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Empresas da China e Europa disputam maior hidrovia da América do Sul

Por: AFP

Publicado em: 17/11/2020 15:47

 (Foto: Gustavo IZUS, Nicolas RAMALLO, Maria-Cecilia REZENDE / AFP)
Foto: Gustavo IZUS, Nicolas RAMALLO, Maria-Cecilia REZENDE / AFP
Uma empresa chinesa e quatro europeias competem pelo controle de um trecho da hidrovia Paraguai-Paraná, sistema fluvial que corta parte da América do Sul e de onde é exportada a produção agrícola da Argentina, Bolívia, Paraguai e sul do Brasil.

Essas empresas tentarão vencer uma licitação em 2021 para aprofundar o calado e realizar a manutenção de um trecho de 1.238 quilômetros localizado na Argentina, entre a confluência dos rios Paraná e Paraguai e o Rio da Prata.

Essa gigantesca obra de infraestrutura exigirá um investimento estimado de 3,8 bilhões de dólares, segundo a Bolsa de Valores de Rosário.

A Argentina vai licitar a concessão após 25 anos de gestão da belga Jan De Nul. Ao contrário do que aconteceu na década de 1990, um novo player mundial quer participar do negócio: a China, que já controla a Cofco, um dos três maiores portos agroexportadores argentinos.

Por esta razão, a Shanghai Dredging Company juntou-se às quatro empresas europeias que vão concorrer: as belgas Dredging International e Jan de Nul e as holandesas Boskalis e Van Oord.

"Projeto-chave" 

O trecho a ser concedido tem 1.238 quilômetros de extensão, cerca de 25 portos exportadores e uma movimentação de grãos que no ano passado foi de 92 milhões de toneladas.

Cerca de 80 milhões de toneladas saíram dos portos em navios ultramarinos e o restante em barcaças que descem do norte com grãos brasileiros, bolivianos e paraguaios, disse à AFP Alfreso Sesé, especialista da Bolsa de Rosário.

Dos portos da grande Rosário são exportados 80% dos 120 milhões de toneladas de grãos e cereais produzidos pela Argentina.

"É um projeto fundamental para retirar os fluxos de mercadorias da Bolívia, Paraguai, Argentina e sul do Brasil e, assim, gerar mais industrialização e serviços com portos mais competitivos e com maior volume de carga. Isso vai melhorar a posição geopolítica da Argentina", disse Gustavo Idígoras, presidente da Câmara da Indústria do Petróleo da Argentina (Ciara).

A aposta principal é a melhoria do trecho sul, que liga os portos ao Atlântico, com o aprofundamento de alguns trechos para permitir a entrada e saída de navios maiores com carga total.

"O calado com água normal é de 34 pés e a profundidade em passagens críticas é de 36. Prevê-se que chegue a 42 pés de profundidade em áreas específicas", disse Sesé.

 Peso da China 

Nos últimos 25 anos, "a China passou da riqueza ao poder e agora está decidida a participar plenamente na distribuição mundial" do comércio, disse à AFP o internacionalista da Universidade Nacional de Rosário Esteban Actis.

"Um dos déficits chineses é a capacidade de autossuficiência alimentar e por isso investem em infraestrutura nos países produtores", acrescentou Actis.

"A China quer estar em toda a cadeia de valor alimentar, tanto na produção quanto na logística, daí a Cofco e o interesse em controlar a dragagem e manutenção da hidrovia", explicou.

 Dúvidas dos ambientalistas 

Ambientalistas estão preocupados com as consequências ecológicas no equilíbrio de um dos maiores sistemas de pântanos do mundo.

Martín Bletter, pesquisador do Instituto Nacional de Limnologia, questiona que "a hidrovia está em operação há 25 anos, mas nunca foram feitos estudos exaustivos sobre seus impactos e agora estamos tentando acentuar essa situação".

Para o cientista, a modificação do leito do rio "gera perdas ecológicas devido à degradação e à fragmentação do habitat de muitas espécies".

A raspagem das dunas ou partes da praia destrói habitats de invertebrados, assim como a eliminação de restinga que também são refúgio para invertebrados e peixes, são colonizados por vegetação que 'fixa' as ilhas.

"Lá o impacto é total", avaliou Bletter.

A retificação dos meandros do curso superior (rio Paraguai) também preocupa: "os meandros retêm as correntes de água e são refúgio para a fauna e os peixes".

Além disso, a passagem de grandes navios gera turbulência e produz ondas, o que significa "maior erosão das margens, mais turbidez da água e desenraizamento de espécies das margens, o que reduz sua taxa de reprodução".

No ano passado, cerca de 2.600 navios entraram na hidrovia, segundo a Bolsa de Valores de Rosário.
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