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Notícia de Política

CPI DA COVID

'O caminho é o Elcio mesmo', diz Dominghetti a representante da Davati

Publicado em: 14/07/2021 22:58

 (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Troca de mensagens no celular do cabo da Polícia Militar de Minas Gerais (PM-MG) Luiz Paulo Dominghetti, apontado pela empresa Davati Medical Supply como vendedor autônomo de vacinas, mostram uma intensa movimentação de um grupo para vender 400 milhões de doses de vacinas da AstraZeneca ao Ministério da Saúde. Em um dos diálogos entre ele e Cristiano Carvalho, representante da Davati no Brasil, eles comentam a exoneração do ministro da Saúde general Eduardo Pazuello, e Dominghetti diz que a princípio, nada mudou. “O caminho é lá o Elcio mesmo, com H ou sem H”.

Antes, Cristiano Carvalho disse em áudio enviado a Dominghetti no dia 14 de março: “Como você viu, o Pazuello caiu, né? E aí a gente precisa ver agora como é que faz. Porque, quanto ao reverendo, o reverendo não tem ascendência nenhuma. Quem tem é o Helcio com h, o coronel. Tem que centralizar nele. O reverendo é só no sapatinho. Me posiciona aí como vai ser agora, se continua falando com o Elcio, o secretário lá, porque o Herman (CEO da Davati, Herman Cardenas) tá me perguntando”.

Duas negociações
As mensagens foram obtidas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 por meio de uma perícia. A reportagem teve acesso às trocas. Pazuello foi exonerado no dia 23 de março, e Elcio Franco no dia 26, mas no dia 14 já falava-se sobre a possível troca do ministro. O “reverendo” citado é o reverendo Amilton Gomes de Paula, já convocado a prestar depoimento na CPI. Ele é o presidente da Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), e atuou intermediando a negociação da Davati com o governo federal.

Após a mensagem de Cristiano, Dominghetti responde: “A princípio, nada mudou. O caminho é lá o Elcio mesmo, com H ou sem H, não sei, é o grupo mais forte, realmente. Mas, eu tô vendo como é que vai ficar aqui, porque algumas outras lideranças políticas que estão conversando comigo agora foi o reverendo que trouxe. Então, tá tendo uma movimentação muito grande nos bastidores nesse sentido agora. A gente está tentando descobrir quem vai ser o dono da pasta. Tá? Se for político, melhor ainda para nós, viu? Agora, se for um ministro militar, o Elcio, com H ou sem H, não sei, continua lá dentro do ministério. Isso tá se desenhando. Agora, se for político, o reverendo tem mais força politicamente.”

Helcio com H, segundo Cristiano, é o tenente-coronel da reserva Helcio Bruno de Almeida, presidente do Instituto Força Brasil. No site, dizem ser uma organização sem fins lucrativos, “com sede em Brasília e capilaridade nacional, organizado pela união de patriotas, sob a liderança do tenente-coronel da Reserva Hélcio Bruno de Almeida, ex-operador de Forças Especiais do Exército, que se propõe a fazer frente à hegemonia da esquerda como participante do poder, bem assim ao crime organizado nas Instituições”.

A CPI suspeita que dois grupos disputavam, no Ministério da Saúde, as negociações de vacina contra Covid-19. Um era formado por militares, e outro por pessoas indicadas por partidos do Centrão, especificamente o PP e o DEM. Ao Correio, questionado sobre sua fala, na qual diz que é preciso “centralizar” no "Helcio com H", Cristiano Carvalho afirmou que acreditou que o coronel Elcio Franco permaneceria na nova gestão, mas foi exonerado em seguida. “Assim, não adiantou ficar em nada. Se encerrou”, disse.

Perguntado, ainda, sobre o que Dominghetti quis dizer ao falar em “grupo mais forte” e se havia mais de um grupo no ministério, Cristiano Carvalho disse acreditar que dois integrantes da pasta negociavam vacinas. Uma proposta foi apresentada ao ex-diretor de Logística Roberto Dias por Herman Cardenas, CEO da Davati, e outra foi apresentada ao próprio Elcio Franco. “Ambas sem retorno”, afirmou. Dias foi acusado por Dominghetti à CPI de ter pedido propina no valor de US por dose, quando o cabo tentou negociar a venda de 400 milhões de imunizantes. Dias nega as acusações.

Insistência
O nome de Elcio Franco tem aparecido com mais ênfase na CPI, e os senadores falam em ouvi-lo novamente. À comissão, Dias afirmou que todas as negociações envolvendo vacina contra Covid-19 estavam centralizadas na secretaria-executiva, chefiada por Elcio.

No dia 16, Dominghetti pergunta a Cristiano se ele falou com a turma do Elcio. “Não me respondem mais”, disse. Dominghetti diz depois: “Tem hora que dá vontade de vazar na imprensa”. Ele começam, então, a falar de jornalistas. Em seguida, Cristiano diz em um áudio a Dominghetti: “Esse daí é o único caminho que nos sobrou. Pessoal do coronel Elcio nem me responde mais. Acho que eles perderam a mão”. Dominghetti responde: “Perderam a força, eu acho”. Os dois se mostram frustrados com a não continuidade das negociações.

Ao Correio, Cristiano Carvalho disse acreditar que as mudanças do ministério, com a exoneração do ministro Eduardo Pazuello e o coronel Elcio Franco poucos dias depois da reunião da qual participou, em Brasília, inviabilizaram a continuidade das tratativas.

Mesmo descrentes em relação à negociação, Dominghetti não desiste. Ainda no dia 16 à noite, ele escreve a Cristiano: “Meu amigo tem um contato que me afiançou que libera e garante a venda de 100 milhões de doses amanhã no ministério. Ele é mensageiro do MS (Ministério da Saúde)”.

No dia seguinte, Dominghetti diz: "Este que quer nos falar, foi ele quem vendeu ao ministério 30 milhões da Sputnik e vendeu aos Estados também. Consegue o contrato no MS. De 100 milhões. Porém é um outro grupo. E não tem nada a ver com reverendo. Aí temos que ver como vai ficar essa situação”. Aqui, Dominghetti volta a falar de uma diferença de grupos. Mais tarde, ele diz a Cristiano que a “AstraZeneca está difícil de emplacar”.

Propina
À reportagem, Cristiano Carvalho, que irá depor na próxima quinta-feira à CPI, disse que em conversas por WhatsApp ou verbais com Dias ou Blanco, nunca foi solicitado nenhum tipo de favorecimento a Dias ou a qualquer servidor. O representante da Davati afirmou que à CPI, “não existe muito mais a acrescentar do ponto de vista da denúncia” do Dominghetti e da negociação junto ao ministério.

“A versão do pedido no jantar mencionado na denúncia do senhor Dominghetti, cabe aos participantes esclarecerem, pois eu nunca estive presencialmente com o senhor Roberto Dias ou coronel Blanco, somente o autor das denúncias, senhor Dominguete. É importante esclarecer e mencionar isso, pois existe uma expectativa de novos fatos que não tenho como produzir, provar ou comprovar”, afirmou ao Correio.

Carvalho disse, entretanto, que lhe foi mencionado um pedido de “comissionamento das pessoas que apresentaram o senhor Roberto Dias ao senhor Dominghetti”. “Pelo que me recordo, foi a mim mencionado pelo Rafael Alves na época do jantar, que era um pedido de comissionamento das pessoas que apresentaram o Sr. Roberto Dias ao Sr. Dominghetti, mas como não existia comissão a ser negociada suplementar, já mostrei a inviabilidade de qualquer coisa nesse sentido desde então”, disse. Rafael Alves negou à reportagem ter dito algo do gênero a Carvalho.

Cristiano Carvalho disse, ainda, que quem enviava as propostas eram o CEO da Davati, Herman Cardenas, junto com o reverendo e Dominghetti. “Eu atuava como um suporte local, só estive em Brasília uma única vez”, disse. Ele relatou que veio à capital federal em 12 de março, a pedido do reverendo e de Dominghetti.

As negociações, segundo ele, tiveram início em 22 de fevereiro. No dia 23, um e-mail ao qual a reportagem teve acesso, mostra uma mensagem enviada pelo gabinete da secretaria-executiva ao reverendo Amilton, agradecendo a disponibilidade apresentada pela Senah na apresentação da proposta comercial para fornecimento de 400 milhões de doses de vacina da Astrazeneca.

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