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Covid-19

"Recife está na direção de resolver epidemia", diz professor da USP

Publicado em: 17/07/2020 18:55 | Atualizado em: 17/07/2020 21:43

 (Foto: Leonor Calasans/USP/Divulgação)
Foto: Leonor Calasans/USP/Divulgação
Desde quando iniciou o estudo de monitoramento dos números relativos à Covid-19 no país, o professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), Renato Vicente, estava acostumado a utilizar como exemplo de desaceleração contínua da curva de contágio do coronavírus o cenário da Nova Zelândia. O país da Oceania tomou uma série de medidas como o isolamento social, a testagem em massa e o fechamento das fronteiras e chegou a zerar o registro de novos casos. Há cerca de uma semana, porém, o pesquisador decidiu passar a usar um outro exemplo como referência de desaceleração. Desta vez, escolheu um case que demonstrasse uma realidade nacional. O local escolhido foi o Recife, que já havia sido apontado como a primeira capital brasileira a chegar ao nível de desaceleração e que se mantém nesse estágio há 60 dias.

"O Recife é um exemplo. Eu usava a Nova Zelândia, mas decidi pegar um exemplo nacional para mostrar que é possível fazer isso no Brasil. E o Recife é um ótimo exemplo do que está acontecendo. A curva de velocidade está realmente decaindo já faz vários dias, desde 15 de maio. Bastante tempo já. O que indica que o Recife está na direção de resolver a epidemia", comenta o professor, que, durante a pandemia, além do trabalho na USP, faz parte da coalizão de pesquisadores e empresas Covid Radar. O coletivo tem contribuído com a implantação de modelos matemáticos para monitorar o andamento da pandemia no Brasil. Um trabalho que promove o acompanhamento diário dos números de todos os estados e municípios brasileiros.

Na última semana de junho, o estudo foi divulgado pela Folha de São Paulo e colocava o Recife como a única capital do país a apresentar um quadro de desaceleração no número de novos casos e óbitos. De lá para cá, outras cidades alcançaram esse estágio, mas, ainda assim, a escolha pelo Recife como referência se manteve. "Tem lugares que estão conseguindo resolver agora. Você pega Manaus, por exemplo. Também está decrescente, só que chegou a um ponto de colapsar o sistema completamente. Recife não chegou a esse ponto. É uma boa mensagem", ressalta Renato Vicente.

A notícia que colocou o Recife como única capital a atingir o estágio de desaceleração veio no momento em que algumas atividades consideradas não essenciais começavam a reabrir parcialmente, como o comércio, salões de beleza, parques e shoppings. Mesmo após essas medidas, a linha de contágio continuou em desaceleração. Uma situação diferente de outros locais que, após decidirem pela reabertura, voltaram a apresentar uma aceleração no número de novos casos. "Se você for olhar Israel, eles abriram e voltou a acelerar rapidamente. Embora já estivessem em aceleração negativa, como está Recife. Foi uma reabertura sem o devido cuidado. O que precisa ser feito? Você pode seguir o exemplo do Japão. Não fizeram lockdown, está tudo funcionando, só que você toma medidas específicas: todo mundo usa máscara, todo mundo faz higiene e evita aglomerações também. Se você toma algumas medidas você consegue reabrir com segurança", observa.

Um dado importante para confirmar o bom momento que a capital pernambucana atravessa é que a desaceleração já chegou aos municípios da Região Metropolitana do Recife (RMR). Este "cinturão" de cidades vizinhas, de grande densidade populacional e que dialogam constantemente com a capital, tem uma forte influência para a possibilidade, ainda palpável, de uma segunda onda de contágio. Se essas cidades estivessem ainda em fase de aceleração, o risco de crescimento no número de novos casos no Recife seria bem maior. Risco que localidades como São Paulo e Brasília ainda atravessam. "Se você olhar, o Brasil ainda está em aceleração. A curva de casos está reduzindo, mas ainda está em aceleração. E o Recife já passou disso. O Recife está em desaceleração clara. Você
olha em volta e todos os municípios estão ou estáveis ou em desaceleração. O que é muito bom, porque você reduz o risco de ter recontaminação", esclarece o professor da USP.

Outro aspecto que deve ser encarado como um alerta permanente, mesmo nas cidades que desfrutam de uma conjuntura favorável como a do Recife, é de garantir que essas medidas como o uso de máscaras e a higienização das mãos chegue a toda a população, inclusive às comunidades de renda mais baixa. Afinal, os resultados verificados após a reabertura das atividades depende diretamente da atitude que a população irá tomar para enfrentar a nova e possível realidade. "Eu acho que a gente tem que entender que, enquanto não tiver uma vacina, a gente vai ter que tomar algumas medidas. Nós não temos que baixar a guarda agora. Tem um risco muito grande ainda desse negócio expandir, porque você tem uma quantidade de pessoas susceptíveis muito grande ainda. Mas não precisa ser tão extremo, como quando você tem um pool de infectados muito grande. Você pode relaxar um pouco, mas não relaxar totalmente", avalia, referindo-se ao momento da capital
pernambucana.

O monitoramento da USP indica que não é absurdo achar que o Recife chegou a um ponto onde é possível o cidadão sair de casa. Só não dá para achar que a vida voltou ao que era na fase pré-pandemia. O "novo normal" requer cuidados permanentes. Mas, ao menos a matemática está do lado da cidade. É a prova de que as medidas tomadas surtiram um efeito positivo. "Eu acho que o Recife foi um exemplo para o Brasil nessa crise. Um exemplo a ser seguido. Ainda não é o momento de abrir a guarda completamente, porque ainda há riscos. No mais, tudo vai andar bem. Tudo indica, a Matemática indica, que está indo na direção certa", pontua Renato Vicente.
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