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A Lealdade

Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues
Advogado e Professor Universitário

Publicado em: 24/05/2024 03:00 Atualizado em: 24/05/2024 08:17

Nesse último mês pude pensar sobre um conceito que é essencial para a minha vida, a lealdade, ainda mais quando uma pessoa muito importante me instou a escrever sobre o assunto. Pessoalmente, nesse mês, estive em situações que vieram me trazer provas sobre isso, pois tive que escolher ser leal, ainda que pensando diferente sobre pensamentos expostos.

Um grande amigo já chegou a me dizer que lealdade é mais importante que a fidelidade, bem, ambos os conceitos são importantes, mas cabe, de fato, diferencia los.

A palavra lealdade tem origem no termo legalis, que em latim remete para o conceito de lei. Inicialmente, designava alguém em quem era possível confiar e que cumpria as suas obrigações legais, ou seja, alguém que não falha com os seus compromissos, demonstrando responsabilidade, honestidade, retidão, honra e decência.

A lealdade é fundamental para uma verdadeira amizade, os amigos devem poder confiar plenamente um no outro.

Quando se firma um contrato, é preciso que ambas as partes sejam leais.

Contei-lhe todos os meus segredos, pois tenho certeza de sua lealdade.

A lealdade é um valor fundamental para o esporte, é ela que garante o respeito às regras e uma disputa justa.

A lealdade, em evolução conceitual, atende a um propósito. A Lealdade é uma escolha, é espontânea e é oferecida espontaneamente. A pessoa que é leal é leal a alguém e vai cuidar daqueles que estão relacionados a este seu valor. Vai proteger e defender seus aliados, mesmo que não concorde com eventuais atitudes. Vai entender mesmo sem concordar. Vai aceitar e acolher as diferenças, porque a realização do propósito é maior. A lealdade tem muito a ver com alteridade, tolerância e generosidade e vale para todos os tipos de relacionamentos.

A Fidelidade atende ao código da ética de uma missão que atende uma necessidade externa. A lealdade atende a consciência pessoal que se tem da realização de um propósito que atende um anseio interno e pessoal.

Podemos entender bem o conceito quando levamos para nossas relações amorosas.

A lealdade está amparada em valores, não apenas em sentimentos. É fácil cuidar de alguém quando se está apaixonado. Mais fácil que respirar, na verdade. Mas o que se faz quando os sentimentos desaparecem – somem com eles todas as responsabilidades em relação ao outro? Sim, ao menos que as pessoas sejam movidas por algo mais que a mera atração. Se não partilham nada além do desejo, nada resta depois do romance. Mas, se houver cumplicidades maiores, então se manifesta a lealdade. Ela dura mais do que os sentimentos eróticos porque se estende além deles.

O romantismo, embora a gente não o veja sempre assim, é uma forma exacerbada de egoísmo. Meu amor, minha paixão, minha vida. Minha família, inclusive. Tem a ver com desejo, posse e exclusividade, que tornam a infidelidade insuportável, a perda intolerável. As pessoas matam por isso todos os dias. Porque amam. É um sentimento que não exige elevação moral e pode colocar à mostra o pior de nós mesmos, embora pareça apenas lindo.

Minha impressão é que o mundo anda precisado de lealdade. Estamos obcecados pela ideia da fidelidade porque a infidelidade nos machuca. Sofremos exacerbadamente porque o mundo, o nosso mundo, não contém nada além de nós mesmos, com nossos sentimentos e necessidades. Quando algo falha em nossa intimidade, desabamos.

Lembro bem dos dizeres poéticos de Tico Santa Cruz:

“Fidelidade é Jurada ao outro. Lealdade é oferecida. Fidelidade é obrigação. Lealdade é escolha. Fidelidade é função social. Lealdade é princípio. Fidelidade é cobrança. Lealdade é entrega. Fidelidade é fofoca. Lealdade evita intriga. Fidelidade é paixão. Lealdade é amor. Sou fiel apenas a mim mesmo, sendo leal aos outros não preciso cobrar nada de ninguém.”

Apesar de meus erros, tenho firme de ser leal em meus relacionamentos.

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