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LEVANTAMENTO

Poluição provocada por incêndio mata 33 mil pessoas por ano

Publicado em: 09/09/2021 07:10

 (Foto: Menahem Kahana/AFP - 15/8/21)
Foto: Menahem Kahana/AFP - 15/8/21
Incêndios florestais como os que devastaram a Califórnia, o Canadá e a Grécia e que vêm consumindo cada vez mais a Amazônia brasileira têm forte impacto sobre a saúde humana, segundo uma série de artigos publicados, ontem, na revista The Lancet Planetary Health. Os pesquisadores descobriram que, anualmente, as partículas finas emitidas por queimadas são responsáveis por mais de 33,5 mil mortes no mundo. Trata-se do primeiro estudo de larga escala a relacionar a exposição a esse poluente e mortalidade por todas as causas, por doenças cardiovasculares e respiratórias.

Liderados por Yuming Guo e Shanshan Li, da Universidade de Monash, na Austrália, os pesquisadores analisaram dados de 65,6 milhões de óbitos por todas as causas em 749 cidades, divididas entre 43 países, de 1º de janeiro de 2000 a 31 de dezembro de 2016. Com 1.610 mortes anuais atribuídas à poluição por queimadas, o Brasil é um dos países que mais registram mortalidade relacionada à fumaça dos incêndios florestais. O Japão encabeça o ranking, com 7 mil óbitos, seguido por Tailândia (5,3 mil), África do Sul (5,2 mil) e Estados Unidos (3,2 mil).

Os autores notam que, nos últimos anos, tem ocorrido uma devastação generalizada de florestas — dos 18 milhões de hectares destruídos na Austrália entre 2019 e 2020 aos 1,2 milhão de hectares consumidos na Califórnia nos últimos dois anos. Além dos impactos diretos, como queimaduras, lesões e até mesmo consequências para a saúde mental, Guo destaca os riscos invisíveis das partículas finas que ficam suspensas no ar. “A poluição da fumaça dos incêndios florestais pode se espalhar até 1 mil quilômetros de distância, e o risco de incêndios florestais deve aumentar à medida que as mudanças climáticas pioram”, diz.

O poluente mais perigoso resultante das queimadas é o material particulado fino PM 2,5 — o número se refere ao tamanho da partícula, 2,5 micrômetros, sendo que um micrômetro corresponde a um milésimo de milímetro. Esses elementos entram noS alvéolos das paredes pulmonares e caem na circulação sanguínea. Segundo os autores da série de artigos, o PM 2,5 consequente de incêndios florestais é ainda mais tóxico que o produzido por incêndios urbanos devido à composição química, ao tamanho da partícula e à alta temperatura associada.

Os dados de mortalidade foram obtidos a partir do Estudo Colaborativo Multi-Cidades, Multi-Países (MCC, sigla em inglês), e as estimativas para as concentrações diárias de PM 2,5 foram modeladas por aprendizado de máquina, a partir de modelos, medições do solo e do clima. “Os formuladores de políticas e os profissionais de saúde pública devem aumentar a conscientização sobre a poluição por incêndios florestais para orientar as respostas imediatas do público e tomar medidas para reduzir a exposição. Políticas e práticas eficazes de manejo florestal devem ser implementadas para manejar a vegetação e mitigar as mudanças climáticas, tanto quanto possível”, advertem os autores.

Pandemia
Em tempos de pandemia, a situação se torna mais crítica, alerta Francesca Dominici, pesquisadora da Universidade de Harvard. Recentemente, ela constatou que 19.742 casos registrados de Covid-19 e 748 mortes relacionadas à doença nos EUA podem estar associados a picos de emissão de partículas de PM 2,5 liberadas pelos incêndios nos estados de Califórnia, Oregon e Washington. “Já sabemos que o ar poluído aumenta o risco de mortes e de Covid grave, mas, agora, também temos de considerar que os incêndios florestais podem ter piorado o impacto da pandemia na saúde”, afirma Dominici, que não participou da edição especial da The Lancet Planetary Health.

Além da mortalidade, um dos artigos divulgados ontem demonstrou que, no Brasil, mais de 47 mil pessoas são hospitalizadas por ano devido às queimadas (veja quadro). No ano passado, o número de incêndios florestais no país aumentou 12,7%, já, em 2021, foram detectados 260 grandes queimadas na Amazônia, consumindo mais de 100 mil hectares. O estudo analisou mais de 143 milhões de hospitalizações de 1.814 municípios ao longo de 16 anos (até 2015). Esses dados foram comparados aos níveis diários de PM 2,5 relacionados a incêndios florestais no ar em cada uma dessas cidades. “Eles revelam impactos significativos de incêndios florestais na saúde antes mesmo de os incêndios de 2019 em todo o Brasil chamarem a atenção global, seguido por um período de queimadas igualmente intensas no ano passado”, comenta Guo.

 Alerta reforçado
No início desta semana, 233 revistas médicas de todo o mundo, inclusive do Brasil, divulgaram um editorial também ligado aos impactos na saúde decorrentes da crise ambiental. Os autores pediram que governos e formuladores de políticas públicas tomem medidas eficazes e robustas para enfrentar as mudanças climáticas. Próximo da conferência do clima, que acontece em novembro, os cientistas alertaram que os efeitos do aquecimento global sobre a saúde humana são perceptíveis e que ficarão ainda mais intensos com a previsão de que dificilmente a meta do Acordo de Paris — limitar o aumento de temperatura a 1,5º até o fim do século — será cumprida.

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