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TECNOLOGIA

Inteligência artificial: a era do "deus" máquina

Publicado em: 06/08/2023 10:02

Da confecção de teses à "leitura de pensamentos", ferramentas de inteligência artificial parecem capazes de resolver qualquer problema. Especialistas não acreditam que os sistemas vão superar o homem ((crédito: Universidade Estadual do Arizona))
Da confecção de teses à "leitura de pensamentos", ferramentas de inteligência artificial parecem capazes de resolver qualquer problema. Especialistas não acreditam que os sistemas vão superar o homem ((crédito: Universidade Estadual do Arizona))
No teatro grego antigo, quando não havia solução para um impasse, um ator interpretando uma divindade descia ao palco pendurado num guindaste, resolvia o problema e, assim, acabava a peça. Era o Deus ex-machina — o deus surgido da máquina. Com o avanço sem precedentes da inteligência artificial (IA), é justo pensar que, no mundo contemporâneo, a máquina é a própria deidade.

Para ela, nada parece impossível. Da confecção de discursos em segundos à criação de obras de arte; da identificação de medicamentos promissores ao diagnóstico preciso de doenças, tudo é resolvido pelo "deus algoritmo". E, ao observar sua invenção "surgindo do guindaste", o homem pode se perguntar qual lugar ocupará neste enredo. Segundo especialistas, porém, o perigo não está na criatura e, sim, no uso que o criador faz dela.

A IA não é propriamente uma novidade. O marco histórico é o ratinho Theseus, programado em 1952 por Claude Shannon. Controlado remotamente, o roedor mecânico passeia por um labirinto até encontrar o queijo e é capaz de se lembrar do caminho percorrido. O objeto, que hoje é relíquia do Museu do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), pode parecer simplório. Mas é considerado um dos — se não o — primeiros sistemas inteligentes já criados.

Em sete décadas, muita coisa mudou. A inteligência artificial faz parte da rotina, ainda que não se perceba. O GPS que indica o percurso, a atendente virtual, o internet banking são exemplos de seu uso no dia a dia. Só que, até agora, ninguém temia os mecanismos de busca dos navegadores, os sistemas de reconhecimento facial dos condomínios ou a sugestão de filmes apresentadas pelos aplicativos de streaming.

Então, as máquinas começaram a gerar imagens perfeitas de pessoas inexistentes, escrever reportagens com acurácia, resolver enigmas matemáticos em frações de segundos, dirigir e voar sozinhas, elaborar defesas jurídicas e até "ler" pensamentos em experimentos científicos. A ponto de, em um editorial da revista Science, um grupo de cientistas pedir a moratória de pesquisas até alguma regulamentação ética da IA.

"A inteligência artificial agora é uma parte muito onipresente de nossas vidas cotidianas, portanto, há uma compreensão visceral de seu impacto", opina Subbarao Kambhampati, professor de engenharia da computação na Universidade Estadual do Arizona e presidente da Associação para o Avançado da IA, nos Estados Unidos. Ele se diz otimista sobre o potencial da tecnologia, mas reconhece que muitas pessoas estão preocupadas em dividir o mundo com máquinas pensantes.

Medo

"Elon Musk (magnata e empreendedor) iniciou essa tendência de medo da IA dizendo que o que o mantém acordado à noite é a ideia de máquinas superinteligentes que se tornarão mais poderosas que os humanos", destaca. "Declarações como essa, vindas de pessoas influentes, é claro que preocupam o público. Não tenho uma visão tão pessimista." Porém, Kambhampati reconhece que é preciso acompanhar com cautela os limites de uma tecnologia que, aparentemente, não tem fronteiras. "Devemos permanecer atentos a todas as ramificações dessa poderosa tecnologia e trabalhar para mitigar as consequências, como o deslocamento da força de trabalho, e estabelecer as melhores práticas e diretrizes éticas em todo o setor."

A discussão sobre riscos e avanços da IA ultrapassa o campo da ciência da computação; é também filosófica. Já na Grécia Antiga, filósofos questionavam a essência da inteligência e se esse era um atributo somente humano. Aristóteles, por exemplo, acreditava que objetos inanimados também pensavam, embora de forma distinta das pessoas. Já Platão entendia que o conhecimento era inato: uma máquina poderia até acessá-lo, mas não necessariamente o compreenderia.

Hoje, esse é um dos centros da discussão sobre IA: sistemas programados e alimentados por seres humanos poderão ultrapassar em astúcia seus criadores? Não, garante um dos maiores especialistas no tema, o cientista da computação francês Jean-Gabriel Ganascia, da Universidade de Sorbonne que, já em 1980, obteve mestrado em inteligência artificial em Paris. Membro da Associação Europeia de IA, ele tem se dedicado, nos últimos anos, a fazer palestras e escrever artigos sobre o tema.







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