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TENSÃO

Japão exige fim dos testes militares iniciados pela China nesta semana

Publicado em: 05/08/2022 07:49

 (Foto: Hector Retamal/AFP)
Foto: Hector Retamal/AFP
As tensões entre China e Estados Unidos, no dia seguinte à visita da congressista norte-americana Nancy Pelosi a Taipei, também envolveram o Japão e atingiram uma escalada sem precedentes. Pelo menos quatro dos 16 mísseis chineses disparados, ontem, sobrevoaram a principal ilha de Taiwan e cinco caíram em águas territoriais japonesas. As manobras bélicas lançadas por Pequim, transmitidas ao vivo pela televisão, compreendem caças J-20, bombardeios H-6K, aviões de combate J-11, destróieres, corvetas, o míssil hipersônico DF-17 e mísseis balísticos de curto alcance DF-11. Tóquio pediu o "fim imediato" dos exercícios militares, enquanto Washington denunciou uma "reação exagerada" por parte de Pequim. 

Ao mesmo tempo, as autoridades norte-americanas anunciaram que o porta-aviões USS Reagan continuará a "monitorar" os arredores de Taiwan. Para evitar uma maior escalada das tensões, o Pentágono adiou um teste de mísseis intercontinentais. Na noite de ontem, a presidente Tsai Ing-wen gravou um pronunciamento aos 23,5 milhões de taiwaneses. "Hoje, a China iniciou uma série de exercícios militares com disparos reais ao redor de Taiwan. Esse tipo de ameaça militar contínua e deliberada, especialmente o perigoso lançamento de mísseis em um dos mais movimentados corredores de transporte marítimo do mundo, é irresponsável. Isso não apenas mina o status quo no Estreito de Taiwan, mas também cria uma tensão elevada na região do Indo-Pacífico", declarou. 

Tsai apelou "solenemente" à China para agir "com razão e moderação". "Quero enfatizar que não escalaremos o conflito, nem instigaremos disputas, mas defenderemos, de forma resoluta, a soberania e a segurança, como baluartes de nossa democracia", disse. Segundo a presidente, as forças de Taiwan intensificaram a postura de prontidão e acompanham, em tempo real, os desdobramentos no entorno da ilha. "Trabalharemos para manter o status quo pacífico e estável no Estreito de Taiwan. Nós somos calmos e não agiremos com pressa. Somos racionais e não atuaremos para provocar. Mas, absolutamente, não recuaremos."

Por meio de um comunicado, o Comando do Teatro Oriental do Exército Chinês informou que "os exercícios se concentram em sessões de treinamento importantes, incluindo bloqueio conjunto, ataque a alvos marítimos e terrestres, e operação de controle do espaço aéreo". A agência de notícias estatal chinesa Xinhua informou que os testes bélicos começaram por volta das 13h de ontem (1h em Brasília), com o disparo de "novos modelos de mísseis", que atingiram "com precisão" a parte leste do Estreito de Taiwan. A China utilizou mais de 100 aviões de guerra e dez destróieres e fragatas. O ministro da Defesa do Japão, Nobuo Kishi, repudiou as simulações bélicas chinesas. "Nós condenamos fortemente o ato, pois trata-se de uma questão grave relacionada à segurança e à ameaça para o povo japonês."

Preocupação
Diretora do Programa Ásia do think tank German Marshall Fund of the United States (sediado em Washington), Bonnie Glaser explicou ao Correio que o governo de Xi Jinping demonstra muita preocupação com o forte apoio do Japão a Taiwan. "Acho que os chineses estão enviando, de forma deliberada, mensagens para o Japão de que Tóquio não deveria interferir no Estreito de Taiwan. Caso contrário, corre o risco de ser atacado em uma escalada da crise ou mesmo em uma guerra", comentou. "Neste momento, a China também emite sinais de determinação para defender a própria soberania e a integridade territorial. Pequim não tomou a decisão de utilizar a força ou de invadir Taiwan."

Para a húngara Zsuzsa Anna Ferenczy — professora da Universidade Nacional Dong Hwa, em Hualien (Taiwan) —, os países da região, e especialmente o Japão, têm se mostrado alarmados por uma "China hostil". "Xi pretende exibir força e determinação a Taipei, a Washington e a outros aliados democráticos no campo da segurança, incluindo Tóquio. É um aviso de que ele não ficará sentado e assistirá ao que considera serem linhas vermelhas sendo atravessadas", disse ao Correio. Ela lembra que, em ligações telefônicas, Xi alertou o presidente norte-americano, Joe Biden, a não brincar com fogo. Por isso, entende que o forte componente militar na resposta à visita de Pelosi está alinhado à retórica bélica. "Xi crê que uma ação e uma retórica fortes, no contexto doméstico, são cruciais para a proteção de sua legitimidade."

Ainda segundo Ferenczy, com o alto nível de incerteza no Estreito de Taiwan, existe o risco de escalada. "Mas eu não acho que Xi gostaria de provocar uma situação capaz de minar sua credibilidade internamente, em uma região que ele deseja controlar, não perder. Ao intensificar a intimidação e a pressão sobre Taiwan nos campos militar, econômico e político, e ao evitar um confronto cinético, Pequim pretende ganhar capital político em casa e na região, além de desencorajar outras nações a se engajarem com Taiwan."

O jornalista William Yang, presidente do Clube de Correspondentes Estrangeiros em Taiwan, disse à reportagem não acreditar que os chineses estejam se preparando para uma invasão, ao contrário da avaliação de especialistas. "Pequim envia um sinal para Taiwan de que é capaz de coibir a ilha de buscar interações com o Ocidente."

"Dispostos a morrer pela liberdade"

"Eu me encontrei com a senhora Nancy Pelosi na última quarta-feira. Foi uma reunião maravilhosa. Eu dei as boas-vindas a ela e apresentei-lhe a Taiwan que acredito que os Estados Unidos deveriam conhecer. Um povo corajoso e disposto a morrer para defender a própria liberdade. Em relação aos exercícios militares chineses, o governo de Xi Jinping pretendia que fossem sem precedentes. Mas a China lançou mísseis durante testes bélicos previamente anunciados. Os projéteis caíram na água. Não houve nenhuma reação por parte da população taiwanesa a esses testes militares."

Wuer Kaixi, Dissidente chinês, um dos principais lideres dos protestos estudantis e sobrevivente do massacre da Praça da Paz Celestial, em 4 de junho de 1989
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