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DIREITOS HUMANOS

Lista vazada traz revelações sobre uigures detidos na China

Por: AFP

Publicado em: 13/05/2022 10:04

 (Foto: Johannes Eisele/AFP)
Foto: Johannes Eisele/AFP
Estava sem contato com sua família na China há cinco anos. Por isso, quando Nursimangul Abdureshid, exilada na Turquia, leu o nome de seu irmão em um banco de dados vazado, ela ficou aliviada, embora se trate de uma lista de uigures presos. 

Investigadores ocidentais calculam que pelo menos um milhão de uigures e membros de outras minorias muçulmanas foram internados na região de Xinjiang (noroeste), que viveu uma onda de ataques nos anos 2010.

As famílias têm pouca informação sobre eles, pois os julgamentos geralmente acontecem a portas fechadas e o acesso aos documentos judiciais é difícil.

É por isso que Abdureshid, uma uigur de 33 anos exilada em Istambul, Turquia, ficou comovida quando viu pela primeira vez uma lista de prisioneiros, supostamente vazada dos arquivos da polícia de Xinjiang. 

Graças à lista, ela conseguiu obter um pouco mais de informações sobre o seu irmão mais novo, Memetili, que já sabia, por meio da embaixada chinesa na Turquia, que havia sido preso. 

Agora ela sabe também que ele foi condenado a 15 anos e 11 meses de prisão, principalmente por "preparar atos de violência e terrorismo" e que está em Aksu, cidade da região de Xinjiang. 

"É muito melhor do que não saber nada sobre seu paradeiro", comentou à AFP na Turquia, onde vive desde 2015. "Isso me deixa um pouco feliz (...) Às vezes olho a previsão do tempo para ver se está frio ou calor onde ele está".

Pais desaparecidos 
 
Xinjiang tem uma população de 26 milhões de pessoas, quase metade uigur, que vive com outros grupos étnicos, como os han (grupo étnico majoritário na China), cazaques e mongóis. 

O banco de dados, do qual a imprensa nada sabia até agora, reúne mais de 10.000 nomes de condenados do cantão de Konasheher, no sudoeste da região. 

Nursimangul Abdureshid diz que não tem notícias de seus pais, que também foram condenados por acusações relacionadas ao terrorismo, ou de seu irmão mais velho, que acredita também estar na prisão. 

Mesmo sem uma confirmação da autenticidade do documento, para muitos uigures da diáspora esta é a primeira informação que têm sobre seus parentes.

A lista contém uma série de dados: nome, sobrenome, etnia, número de identidade, endereço, duração e motivo da pena, bem como o local da prisão.

De acordo com a lista, centenas de pessoas foram detidas em cada município e vilarejo, às vezes pessoas da mesma família. 

"Não é uma luta contra o terrorismo com objetivos claros", diz David Tobin, professor de Estudos do Leste Asiático na Universidade de Sheffield, no Reino Unido. 

"Trata-se de ir de porta em porta e levar um certo número de pessoas. Isso mostra que, na realidade, uma comunidade está sendo arbitrariamente visada e dispersada", assegura.

As pessoas na lista foram condenadas por "reunião em grupo com o propósito de perturbar a ordem pública", "apologia ao terrorismo", "promoção do extremismo" ou "participação numa organização terrorista".

 Onda de atentados 
 
Segundo dados oficiais, o número de pessoas condenadas em Xinjiang disparou entre 2014 e 2018, de 21.000 para 133.000. 

Com a intensificação da campanha contra o extremismo islâmico, a proporção de penas de prisão de cinco anos ou mais aumentou de 27% em 2016 para 87% em 2017. 

Um linguista e ativista uigur que vive na Noruega, Abduweli Ayup, contou à AFP que reconheceu cerca de 30 vizinhos ou parentes na lista. A maioria comerciantes ou agricultores, mas também um político e um professor de química. 

"Em Oghusak, povoado natal do meu pai, e em Opal, povoado natal da minha mãe, cada casa tem alguém preso", aponta.

Um primo foi condenado por "se reunir a uma multidão para perturbar a ordem pública". "Ele era um simples agricultor. Se você perguntar a ele o que é terrorismo, ele não conseguiria nem ler a palavra", assegura.

Um segundo banco de dados lista cerca de 20.000 uigures, cujas prisões ocorreram entre 2008 e 2015. A maioria vem das regiões de Kashgar ou Aksu. 

Naqueles anos, Xinjiang viveu uma onda de atentados, atribuídos pelas autoridades a separatistas uigures e islâmicos. A maioria das pessoas na lista é acusada de ligações ao terrorismo.

Um uigur que vive na Europa e deseja permanecer anônimo disse à AFP que reconheceu cinco amigos na segunda lista. "Fiquei emocionado ao reconhecer tantas pessoas", afirmou, explicando que foi para o exterior em 2015 para estudos.

O ministério das Relações Exteriores da China disse que "não estava ciente das situações pessoais" dos indivíduos mencionados pela AFP.

"Refutamos repetidamente as mentiras fabricadas por algumas organizações e indivíduos", reagiu o ministério, afirmando que "a sociedade vive em harmonia e estabilidade em Xinjiang" e "pessoas de todas as etnias desfrutam de seus plenos direitos".
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