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Notícia de Política

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Anvisa informa à CPI que venda de 'kit covid' cresceu 166% em 2020

Publicado em: 24/06/2021 17:03 | Atualizado em: 24/06/2021 17:22

 (Foto: Diego Vara/Agência Brasil)
Foto: Diego Vara/Agência Brasil
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) enviou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 um documento mostrando aumento de venda de 166,1% de medicamentos do chamado ‘kit covid’ em 2020, em comparação com 2019. Os medicamentos em questão não têm eficácia comprovada para tratar pacientes infectados, mas foram amplamente divulgados pelo governo federal, inclusive com intervenção direta do presidente Jair Bolsonaro na busca ativa pelos insumos no exterior.

O requerimento de informações foi feito pelo senador Humberto Costa (PT-PE), e respondido no último dia 15. Segundo o documento, que lista cinco medicamentos e que foi obtido pelo Correio, o remédio que mais cresceu com a comercialização foi a ivermectina. Enquanto em 2019 foram vendidos 7,85 milhões de embalagens do medicamento antiviral, em 2020, esse número saltou para 56,83 milhões, o que representa um aumento de 623,7%.

O antibiótico azitromicina aumentou em 105,52%, passando de 28,15 milhões de embalagens comercializadas, em 2019, para 57,86 milhões, no ano passado. No caso da cloroquina, o aumento foi de 47,8%. O documento lista outros dois medicamentos: nitazoxanida e doxiciclina. No caso do primeiro, o aumento foi de 8,26% das vendas; e o segundo foi o único que teve redução, de 26,3%.

Apesar de ter sido amplamente difundida durante a pandemia, estudos mostram a ineficácia da cloroquina/hidroxicloroquina contra covid-19, como ressaltado pela comunidade científica. O próprio ministro Marcelo Queiroga disse à CPI que o medicamento não possui eficácia comprovada contra a doença. No caso da ivermectina, ela também foi amplamente difundida como sendo indicada no chamado “tratamento precoce” de pacientes com covid-19. Entretanto, não existem medicamentos contra a doença que possam auxiliar precocemente os pacientes.

Cloroquina, por exemplo, é usada contra malária. Ivermectina é um antiparasitário, usado para eliminação de parasitas (como piolho, por exemplo). A nitazoxanida é usada contra parasitas intestinais; a doxiciclina e azitromicina são antibiótico, portanto, não atacam o vírus, sendo usados contra bactérias. Nesta semana, o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), afirmou que a CPI inaugurou uma “nova frente” para apurar a relação entre agentes públicos e privados em negociações no âmbito de aquisições de vacina ou medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19, como hidroxicloroquina.

“Nós estamos abrindo uma nova vertente agora, que é o fato de que ocorreu um cumpliciamento entre agentes privados e agentes públicos em detrimento do erário público, e tem outros elementos, outros crimes a serem investigados, a partir de agora, pela CPI”, disse. Essa apuração envolve a negociação do governo federal para aquisição da vacina Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, representado no Brasil pela Precisa Medicamentos, que é alvo da CPI, mas também das empresas produtoras de cloroquina e ivermectina.

Cloroquina e hidroxicloroquina

Apesar de ter um incremento proporcionalmente menor do que os dois outros medicamentos do kit covid que foram citados anteriormente, a relevância do aumento nas vendas de hidroxicloroquina ganha corpo ao levar em consideração a defesa direta do presidente Bolsonaro ao medicamento, inclusive posando ao lado de caixas de hidroxicloroquina por diversas vezes durante pronunciamentos oficiais.

Houve, ainda, por parte do presidente, envolvimento direto para garantir o abastecimento de matéria-prima vinda da Índia a empresas brasileiras que tiveram dificuldade em importar os insumos. Em ligação ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em abril de 2020, Bolsonaro afirmou ter "resultados animadores no uso da hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes com covid-19" e, por isso, solicitava, em nome do governo brasileiro, a liberação de importação "de sulfato de hidroxicloroquina feitas por empresas brasileiras". Ele cita, nominalmente, duas produtoras: EMS e Apsen. Em razão das reivindicações feitas pelo presidente, ambas estão na mira da CPI, já que os senadores querem avaliar se essas empresas lucraram, ilicitamente, com as liberações.

Ao Correio, a Apsen admitiu que houve um crescimento de receita líquida em 2020, se comparado ao ano anterior, de 18,1%, "totalizando R$ 816 milhões". No entanto, disse que, deste montante, "apenas 3,6% está relacionado à receita líquida de Reuquinol (sulfato de hidroxicloroquina)". Isso significa, no entanto, quase R milhões em razão da medicação. A Apsen também informou que a venda do medicamento, em 2020, correspondeu a 10,1% da receita líquida da empresa. No ano anterior, esse percentual foi de 8,2%. "O crescimento da receita em 2020 se deveu em grande parte a lançamentos dos últimos cinco anos", justifica.

A empresa sustenta que "todas as interações da companhia em âmbito governamental se dão por meios legais e dentro das normas estabelecidas pelo setor" e que acionou o Ministério das Relações Exteriores para que a embaixada entrasse com teor diplomático a fim de garantir a liberação do insumo necessário para produzir o medicamento e garantir abastecimento no Brasil.

Movimento semelhante diz ter feito a EMS que, em nota enviada à reportagem, afirma ter reivindicado a liberação diretamente ao governo indiano e, um dia depois, acionado o governo brasileiro. “Os pedidos de apoio da EMS para liberar a carga de insumos seguiram todos os preceitos legais”. “Cabe destacar que, à época, havia uma intensa disputa internacional por insumos médicos o que levou governantes de todo mundo a se envolverem para apoiar os interesses das indústrias de seus países com as informações que possuíam até aquele momento”, justifica.

Diferente da Apsen, a EMS produz a hidroxicloroquina desde setembro de 2019 e teve o primeiro registro de venda dois meses depois, faturando pouco mais de R$ 1 milhão em dezembro de 2020. “ No ano passado, as vendas de hidroxicloroquina representaram 0,2% do faturamento total da empresa e 11,6% do mercado total desse medicamento”.

Sem informar o faturamento com o boom da cloroquina, a EMS apenas reforçou “que os dados de vendas espelham um cenário de mercado fortemente marcado pela pandemia de covid-19, a partir de março de 2020” e que houve “uma forte procura espontânea pela hidroxicloroquina, o que impactou todo o setor farmacêutico no Brasil”.

“A empresa apoiou dois dos principais estudos clínicos no país para verificar a eficácia e segurança do uso do medicamento contra a covid, realizados pela Coalizão Covid-19 Brasil, que apontaram a ineficácia do produto”, esclarece.
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