possam continuar vivendo”, reflete a coordenadora da Central de Transplantes, Noemy Gomes.

Segundo o balanço de transplantes da SES-PE, de janeiro até julho deste ano, foram realizadas 20 cirurgias de coração, três cirurgias de valva, 371 de córnea, 127 de medula óssea, 60 de fígado, 142 de rim e um cirurgia dupla de fígado/rim. As doações, requisito básico para realizar as cirurgias, para acontecer, dependem da autorização dos familiares da pessoa que morre.


“A questão de ‘poder doar’ passa por alguns critérios técnicos e clínicos, que são inerentes ao processo de morte. O mais importante, em vez de perguntarmos ‘Quem pode ser doador?’ é perguntarmos ‘Quem quer ser?’. Pois, esse ‘poder’ vai passar por uma série de exames. Mas a pessoa querendo ser, já é metade do caminho andado. Então, o ‘poder ser doador’ no momento do falecimento serão avaliados a partir dos resultados dos exames e das condições em que o doador veio a falecer”, complementa Gomes.

No ano passado, foram suspensas as cirurgias de córnea e rim. Fígado, coração e medula não foram suspensas, pois segundo a coordenadora, o paciente não tem alternativa de tratamento. Atualmente, todos os programas de cirurgia estão em funcionamento no Estado. Em 2020, houve 9 cirurgias de coração, 10 de valva, 208 de córnea, 107 de medula óssea, 41 de fígado, 78 de rim e uma cirurgia dupla de rim/pâncreas.

O cirurgião cardíaco Carlos Moraes, que realizou há 30 anos, o primeiro transplante de coração em Pernambuco. (Divulgação)
O cirurgião cardíaco Carlos Moraes, que realizou há 30 anos, o primeiro transplante de coração em Pernambuco. (Divulgação)

AVALIAÇÕES

O médico cirurgião cardíaco Carlos Moraes, que realizou o primeiro transplante de coração em Pernambuco, há 30 anos, e atual presidente do Instituto do Coração (INCOR-PE), relata os avanços para as cirurgias de transplantes. “Mudou muita coisa desde o começo. A mudança mais significativa foi a preservação do órgão. Quando o coração tem condições de ser transplantado, a partir daí, nós temos atualmente o máximo de quatro horas para retirar o coração que está batendo no peito do doador, para colocar para bater no corpo do receptor. Mas quatro horas é um tempo muito curto... Retirar, transportar para o hospital... Então, houve um progresso muito grande nesse sentido”, aponta.

“Quando eu comecei a fazer transplante de coração o máximo era uma hora. Então, nós trazíamos para o doador para o hospital, que ficava numa sala ao lado com uma equipe, enquanto retirava o órgão, e outra equipe já iria abrindo o doente para fazer o procedimento. Era o prazo de uma hora. Então, houve métodos e apareceram drogas que permitiram que o procedimento fosse estendido. O tempo foi um progresso. Outro progresso foi aparecimento das drogas que ajudam a evitar a rejeição”, complementa.

Com três décadas de atuação na área, Moraes ressalta que os aspectos envolvidos no processo de doação mudam conforme os aspectos sociais do país. “Em Portugal, por exemplo, o indivíduo decide e põe na carteira de identidade se ele é doador ou não. Se ele sofrer um acidente e ir para o hospital, os médicos não precisam nem ligar para a família. Ele chega no hospital, por morte cerebral, por exemplo, os médicos já estão autorizados a retirar os órgãos. Isso facilita muito, porque na hora que o indivíduo morre, é um choque para a família. E, na realidade, quando você aborda a família sobre a possibilidade de doação, geralmente, não é sempre, existe opiniões diferentes. Às vezes, a mulher quer mas o pai não aceita... um irmão também não. Então, você conseguir um consenso da família nem sempre é fácil”.

De janeiro a julho, ocorreram 724 transplantes, uma variação positiva de 59,47%, quando comparado com o mesmo período de 2020.
 (Miva Filho/SES-PE)
De janeiro a julho, ocorreram 724 transplantes, uma variação positiva de 59,47%, quando comparado com o mesmo período de 2020. (Miva Filho/SES-PE)

ESPERA

De acordo com a Central de Transplantes de Pernambuco, atualmente há 1.985 pessoas que integram a lista de espera de um órgão. Os dados apontam que para o coração há 14 pessoas, 85 para fígado, 1.006 para rim, 29 para medula óssea, 563 para córnea e 19 pessoas para cirurgias duplas de rim/pâncreas. De acordo com a coordenadora da Central, os números da cirurgia de rim chamam atenção devido a possibilidade de tratamento por hemodiálise.

“O rim tem uma característica diferente, se comparado com coração e fígado, porque a doença renal pode ser tratada com hemodiálise. Então, o paciente espera o transplante renal, mas continua sendo tratado com hemodiálise. A mortalidade nessa lista é seis vezes menor do que na lista de coração e fígado. É possível o paciente optar por não fazer transplante e ser tratado por hemodiálise. Já no coração e no fígado, por exemplo, quando vem se indicar transplante é porque todas as outras alternativas de tratamento já foram feitas, e não há outra forma de tratar a doença”, explica Noemy Gomes.

Com o cenário pandêmico, algumas alterações foram feitas no procedimento realizado pela Central de Transplantes, conforme protocolos do Ministério da Saúde. “Existe um tempo de espera para o caso de ter pego coronavírus. A pessoa tem que ter tido a Covid-19, e decorrido o tempo mínimo de 28 dias de recuperação do doador e o RT-PCR [exame que identifica e confirma o vírus] tem que ser negativo. Normalmente os falecimentos pela Covid acontecem logo no início da doença, em menos de 28 dias ou então quando o paciente está há muito tempo internado. Se a causa da morte foi a Covid-19 ele não pode ser doador”. E complementa: “No entanto, com as vacinas, a gente já observa uma queda significativa na incidência de positividade desses exames. Tudo isso colabora para que o número de doação e transplante de órgãos no nosso estado sejam melhores, assim como em todo Brasil”, finaliza.

O DESAFIO DE UM TRANSPLANTE DUPLO

Aos 23 anos de idade, Andressa Oliveira, trabalhadora da área de construção civil, moradora de Olinda, na Região Metropolitana, descobriu o Lúpus, que é uma doença inflamatória autoimune, que pode afetar múltiplos órgãos e tecidos. Há seis anos atrás, em decorrência do agravamento do quadro, passou por um transplante duplo de coração e rim, durante uma mesma cirurgia, no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), no Recife. A operação realizada em 2015, foi a primeira de Pernambuco, um marco para o estado. Atualmente, aos 33 anos, e 10 anos depois do primeiro diagnóstico que mudou a sua vida, Andressa, que frequenta a academia e leva uma vida normal, conta da importância da doação de órgãos.

“Há muitas pessoas que tem medo sobre o assunto. Eu fui uma delas. Mas hoje, depois do que vivi, sei que não é esse ‘bicho todo’ como se imagina. Hoje, eu também seria uma doadora de órgãos. Há muitos mitos sobre a doação. O processo todo é difícil. No meu caso, a hemodiálise, foi muito complicada. Não foi fácil estar ali. E hoje em dia poder ter uma vida normal, como antes, é uma gratidão muito grande. Vivo tudo aquilo que achava que estava perdido para mim. Hoje posso fazer um almoço e reunir toda a família. Posso ir a uma praia, que não podia ir. Posso olhar o céu, e agradecer, porque eu só via por uma janelinha. Quando tive a primeira oportunidade de ir à praia, eu agradeci muito por simplesmente poder ver o sol. Foi um recomeço de tudo que eu havia perdido”.

Antes do transplante, Andressa passou dois anos fazendo hemodiálise, por conta de complicações no rim. Com as intercorrências devido a doença inflamatória autoimune, Andressa chegou a ter três paradas cardíacas, ocasionadas por um inchaço anormal no coração. Dos mais de 50 kg que pesava antes dos diagnósticos, entre internações em UTIs e salas de cirurgia, as longas estadias em hospitais fizeram com que a moça chegasse aos 26 kg. “Chega um tempo que você perde o medo de morrer. Houve uma época em que morrer era a solução para acabar o sofrimento que eu tinha”.

Andressa leva uma vida normal após a realização dos transplantes. (Divulgação)
Andressa leva uma vida normal após a realização dos transplantes. (Divulgação)

Apesar do agravamento do quadro, Andressa se recusava a entrar na fila de espera por um órgão. Foi somente após entender o que realmente significava a situação, que a moça concordou em fazer a cirurgia. “Muitas pessoas falavam coisas que me assustavam sobre o assunto. Até que alguns médicos me explicaram que depois do procedimento, se eu tomasse a medicação direito e me cuidasse normalmente, daria tudo certo. Afinal, cada um tem uma história. Eu tinha muito medo de não conseguir, pelo fato de ser difícil. Como passei bastante tempo no hospital, passei a ouvir a história de cada pessoa. E descobri que não era nada do que eu imaginava”, relata. “Eu disse a minha mãe, que o que Deus decidisse, ela aceitasse. Pois, eu estava naquela situação e não aguentava mais”. Andressa entrou na sala de cirurgia com pouco mais de 35 kg.

“Quando eu acordei na UTI, fiquei sem entender nada. Um médico estava ao meu lado, e eu lembro de perguntar se havia feito o transplante. Ele respondeu que sim. Perguntei se havia feito os dois transplantes, e ele novamente confirmou. Eu não acreditei. Achava que havia feito só o rim”, complementou. Após o transplante, Andressa relata que teve dificuldade para andar e precisou realizar fisioterapia, mas que a recuperação foi rápida e pouco restritiva. “Foi difícil, mas a recuperação foi muito rápida. Minha mãe ficou aliviada depois de tudo que passamos”, relata. “Minha vida hoje é normal. Faço academia, como de tudo. Há algumas restrições, claro! Por exemplo, não pego muito peso, fico cansada mais rápido”. A moça faz uso de medicamentos imunossupressores, que têm propriedades anti-inflamatórias, e são essencialmente prescritos na prevenção de rejeição dos órgãos transplantados.

“Uma vez, me disseram que eu iria mudar a vida de muita gente. Quando vou ao hospital, as pessoas me conhecem como ‘A Menina do Milagre’. E sempre escuto os relatos de pessoas que decidiram fazer o transplante por causa da minha história. Sempre as encorajo. Se eu estou aqui, porque elas também não podem? É preciso tentar. Às vezes, até quando posto uma foto nas redes, as pessoas comentam que sou um exemplo de vida. E isso me emociona muito. Depois do meu transplante, muita gente mudou a cabeça sobre o assunto. É preciso sempre tentar”, finaliza Andressa.

 

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