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AFEGANISTÃO

Alinhamento de China e Rússia ameaça os Estados Unidos

Publicado em: 26/08/2021 07:15

 (Foto: Wakil Kohsar/AFP)
Foto: Wakil Kohsar/AFP
Pela primeira vez desde a queda de Cabul e a retomada do poder pelo Talibã, em 15 de agosto, os presidentes da China e da Rússia alinharam posições sobre o futuro do Afeganistão, com focos na construção de um governo inclusivo e no combate ao terrorismo e ao tráfico de drogas. O chinês Xi Jinping e o russo Vladimir Putin conversaram, ontem, por telefone, e defenderam uma solução política para a crise afegã.

A agência de notícias chinesa Xinhua divulgou que os dois líderes pretendem encorajar todas as facções no Afeganistão a construírem uma “estrutura política aberta e inclusiva, por meio de consultas” e a implementarem “políticas externas e domésticas prudentes e moderadas, com a dissociação de todos os grupos terroristas, e a manutenção de relações amistosas com o resto do mundo, especialmente com nações vizinhas”.

Em 28 de julho, uma delegação talibã comandada pelo mulá Abdul Gharani Baradar, comandante supremo do Talibã, reuniu-se com o ministro das Relações Exteriores de Pequim, Wang Yi, em Tianjin, no nordeste da China. Ainda de acordo com a Xinhua, Xi destacou que a China respeita a soberania, a independência e a integridade territorial do Afeganistão e exorta uma solução pela via política.

Os governos de Xi e de Putin aproveitaram o enfraquecimento dos Estados Unidos no Afeganistão para ampliar sua área de influência e abrir espaço para investimentos e para a defesa de interesses estratégicos. No cenário interno, a chamada Frente Nacional de Resistência (FNR), grupo liderado por Ahmad Massoud, filho do famoso comandante antitalibã Ahmad Shah Massoud, ganhou força.

Em entrevista à agência France-Presse, Ahmad Wali Massoud, irmão do falecido comandante, assegurou que a resistência “se espalhou muito no Afeganistão” e citou a oposição à mentalidade conservadora e antiquada do Talibã. “As crenças do povo afegão mudaram nos últimos 20 anos. As mulheres querem viver, trabalhar (leia Depoimento).

Os jovens vivem em um mundo diferente, não o dos talibãs, que são, agora, o grupo mais isolado” do país, comentou ele, durante visita a Paris. De acordo com a emissora de televisão afegã Ariana News, o ex-presidente Hamid Karzai (2001-2014), o ex-vice Abdullah Abdullah e o ex-líder do Partido Islâmico Gulbuddin Hekmatyar integrarão um conselho de 12 membros que o Talibã deverá formar para governar o Afeganistão.

Ontem, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, revelou que o Talibã permitiu a saída de cidadãos dos EUA e de afegãos depois de 31 de agosto, prazo estabelecido para a retirada de tropas estrangeiras do Afeganistão. O chefe da diplomacia de Washington disse que 1,5 mil americanos ainda aguardam resgate em Cabul.

“Impacto global”
Professora de relações internacionais da ESPM-SP, Denilde Holzhacker adverte que a aproximação entre China e Rússia para responder à crise no Afeganistão “impacta, e muito, a posição dos EUA regional e globalmente”. “É uma aliança importante, uma resposta à coalizão anti-China formada pelo presidente Joe Biden. Internamente, isso desgasta ainda mais o norte-americano”, disse, por telefone.

Lilia Shevtsova, chefe do Programa de Política Doméstica Russa do Carnegie Endowment for International Peace (em Moscou), vê como uma reação natural a tentativa de Moscou e de Pequim de tentarem cooperar para preencher o vácuo deixado pelos EUA no Afeganistão e para responder aos desafios representados pelo terrorismo e pelo tráfico de drogas. “A amarga ironia é que o Ocidente defendeu apenas sua própria segurança no Afeganistão.

Agora, a Rússia e a China terão que seguir a linha da cautela — não irritar o Talibã e buscar diálogo com o grupo e, ao mesmo tempo, fortalecer suas fronteiras”, explicou ao Correio. A Rússia realiza exercícios militares ao longo da fronteira com o Afeganistão e reforça sua aliança militar na Ásia Central. “Nesse contexto, é preciso incluir o Paquistão e o Irã, com suas respectivas agendas para a região. A verdade é que todos esses Estados têm ambições próprias capazes de fragilizar a sua cooperação.”

A russa lembra que o Kremlin hospedou talibãs em Moscou, apesar de classificar os insurgentes como terroristas. “Moscou e Pequim buscarão exercer o pragmatismo, com o objetivo de se prepararem ante qualquer contingência. Como atores nucleares atuarão no Afeganistão — Rússia, China, Paquistão e EUA —, a região se torna extremamente volátil”, afirmou Shevtsova.

» Duas perguntas para Haroun Rahimi, professor de direito da Universidade Americana do Afeganistão e pesquisador visitante do Centro Oxford para Estudos Islâmicos
 
De que maneira o senhor vê o alinhamento de China e Rússia nas estratégias para o Afeganistão sob o comando do Talibã?
A China está mais preocupada com os separatistas uigures e com a possível passagem de extremistas para a Ásia Central e até mesmo para o Paquistão, onde Pequim tem muitos investimentos. Além disso, o Afeganistão pode representar oportunidades de investimentos para os chineses, caso a nação se estabilize. A Rússia está preocupada com o risco de grupos separatistas e islamitas desestabilizarem a Ásia Central.

Ambos desejam tornar o Afeganistão oneroso para os Estados Unidos, em termos de reputação e de posição de liderança no mundo. Como há alguns alinhamentos, russos e chineses pensam em uma abordagem coordenada para o Afeganistão. Os dois governos têm demandas junto ao Talibã e vão esperar uma resposta da milícia.

Como fica a política dos EUA para o Afeganistão, com a entrada das duas potências no contexto regional?
Os EUA parecem aliar-se à Índia para contrapor a Rússia e a China. No entanto, Washington ainda tem relações com a Ásia Central e com o Paquistão. Os EUA deverão perder influência na região. Tudo vai depender se o Afeganistão será estabilizado ou não. Os Estados Unidos podem estar ganhando ou perdendo com esse desdobramento. (RC)

» Depoimento
“É o começo da tragédia”

» Sediqa Hassani

“O porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid, disse que as mulheres têm que ficar em casa. Mas eu não confio neles. Agora, dizem que, por enquanto, não devemos trabalhar. Depois, com certeza eles dirão que, de acordo com a sharia (lei islâmica), não teremos a permissão para trabalhar. Este é o começo da tragédia.
Conheço algumas mulheres cujos maridos morreram durante explosões de bombas. Elas têm que trabalhar para manter a casa. Se o Talibã proibir que elas trabalhem, uma tragédia humanitária ocorrerá no Afeganistão. Eles tomaram o Afeganistão há uma semana. Nós estamos a um passo da fome.
O Talibã apenas quer fingir que mudou. Na minha opinião, eles em nada mudaram. Sou uma mulher trabalhadora. Eu pago algumas das despesas de minha família. Lutarei pelos meus direitos, mesmo que o Talibã me apedreje ou me mate. Lutarei por meus direitos básicos.”

Economista, 23 anos, formada pela Universidade de Cabul
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