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Especial de Natal

Amizade, afeto, solidão: sobreviventes da Covid-19 falam sobre período de internação, no respirar por dias melhores

Publicado em: 25/12/2020 08:00 | Atualizado em: 25/12/2020 09:43

Valdir Soares e Andreia da Costa, juntos, após árduo período de enfrentamento à Covid-19 (Foto: Paulo Paiva/DP)
Valdir Soares e Andreia da Costa, juntos, após árduo período de enfrentamento à Covid-19 (Foto: Paulo Paiva/DP)
Valdir sonhava todos os dias com a volta para casa. Paulo, viu a vida de bandeja numa linha tênue. Cristiane foi valente o bastante, e chorou com a solidão, sem o dia e sem a noite para contemplar. Pernambuco ultrapassou as 180 mil pessoas que se recuperaram da Covid-19, sendo 18 mil na forma grave da doença. Em meio às tragédias que fazem de 2020 um ano a ser esquecido, as três histórias não tiram do peito dos familiares daqueles que se foram a dor da despedida, mas ressignificam o dia 25 de dezembro, em um natal que se faz valer a gratidão pelo hoje revolucionário ato de respirar.

"De repente, meu pulmão que estava preto, começou a clarear”. Seguindo os passos da ordem invertida de um ano que ainda há muito de se explicar, Valdir Soares da Silva virou prova viva dos rumos inesperados que a vida pode tomar em questão de dias, talvez segundos. Em maio, ainda aos 63 anos de idade, o micro empresário, dono de dois depósitos de água mineral no bairro de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, onde reside com sua esposa e os três filhos, foi diagnosticado com a Covid-19.

Entre uma entrega e outra no dia a dia, ele relata não saber como contraiu o vírus. Hipertenso, e praticante de atividade física há mais de 40 anos, Valdir passou quatro dias sentindo os primeiros sintomas, que foram cansaço, falta de ar e fadiga, até se encaminhar a uma unidade hospitalar, em Prazeres, com falta de ar; depois foi transferido para a Policlínica Arnaldo Marques, no Ibura, Zona Sul do Recife, onde recebeu o diagnóstico positivo para a doença e passou um dia internado.

“Foi um momento muito triste. Até então, eu não queria saber que estava doente. Eu achava que era cansaço do trabalho, mas chegou ao ponto em que eu tive que ser atendido, senão ficava aqui mesmo. É um choque para as pessoas que estão sempre ao seu lado verem uma cena dessas, onde a expectativa é a pior possível. É uma doença que você vai, mas não sabe se volta”, contou.

Na ocasião, Valdir tirou o primeiro raio-x e recebeu a notícia de que estava com a circunferência do pulmão comprometida. “O médico disse que sabia que eu era um cara forte". Mesmo desconfiado com a frase, Valdir não verbalizou o que veio em sua mente no momento, e esperou o prognóstico. "Ele disse que meu pulmão estava com uma mancha escura que tomou toda a circunferência dele", descreveu.

No dia seguinte, o paciente foi transferido para o Hospital Provisório Recife 2, localizado no bairro dos Coelhos, no Centro do Recife, onde ficou internado por mais 11 dias, e respirou com a ajuda do oxigênio auxiliar. “De início, eu não aceitei muito bem a doença, foi algo que aconteceu na minha vida que eu não esperava nunca. Eu estava um morto-vivo. Mas peguei uma equipe médica muito boa, dos técnicos aos médicos que me atenderam, pessoas espetaculares. Eu devo minha vida a Deus e a eles, e hoje estou contando história”. 

Da estadia impositiva no hospital, Valdir conta que fez amigos, sendo esse um de seus contratempos mais alegres durante o período doloroso de internação. “Fiz grandes amigos lá dentro e hoje a gente sempre se comunica. Serviu para aumentar meu relacionamento com as pessoas, de um modo amargado, mas aconteceu”, diz aos risos.

“Dentro do hospital, quando eu já estava me sentindo bem melhor, eu já não queria mais o respirador auxiliar. Eu pedia a médica para tirar, mas ela me pedia calma. Eu ia andar dentro do hospital, passava no meio das camas, e o pessoal dizia: ‘tá bom, né, coroa’. Eu respondia dizendo que estava ótimo”, emenda, bem humorado.

Valdir recuperado da Covid-19 (Foto: Paulo Paiva/DP)
Valdir recuperado da Covid-19 (Foto: Paulo Paiva/DP)

Longe de um período a ser romantizado, contudo, ele presenciou três óbitos na unidade, e revelou que seu único pedido diariamente era ter a chance de poder voltar para casa: "eu pensava nisso 24 horas por dia". E completa.

“Quem diria que eu ficaria bom depois do jeito que eu saí de casa? O médico me disse que eu só não fui entubado por um milagre, porque meu organismo se deu rápido com a medicação. E, de repente, meu pulmão que estava preto, começou a clarear”. Segundo Valdir, foi daí para a melhor. Depois de oito dias internado, os médicos o informaram que seu pulmão estava praticamente sem mancha, e, quatro dias mais tarde, o paciente finalmente reencontrou sua esposa, Andreia da Costa, em um momento marcado pela renovação dos votos de matrimônio. 

“Quando eu recebi a notícia da alta, parecia que eu tinha nascido de novo. Quando vi minha esposa do lado de fora do hospital, foi uma alegria imensa. Você estar ao lado da pessoa que está enfrentando as lutas da vida do seu lado, que é a mulher da sua vida, mãe dos seus filhos, aquela mulher que sofreu com você, como o padre diz no casamento: na saúde e na doença, foi uma alegria", constata Valdir. Nos 12 dias em que o esposo passou internado, Andreia só recebeu notícias clínicas à distância, através da equipe médica. E já com a saudade que sentira cessada, agradeceu o fato de o aperto que enfrentou junto ao esposo ter ficado no passado.

“Eu só tenho a agradecer a Deus por ter me proporcionado esse momento. Eu já estava num sofrimento, com uma angústia, saudade. Só de lembrar dá vontade de chorar, mas foram dias que ficaram lá para trás”, comemora.

Na mesma rapidez com a qual foi pego de surpresa pelo destino, Valdir espera retribuir. “Hoje eu vejo a vida de uma forma totalmente diferente. Não adianta ter muito e não ajudar as pessoas. Não vamos consertar o mundo, mas podemos diminuir o sofrimento. A felicidade está dentro de cada um de nós, e eu tive uma segunda chance”.

Chance essa que, para ele, hoje aos 64 anos, servirá também para tentar superar um velho desafio. “Hoje eu me sinto tão bem e antes de morrer eu ainda quero voar de asa delta”. 

"Vi de perto o risco muito grande de perder a vida"
Natural de Maceió, capital de Alagoas, Paulo de Carvalho estava a passeio no Cabo de Santo Agostinho, Região Metropolitana do Recife, quando percebeu os primeiros indicativos da doença se expressando em seu corpo, há exatos 33 dias. Dor de cabeça intensa, dor nas articulações e falta de ar foram os principais sintomas sentidos inicialmente pelo advogado. Ele desconfia ter sido contaminado por um parente próximo, que dias depois teve o diagnóstico confirmado para o novo coronavírus.

Apesar do quadro controlado de asma, o alagoano recebeu resultado positivo em 24 de novembro, e deu início ao tratamento da Covid-19 em casa, que durou cinco dias à base de azitromicina e corticóide, medicamentos receitados pelo médico.

“Eu acreditei que passaria a ser assintomático, porque as dores de cabeça estavam controladas devido à dipirona que eu estava tomando e não tinha mais febre nem tosse”. Passados os cinco dias de tratamento, os sintomas voltaram, e, Paulo, aos 32 anos, viu sua rotina mudar num piscar de olhos.

“Fomos para a emergência, eu fiz uma tomografia e constatou-se que eu estava com 25% a 50% do pulmão comprometido. De imediato, o médico recomendou internamento e a partir dessa data eu comecei a piorar”. Ao longo dos 11 dias em que esteve internado na área isolada para Covid-19 de um hospital privado em Maceió, o advogado chegou a ter 75% do pulmão afetado em decorrência do vírus, e precisou respirar com ajuda do aparelho de oxigênio.

Paulo e Raissa utilizaram de companheirismo para superar a Covid-19 (Foto: Cortesia)
Paulo e Raissa utilizaram de companheirismo para superar a Covid-19 (Foto: Cortesia)

A esposa do paciente, Raissa de Carvalho, 28, também contraiu o vírus, e chegou a ter de 10% a 25% do pulmão afetado. Apesar do quadro de melhora depois de tomar as medicações indicadas, o ciclo do vírus ainda estava ativo no organismo da empresária e, por isso, ela recebeu autorização do hospital para ser acompanhante do esposo no período em que ele ficou internado.

“Quando ele começava a tossir, ele ficava muito nervoso e começava a respirar com mais dificuldade. Teve uma noite que ele já estava com oxigênio e começou a sentir falta de ar, foi também o dia que eu fiquei mais nervosa, porque ele já estava no oxigênio. Eu comecei a achar que o próximo passo seria entubar", recordou. Felizmente, não precisou. Além do afago diário, o advogado ressaltou a importância da presença da companheira ao seu lado no período de internação.

“No primeiro dia que eu fiquei internado, não permitiram que ela me acompanhasse. No outro dia, ela já estava comigo e só saiu quando eu tive alta. A presença dela foi fundamental”, disse Paulo, que também exaltou o apoio de familiares e amigos, mesmo que de forma remota. “O pessoal estava sempre fazendo grupos de oração, embora eu não conseguisse participar falando, porque minha fala ficou completamente comprometida. Eu não conseguia falar e respirar ao mesmo tempo”.

Após os 11 dias internado, Paulo, que também era acompanhado por médicos fora do hospital, assinou um termo de responsabilidade e recebeu alta. O motivo foi a divergência entre o que era repassado pela equipe médica da unidade privada e pelos médicos que acompanhavam individualmente o tratamento dele. Ao todo, cinco pessoas da família de Paulo contraíram o vírus ao mesmo tempo. O padrasto, inclusive, chegou a ficar um período internado, mas se recuperou.

"No pós doença, eu passei a ver as pessoas de uma forma diferente. Hoje, eu me preocupo muito que as pessoas se cuidem, que levem essa doença com a seriedade necessária. É um período de festas em que a vontade de confraternizar é grande, mas não vejo muito espaço para isso. Como eu passei, ainda tem pessoas que estão passando por essa situação de estar internado e, pior ainda, de ter que procurar um local para se tratar e não ter vaga”, recomenda. “Que as pessoas se respeitem, se cuidem e cuidem das outras". O estado de Alagoas, por exemplo, tem mais de 100 mil casos confirmados da Covid-19, e mais de 2,4 mil óbitos causados pela doença.

“Eu vi de perto o risco muito grande de perder a vida numa idade tão nova. Quando eu pude respirar plenamente foi um alívio muito grande. E o que eu continuo sentindo é de sempre ter a esperança de que vai melhorar, de que o dia seguinte vai ser melhor do que foi o dia anterior", concluiu Paulo, que continua tomando medicamentos em casa, para minimizar as chances de sequelas da doença. 

Uma doença coletiva e solitária ao mesmo tempo
No limiar entre a ligeira verossimilhança entre as histórias de Valdir e Paulo, a nutricionista Cristiane Barros, 22, sentiu o peso da distância física que a separou por mais de 14 dias de sua família. Ela é natural de Barreiros, na Zona da Mata Sul do estado, mas reside em Recife com uma irmã.

O primeiro sintoma da doença foi sentido em 01 de junho, quando chegou ao trabalho e teve a temperatura detectada acima do normal. "Fui para a emergência, e como eu não tinha idade de ser paciente de risco, eles não fizeram exame em mim. Passaram a medicação e eu fui encaminhada para casa", relembra.

A nutricionista Cristiane Barros, 22, sentiu na pele a solidão provocada pelo isolamento (Foto: Cortesia)
A nutricionista Cristiane Barros, 22, sentiu na pele a solidão provocada pelo isolamento (Foto: Cortesia)

Até o período de internação, Cristiane passou dois dias de repouso em casa. Dessa vez, ela constatou outros sintomas, como tosse, diarréia, dificuldade de respirar e enjoo, e, diante do quadro, voltou ao hospital. “Eu peguei a doença de uma forma muito grave em relação à minha idade, peguei da forma mais severa que tinha e fiquei muito mal. A internação foi a pior parte”, conta. No dia 3 de junho, a paciente foi internada. "Não levei roupa, não levei nada. Disseram que eu teria que ficar com a roupa que eu estava mesmo”. No dia seguinte, um familiar levou algumas roupas para Cristiane, que permaneceu internada por cinco dias, em um hospital privado do Recife, cujo nome preferiu não revelar.

A nutricionista relata que ainda não tinha recebido o resultado do exame da Covid-19 quando foi internada, inclusive, relembra que só teve o teste em mãos após deixar a unidade hospitalar. Além disso, devido ao alto número de casos no período, Cris, como é conhecida pelos amigos, não recebeu a assistência devida pelo hospital, um complicador a mais no tratamento da doença.

“Passei cinco dias no hospital, mas pareceram meses. A parte do isolamento realmente é muito triste. É uma doença muito solitária, não podia ter ninguém da minha família comigo no hospital. Minha internação foi só eu e os médicos que entravam na sala. Foram dias muito difíceis. No último dia, eu já não estava mais aguentando ficar lá”, explicou. Entre os cuidados básicos a ela negados, Cristiane sequer teve a chance de distinguir o que era dia e o que era noite.

“O quarto no qual eu estava era muito escuro, não tinha janela. Como a doença não permite contato com ninguém, só tinha eu no quarto. Eu não via se era dia, se era noite, era sempre a mesma coisa. Eu só sabia o horário, porque a enfermeira chegava de manhã cedo, geralmente umas 5h. Quando ela colocava a medicação, eu sabia que tinha começado o dia. Mas os dias eram muito longos, escuros e eu não via a hora passar".

A saída foi recorrer à tecnologia para se sentir minimamente acolhida, dentro de um contexto em que a troca de afetividade serve como catalisadora das emoções, e faz toda a diferença na recuperação do paciente, mesmo à distância.

“Minha companhia era a televisão, meu celular. Minha família ligava por vídeo, mas eu não conseguia falar direito porque estava com muita tosse. O que me dava esperança eram realmente as pessoas falando que estavam orando por mim, que eu iria sair dessa situação. Meus amigos também ligavam por vídeo, pelo menos para ficarem me vendo, mesmo eu não podendo falar. As pessoas que pegaram a doença se sentem sozinhas mesmo”, constata. Depois de receber alta médica, a nutricionista conta que ainda passou cerca de 14 dias sentindo dores no estômago e enjoo.

Ao sentir na pele os efeitos de um vírus que, além do cumprimento dos protocolos médicos, pode ser combatido coletivamente, Cris acentuou a importância de hoje agradecer pelo simples ato de respirar. "Eu vejo hoje que a gente tem perdido tempo demais com coisas que não merecem a importância que a gente dá. A gente vive um momento muito triste, ao mesmo tempo, é para enxergarmos que realmente somos mais fortes quando todo mundo está no mesmo propósito. É uma doença muito coletiva, mas também muito solitária”, enfatiza. 

“Só valorizamos aquilo quando sentimos a necessidade e não conseguimos ter. Puxar ar para respirar e sentir a dificuldade é muito difícil. Mas a palavra é gratidão por poder respirar sem dificuldades novamente”, finalizou, na espera contínua por dias melhores. 


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