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Relato

'Vi a minha vida por um fio', relata bombeiro que combateu incêndio dentro do navio no Porto do Recife em 1985

Publicado em: 05/08/2020 19:57 | Atualizado em: 05/08/2020 21:07

 (Foto: Tenente Marcos Antônio/Reprodução.
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Foto: Tenente Marcos Antônio/Reprodução.
O episódio célebre do reboque do navio em chamas pelo prático Nelcy Campos, em 1985, apesar de ter se tornado a marca do incidente no Porto do Recife, não foi o único ato heroico que evitou a destruição de pelo menos cinco bairros e o Sítio Histórico do Recife. O Corpo de Bombeiros combateu o incêndio por quatro horas. Os militares se posicionaram em cima de outros tanques de gás para apagar as chamas, mesmo diante da iminência de novas explosões. Ao final do trabalho, as guarnições estavam sem coturnos, que tiveram os solados derretidos pelo calor intenso. Durante o resfriamento do navio, foi necessário puxar água do mar, já que havia acabado toda bomba-tanque consumindo mais de 20 mil litros d'água. Na época com 24 anos de idade e ainda aspirante a oficial, o coronel Leonardo Paiva teve o que chamam dentro na corporação de "batismo de fogo", durante esse incêndio. Recém saído da academia militar, ele relembra em detalhes os momentos que marcaram sua carreira.

Entenda

Explosão como a do Líbano foi evitada no Recife em 1985



Leia o relato:

"A situação aqui no Porto foi um pouco diferente. A possibilidade de ter tido um desastre absolutamente superior àquele que ocorreu no Oriente é muito viável. No Líbano, todo o combustível que tinha capacidade explosiva estava reunida em um só local. Lá no Porto do Recife era diferente. Além de existir uma quantidade imensa de gás no petroleiro, todo o terminal do Brum ainda estava com combustível. Ou seja, poderiam ocorrer incêndios em cadeia. Se, por um acaso, um único tanque tivesse recebido parte da explosão, teríamos um desastre incalculável.

Foi feito um isolamento em um raio de 10 quilômetros. Eu lembro que até o governador teve que desocupar o Palácio do Campo das Princesas porque se houvesse uma explosão, seria um raio de pelo menos 16 quilômetros destruído ao final de todas as explosões que poderiam ocorrer.

E conseguimos resfriar o fogo em cima do próprio navio. Foram quatro horas de combate resfriando aquele fogo e com isso diminuiu a quantidade de gás no petroleiro. Com isso, a possibilidade de explosão reduziu porque a gente não permitiu que a temperatura aumentasse. Com isso, a gente cortou as cordas do navio e o prático pode rebocá-lo. O risco que corríamos era exatamente durante o combate ao incêndio durante as quatro horas em cima do navio. Logo depois, quando diminuiu a quantidade de gases porque o próprio fogo iria consumindo. Era como se fosse um grande botijão de gás pegando fogo que foi levado para alto mar e ficar afastado.

Nunca ninguém soube direito o que ocorreu colado ao navio porque éramos poucos nesse primeiro combate. Chegamos ao local 1h30 da madrugada e ficamos em cima do navio até 4h da manhã e eram apenas três guarnições. Duas de incêndio com seis homens casa, uma de salvamento que fez o resgate de um tripulante que estava ainda dentro do navio. Conseguimos salvar com a guarnição de busca e salvamento e os bombeiros subiram pelas próprias cordas que estavam segurando o navio. Pegaram o rapaz desacordado e trouxeram por dentro das chamas protegidos por uma cortina de água. Lembro que na época não tínhamos roupa de aproximação.

Foram situações impressionantes. Essa parte nunca ninguém soube. As pessoas ficaram sabendo a partir do momento em que já não existia mais o risco de explosão porque o gás já tinha sido quase todo consumido pelas chamas já controladas e aí foi rebocado e levado para uma distância segura. O grande risco foi durante o resfriamento.

Outro grande problema que teríamos seria a falta de água. Nós só tínhamos um auto bomba de 12 mil litros de água e outros três pequenos com 3 mil litros cada. Nós conseguimos uma bomba de sucção e colocamos na água do mar e conseguimos continuar o combate. Ainda foram pelo menos três horas utilizando água do mar.

O prático foi realmente um herói porque ele não tinha nenhuma obrigação de fazer o reboque. Mas os riscos maiores foram durante o combate ao incêndio e nós éramos obrigados a fazer isso por uma questão profissional e um risco que quando entramos para o Corpo de Bombeiros sabemos que vamos nos submeter. O prático, sem nenhum tipo de obrigação, fez e o considero um herói pela abnegação de ter se colocado em risco, inclusive ajudou a cortar as cordas no navio a menos de dois metros do navio e depois fez a retirada.

Na época, eu era aspirante a oficial. Tinha 24 anos de idade, recém saído da academia militar. Foi meu "batismo de fogo" em uma situação absolutamente diferenciada para mim. Aquilo marcou a minha vida durante meus 28 anos no Corpo de Bombeiros. Inclusive, me conduziu a ter um cuidado maior em estudar mais a parte de hidráulica, me aperfeiçoar em atendimento pré-hospitalar. Porque eu vi a minha vida por um fio. Tínhamos mais dois tenentes conosco, além da Polícia Militar que nos deu apoio, já que tinham pessoas nervosas, querendo ajudar e tinha essa guarnição ajudando.

Esse momento está sendo muito especial porque é como uma catarse na cabeça da gente. A gente passa por essas situações e depois quando tem que relembrar parece que aquilo vem à tona. Nós perdemos nossos coturnos. Quando terminou o incêndio, nós não tínhamos mais sapatos. Estávamos pisando no chão porque toda a borracha foi derretida com o calor da chama do navio. Isso foi uma coisa que marcou forte".
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