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GUERRA NA UCRANIA

Israel reage com fúria à fala de chanceler russo sobre Hitler

Publicado em: 03/05/2022 08:39 | Atualizado em: 03/05/2022 09:37

 (Foto: Maxim Shipenkov/AFP)
Foto: Maxim Shipenkov/AFP
As palavras do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, ofenderam Israel e sobreviventes do Holocausto, abriram uma crise diplomática com o governo de Naftali Bennett e escandalizaram o mundo. No domingo, em entrevista à emissora italiana Rete 4, Lavrov foi questionado sobre como as forças russas "desnazificariam" a Ucrânia se o próprio presidente do país (Volodymyr Zelensky) é judeu.

"Quando eles dizem 'Que tipo de nazificação é essa, se nós somos judeus?'. Bem... Eu acho que (Adolf) Hitler também tinha sangue judeu, então, isso não significa nada. O sábio povo judeu diz que os antissemitas mais ardentes são judeus", respondeu.

Horas depois, a chancelaria de Israel convocou o embaixador russo em Tel Aviv, Anatoly Viktorov, para prestar esclarecimentos — sinal de forte reprovação no linguajar diplomático. "Mentiras como essa visam culpar os próprios judeus pelos crimes mais terríveis da história, que foram cometidos contra eles, e isentar os opressores dos judeus de sua responsabilidade", declarou Natfali Bennet, premiê israelense, citado pelo jornal The Jerusalem Post. "O uso do Holocausto do povo judeu como um aríete (máquina de guerra da Idade Média) político deve ser interrompido imediatamente", acrescentou. 

Para o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, Lavrov deixou vir à tona o "antissemitismo profundamente enraizado" das elites russas. "Seus comentários hediondos são ofensivos ao presidente Zelensky, à Ucrânia, a Israel e ao povo judeu. Mais amplamente, demonstram que a Rússia de hoje está cheia de ódio em relação a outras nações."

"Insulto"
Em visita a Jerusalém, Daniel Zonshine, embaixador de Israel no Brasil, condenou a fala de Lavrov, ao classificá-la como "desprovida de sentido, sob o ponto de vista da história, da lógica e da moral". "Os judeus foram assassinados pelos nazistas e por seus aliados, não por outros judeus. Isso é um insulto aos sobreviventes e à memória dos mortos", disse à reportagem, por telefone.   

A polonesa judia Halina Birenbaum, 92 anos, moradora de Herzliya (Israel), sobreviveu ao Gueto de Varsóvia e ao campo de extermínio de Auschwitz. Em 1945, quando os soviéticos libertaram os prisioneiros, ela tinha 15 anos.

Em entrevista ao Correio, Halina não poupou críticas a Lavrov. "O que ele disse sobre os judeus é feio, estúpido e perigoso para o mundo. Mas, se Auschwitz pôde funcionar por três anos como uma máquina gigante de assassinatos, em uma cultura tão desenvolvida, como a alemã, então, tudo é possível", desabafou.

"Temos os fatos: o que os russos estão fazendo à Ucrânia. Ninguém deteve Hitler, ninguém detém (o presidente russo) Vladimir Putin. Ninguém consegue calar a boca de Lavrov e impedir que ele diga coisas racistas, odiosas e grosseiras", acrescentou. 

Halina disse que, entre os anos 1930 e 1940, viu "o grande poder do mal". "Experimentei as mais terríveis crueldades cometidas pelo regime de Hitler. Vi o começo da grande queda de Hitler, em 1945. Depois da libertação de Auschwitz, fui à Alemanha e vi florestas queimando, tudo estava quebrado, as casas das pessoas tinham se transformado em ruínas. Da mesma forma como Hitler fez com sua terra, Putin está fazendo à Ucrânia. Já estive nesse 'filme' do demônio!", advertiu.

Por sua vez, o caçador de nazistas israelense Efraim Zuroff, presidente do Centro Simon Wiesenthal (em Jerusalém), classificou as declarações de Lavrov como "desagradáveis". "Elas implicam que os judeus são responsáveis pelo Holocausto, já que o próprio Hitler teria sangue judeu. É um caso horrível de antissemitismo", afirmou à reportagem. 

Por e-mail, o historiador Paul Lerner — professor da Universidade do Sul da Califórnia e especialista sobre a ascensão do fascismo — assegurou: "Hitler não tinha sangue judeu; isso é um mito que foi derrubado muitas vezes". Ele afirmou que Putin está revivendo a memória da Segunda Guerra Mundial, quando os soviéticos derrotaram os nazistas alemães, em grande parte no território da Ucrânia.

"É uma maneira de transformar a agressão russa em luta defensiva. Mas, a Rússia é o agressor. Moscou usa o contexto histórico da Segunda Guerra para reformular a agressão russa. Por essa lógica, os ucranianos democratas são equiparados aos nazifascistas, e os russos, aos soviéticos. Nada disso resiste a escrutínio histórico."

Anexação
A Rússia planeja realizar referendos "em meados de maio" para "tentar anexar" Donets e Luhansk, repúblicas separatistas pró-Rússia que formam a região do Donbass, no leste da Ucrânia. "Segundo as informações mais recentes, acreditamos que a Rússia tentará anexar a 'República Popular de Donetsk' e a 'República Popular de Luhansk'", declarou o embaixador dos EUA na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), Michael Carpenter. 

"Essas informações mostram que a Rússia tem a intenção de organizar referendos" neste sentido "até meados de maio", acrescentou. De acordo com ele, um plano similar está sendo montado por Moscou para a cidade costeira de Kherson, capturada desde o início da guerra, em 24 de fevereiro. 

Ontem, duros combates foram registrados no Donbass, principalmente em torno das cidades de Izyum, Lyman e Rubizne. O Estado-Maior ucraniano anunciou que os soldados da Rússia tentam consolidar o controle sobre essas posições para "preparar o ataque contra Severodonetsk", uma das principais cidades do Donbass ainda em posse dos ucranianos. 

Em Mariupol, cidade portuária no sudeste da Ucrânia, a situação dos moradores abrigados na siderúrgica de Azovstal segue dramática. Pouco mais de 100 pessoas foram retiradas no fim de semana. As instalações do complexo servem de reduto da resistência — combatentes do grupo paramilitar Batalhão de Azov estariam entrincheirados no local.

Alguns dos resgatados contaram que falta comida. Em meio a informações controversas sobre a suspensão das operações, o brasileiro Saviano Abreu, porta-voz do Escritório Humanitário da ONU, assegurou ao Correio que o resgate estava em andamento. "Somente poderemos dar mais informações quando as operações estiverem concluídas."

Um adolescente de 15 anos morreu em um bombardeio russo contra Odessa, no sul da Ucrânia. "Um ataque com mísseis em Odessa danificou um prédio em que havia cinco pessoas. Um menino de 15 anos morreu, outro mais novo foi levado ao hospital", anunciou a prefeitura da cidade.

"O que o ministro Lavrov disse não apenas é errado, sob todos os pontos de vista, mas ultrajante e imperdoável. Perdi meus avós no Shoah (Holocausto). Ele ofendeu o povo judeu e os sobreviventes do Holocausto.'
 
"Putin mantém os crimes na Ucrânia. Lavrov quer acobertar isso, ao evocar o ódio pelos judeus. Como sobrevivente do Holocausto, fico preocupada com o que teorias assim trazem: assassinatos e ódio."

"Não há absolutamente nenhuma evidência de que Hitler tivesse sangue judeu. Os comentários de Lavrov são absolutamente ultrajantes e sem base alguma. Além disso, são antissemitas. Lavrov tenta justificar a guerra."
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