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Zé Limeira, o poeta que todos conhecem, mas não há quem o tenha visto

Alexandre Acioli
Jornalista, Produtor Cultural e Pesquisador de Folkcomunicação

Publicado em: 23/02/2024 03:00 Atualizado em: 22/02/2024 23:38

“Eu me chamo Zé Limeira/ Da Paraíba falada/ Cantando nas Escrituras/ Saudando o pai da coalhada./ A lua branca alumia/ Jesus, José e Maria,/ Três anjos da farinhada.”

A septilha (poesia ou estrofe de sete versos) é, oficialmente, creditada ao paraibano de Teixeira, “Zé Limeira” (1886-1954), um cantador, cordelista e repentista que ninguém jamais viu e que ninguém sabe ao certo os dias e meses em que nasceu e morreu.

Nas andanças pelo Sertão nordestino muito se ouve falar de Zé Limeira. O seu nome está na boca e na lembrança dos mais antigos. Os versos atribuídos a ele foram popularizados e estão espalhados na internet. Mas quem é mesmo esse tal de Zé Limeira? Eu não sei e não há quem saiba com exatidão quem é o distinto.

É diferente do poeta e repentista Joaquim dos Santos Rodrigues, mais conhecido como “Seu Lunga” (1927-2014), que residiu em Juazeiro do Norte, morreu em Barbalha (CE) e era conhecido pela sua suposta falta de paciência às perguntas simplórias que lhe faziam.

Tudo o que se sabe sobre o cordelista foi escrito pelo jornalista Orlando Tejo (1935-2018), no livro “Zé Limeira - Poeta do Absurdo” (1973), com edições esgotadas. Mesmo assim, Zé Limeira é conhecido (“de ouvir dizer”) pela suposta produção de uma infinidade de versos sem sentido, mas perfeitos na métrica poética.

Este é dele: “Morri no ano passado. Mas esse ano eu não morro”. Com um pequeníssimo ajuste (“Ano passado eu morri. Mas esse ano eu não morro”), foi parar na canção “Sujeito de Sorte”, no álbum Alucinação (1976, PolyGram), de Belchior, que reúne músicas como “Velha Roupa Colorida” e “Apenas um Rapaz Latino-Americano”.

Mas, se Zé Limeira esteve mesmo encarnado e foi vivente nessas bandas do Nordeste brasileiro é difícil saber ou comprovar. O que se conhece, de fato, sobre o cordelista, são os causos creditados a ele por Orlando Tejo, um profissional chegado ao humor e que garantia ter conhecido o poeta, pessoalmente, aos 15 anos (1950), na cidade de Campina Grande (PB).

Então, se não há uma alma viva por esses sertões que garanta ter visto ou conhecido Zé Limeira, além do próprio jornalista, pode ser que ele não passe apenas de uma lenda, um personagem fictício das estórias contadas por Orlando Tejo.

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