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AMÉRICA LATINA

Campanha eleitoral começa na Nicarágua com o caminho livre para Ortega

Por: AFP

Publicado em: 24/09/2021 15:46

 (Foto: Oswaldo Rivas/AFP)
Foto: Oswaldo Rivas/AFP
A Nicarágua inicia oficialmente neste sábado a campanha para as eleições presidenciais de 7 de novembro, com o caminho livre para que o presidente Daniel Ortega tente um quarto mandato consecutivo após a detenção de seus principais adversários. 

Ortega, de 75 anos, está no poder desde 2007 após duas reeleições sucessivas e modificações nas leis que o impediam de se perpetuar no poder. 

Ele encabeça a aliança "Nicarágua Triunfa", liderada pela ex-guerrilha de esquerda Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), e integrada por uma dezena de movimentos afins. 

Como colega de chapa o acompanha pela segunda vez sua esposa e vice-presidente, Rosario Murillo, a face visível e operacional do governo. 

A campanha transcorre em um clima tenso pelas detenções desde junho de 37 opositores até agora, acusados de lavagem de dinheiro, conspiração e promoção de medidas contra a Nicarágua, e pelas sanções internacionais em resposta ao governo de Ortega. 

"As pessoas estão convencidas claramente de que aqui vai haver um processo eleitoral nada transparente e que, até certo ponto, está consignado que a Frente Sandinista vai ganhar", disse o ex-diplomata e analista Edgar Parrales. 

Recorrer a velhos símbolos
Todas as acusações contra os opositores se baseiam em leis recentes aprovadas pelo Parlamento governista. 

Ortega assegura que os detidos tentavam gerar "uma onda de terrorismo" durante as eleições e acusa também Washington de financiá-los e de buscar um candidato opositor de sua preferência. 

Ele vincula, ainda, estas acusações aos protestos contra seu governo em 2018, cuja repressão deixou mais de 300 mortos e milhares de exilados, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O governo atribuiu os protestos a um golpe de Estado frustrado. 

Recentemente, os sandinistas restituíram em uma colina de Manágua as gigantescas siglas partidárias que usaram em 1980, quando governaram o país pela primeira vez, após a vitória de sua revolução em 1979 contra a ditadura de Anastasio Somoza. 

O rótulo tinha sido removido em 1990, quando Ortega perdeu as eleições para Violeta Barrios de Chamorro. 

"Precisam recriar o cenário dos anos 90, que é de guerra, e por isso falam de imperialismo e da CIA pagando a oposição", advertiu em julho à AFP Zoilamérica Ortega Murillo, de 53 anos, filha adotiva do presidente, a quem acusou de abuso sexual. 

"É no cenário bélico onde jogam melhor", acrescentou, em alusão aos seus pais. 

Sem Cristiana Chamorro
O ex-guerrilheiro desenvolverá sua campanha contra cinco candidatos de partidos da direita com pouca popularidade, autorizados a participar pelo Conselho Supremo Eleitoral (CSE). 

Assim como nas eleições de 2016, os principais partidos da oposição ficaram de fora. 

A principal aliança opositora, reunida no Cidadãos pela Liberdade (CXL, direita), foi inibida em julho pelo CSE, argumentando problemas na cédula de identidade de sua presidente, Kitty Monterrey, de nacionalidade nicaraguense e americana. Ela fugiu do país temendo represálias. 

Pouco antes, sete aspirantes à Presidência que tentavam em sua maioria definir uma candidatura única sob a bandeira do CXL, foram detidos. 

Entre eles, Cristiana Chamorro, filha da ex-presidente Violeta Barrios de Chamorro (1990-1997), e favorita nas pesquisas para enfrentar Ortega. 

Ortega "não permitiu outro candidato mais do que ele em seu partido, e agora, segundo parece, não permitirá outro presidente que não seja ele", disse em julho à AFP o jornalista Fabián Medina, autor de uma biografia do presidente. 

Cercear as liberdades 
Aos 37 detidos deste ano, somam-se mais de 120 nicaraguenses presos após terem participado dos protestos contra Ortega em 2018. 

"Cercearam nossas liberdades de circulação, de expressão, com prisões e tortura, mas não poderão nos obrigar a participar do seu circo" eleitoral, denunciaram esta semana organizações de presos políticos e libertados. 

Na quinta-feira, os chanceleres de Canadá, Colômbia, Equador, França, República Dominicana, Chile, Reino Unido e Estados Unidos emitiram uma declaração sobre o "rompimento" da ordem democrática na Nicarágua. 

"Unimo-nos a declarar a Ortega-Murillo que as democracias rejeitarão a repressão política, os abusos dos DH e o desmantelamento da democracia", disse Bryan Nichols, vice-secretário de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado. 

A campanha também transcorre com medidas restritivas por uma alta dos contágios da covid-19, sem autorizações para caravanas, nem aglomerações de mais de 200 pessoas em um comício. 

A medida contrasta com a negativa das autoridades em decretar quarentenas durante a pandemia e promover atividades recreativas e turísticas com alta participação do público.  

"O estranho deste assunto é que a Frente Sandinista vem realizando atos maciços pré-eleitorais ao longo deste ano (...) e agora começam a dizer que ninguém se concentre" por causa da pandemia, observou Parrales. 
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