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Mais que 'Black Friday chinesa': entenda o significado cultural do 11/11

Publicado em: 11/11/2021 22:19 | Atualizado em: 11/11/2021 22:24

 (Foto: Reprodução/Pixabay)
Foto: Reprodução/Pixabay
"Me tirou o 'não casado' e me deixou apenas com o 'solteiro'”. Essa paráfrase do meme brasileiro famoso na segunda década dos anos 2000, poderia facilmente ser dita por um jovem chinês do início dos anos 1990. Isso porque foi naquela época que um grupo de estudantes da Universidade de Nanquim se uniu para celebrar a vida e discordar de Vinícius de Mores: sim, é possível ser feliz sozinho. 

Para provar a tese, a primeira coisa que eles escolheram foi a data: 11/11. Notou? Todos os algarismos deste palíndromo são o número um, que representa a individualidade literal deste dia. Embora a tradição tenha se espalhado rapidamente pelo país e se tornado uma das datas comemorativas mais importantes por lá, esses universitários não ficaram famosos. Assim, é difícil saber por que eles sentiram a necessidade de comemorar a vida sem um casamento, mas estudiosos da sociedade chinesa dão uma pista.

“Parece que, exceto pelo respeito às tradições, os jovens chineses precisam encontrar feriados que representem algo mais contemporâneo, expressando-se como cidadãos do mundo moderno. Eles celebram o romance no tradicional festival Qixi e no dia 14 de fevereiro (São Valentim), por exemplo. Eles sentem a necessidade de se manter atualizados com os novos feriados estrangeiros, se não como um chamado à ação, pelo menos como um conhecimento importante sobre os costumes no exterior”, explica um artigo do portal Thinking Chinese, sino-enciclopédia escrita pelos moradores daquele país para estrangeiros curiosos.

‘Não casados’
Ainda sob o ponto de vista da cultura, uma virada conceitual importante marca o advento do Dia dos Solteiros. Em entrevista para a revista norte-americana Time, em 2014, a consultora de relacionamentos Yue Xu explicou que a ideia da solteirice no país é muito recente porque não existia um contraponto a ela. Há bem pouco tempo, completava-se a idade permitida para se casar e as pessoas já procuravam alguém para formar família. Ponto.

“A China costumava ser uma sociedade onde não havia a cultura de namoro. Não havia datas para se entrar em um relacionamento. Você vê alguém, se você pode se casar com ela, casa. Se não, nunca mais a vê. É tudo ou nada”, disse.

Depois da abertura econômica, no fim da década de 1970, os chineses começaram a ter mais contato com produções ocidentais — em especial no cinema e na TV — e, a partir daí, novos marcos rituais ganharam importância.

A ideia de namoro, e seu inseparável estado oposto (a solteirice), é hoje bastante difundida entre os jovens daquele país. Em especial, os moradores das zonas urbanas, que têm escolaridade mais alta e acabam demorando mais para constituir família.

Solteiro sim, sozinho, por enquanto
Mesmo que a data tenha começado com a intenção de celebrar com amigos as conquistas individuais da vida adulta, presentear a si mesmo e passar um tempo exercitando o autoamor, uma terceira classe de pessoas está cada vez mais inserida no Dia dos Solteiros: aqueles que estão à procura.

Seja por que motivo for, muitos desses jovens querem aproveitar cada 11/11 como uma oportunidade para que este seja seu último dia sem um par. Os eventos de encontros às cegas, em que há um rodízio de candidatos para que se escolha quem é mais compatível, são um exemplo de hit do dia.

“Os universitários pensaram ‘essa data seria uma data para os solteiros e a gente pode fazer muita coisa, festa entre os solteiros, atividades coletivas’. (...) Com o tempo, essas pessoas saíram da universidade, foram trabalhar e a data ganhou a China inteira. Depois, vieram as ‘festas para arrumar alguém com quem casar’, onde se conhece alguém para namorar e depois casar”, explica a professora de chinês radicada no Brasil, Sisi Lao.

Nesses encontros, as pessoas se revezam em mesas por oito minutos para conhecer potenciais pares românticos. São feitas perguntas e cada candidato verifica a compatibilidade e, depois, aponta as pessoas pelas quais se interessou em uma ficha entregue aos organizadores do evento. É como um Tinder presencial.

“Chinesa da China mesmo” e dona do canal Pula Muralha no Youtube, Sisi fez um vídeo, há dois anos, contando curiosidades da data comemorativa. Uma delas é que os chineses ficaram tão empolgados com o feriado a ponto de criar um prato típico do Dia dos Solteiros. A iguaria é composta por quatro salgadinhos fritos (com formato parecido com churros, chamados youtiao) separados por um ovo ou um pãozinho cozido (bao).

No empratamento, os cinco elementos formam a versão alimentícia da data 11/11. Esse prato está para este dia como o rolinho primavera está para o ano novo tradicional do país, ou o peru para o Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. A prova disso é a quantidade de receitas de youtiao disponibilizadas nas redes sociais assim que entra novembro.

Black Friday da China
A despeito de toda essa riqueza cultural, poucas pessoas no ocidente estariam falando do Dia dos Solteiros se ele não tivesse ganhado uma terceira dimensão: uma grande data comercial. Em 2009 a empresa de comércio virtual Alibaba resolveu incorporar a data ao calendário de promoções e foi um sucesso imediato.

Nesses mais de doze anos promovendo promoções, a gigante do varejo emplacou um recorde de vendas atrás do outro. Para se ter uma ideia, o faturamento em 2020 foi de R$ 413 bilhões com vendas. Além de um novo recorde, a cifra representou crescimento de 26% em relação a 2019. Detalhe é que o crescimento ocorreu em pleno ano de pandemia e retração econômica.

Parte do sucesso é explicado pela estratégia de internacionalização da Alibaba. CEO da companhia desde 2015, Daniel Zhang usa o dia dos solteiros como um chamariz para compradores de outros países. Além dos preços menores que podem ser vistos com 10 dias de antecedência, a empresa chegou a realizar festivais com artistas do mundo pop, como a cantora Taylor Swift, para garantir uma divulgação espontânea.

Essa curiosidade só torna a data ainda mais interessante, visto que tudo começou depois que jovens chineses tiveram contato com hábitos ocidentais de relacionamento. Como novembro já era um mês marcado por grandes promoções, por aqui, o Dia dos Solteiros acabou se transformando em um esquenta para a Black Friday. A ideia é usar essas datas para movimentar o comércio e renovar os estoques para o Natal.
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