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Trump aposta no medo e demoniza Biden, 'cavalo de Troia dos socialistas'

Publicado em: 28/08/2020 09:27

 (Foto: Brendan Smialowski/AFP)
Foto: Brendan Smialowski/AFP
Será difícil o presidente Donald Trump convencer eleitores indecisos ou arrependidos de que, em um próximo mandato, ele vai mesmo "fazer a América grandiosa de novo". No momento, o cenário não ajuda: os Estados Unidos acumulam o recorde mundial em número de mortos por Covid-19, mais de 180 mil; cerca de 58 milhões de americanos entraram com pedido de seguro desemprego nos últimos 5 meses, e a recuperação da economia demora a engrenar.

Talvez por isso Trump tenha passado a maior parte de seu caudaloso discurso dizendo que seu adversário, Joe Biden, é um "cavalo de Troia" dos radicais socialistas, um "amigo da China" que vai acabar com fábricas e empregos americanos, um radical que vai defender criminosos e encher os subúrbios de classe média com moradia para pobres.

Em 70 minutos de discurso (incluindo aí as pausas para aplausos do público), Trump mencionou o nome de Biden 42 vezes. Já Biden, em seu discurso de 24 minutos na convenção democrata, na semana passada, não tocou nem uma única vez no nome de Trump.

"Joe Biden não é o salvador da alma da América; ele é o destruidor dos empregos americanos, e, se tiver a chance, será o destruidor da grandeza americana", disse Trump. "Biden é um cavalo de Troia do socialismo" que "não tem força para enfrentar marxistas alucinados como Bernie Sanders e seus companheiros radicais".

No processo de demonização de Biden, diante de uma plateia de 1.500 pessoas aglomeradas e sem máscara no gramado da Casa Branca, Trump empilhou uma quantidade avassaladora de mentiras.

O republicano disse que os democratas defendem o aborto de bebês aos nove meses de gestação, afirmou que Biden vai adotar políticas que levarão à soltura de 400 mil criminosos nas ruas e declarou, pela enésima vez, que o democrata vai cortar drasticamente os recursos da polícia americana. Tudo isso é falso.

Na visão sombria de Trump e seus aliados, os Estados Unidos se transformarão num cenário distópico, digno do filme "Mad Max", caso Biden vença a eleição.

"O aspecto mais perigoso da plataforma de Biden é o ataque contra a segurança pública. O manifesto Biden-Bernie prevê a extinção do pagamento de fiança, que levaria à saída da prisão 400 mil criminosos, direto para as ruas e as vizinhanças de vocês", disse Trump.

"Não se enganem, se vocês colocarem Joe Biden no poder, a esquerda radical vai cortar os recursos das polícias ao redor da América e vai aprovar legislação para reduzir o policiamento no país inteiro", continuou o presidente americano.

Trump condenou os "saques, tumultos, incêndios e violência" vistos "em cidades governadas por democratas, como Kenosha, Minneapolis, Portland, Chicago e Nova York", referindo-se a confrontos ocorridos em protestos contra violência policial e racismo.

Embora os confrontos tenham sido localizados, a campanha republicana tem usado imagens de violência em muitos anúncios e comunicações, na tentativa de assustar eleitores moderados. "Há violência e perigo nas ruas de muitas cidades governadas por democratas na América".

Rudy Giuliani, advogado pessoal de Trump e protagonista no processo de impeachment do presidente, também caprichou no alarmismo em sua discurso na convenção.

"Esses protestos contínuos em cidades governadas por democratas mostram qual seria o futuro sob Biden. Todas as cinco cidades com maior índice para homicídios, tumultos e saques são governadas por progressistas democratas."

Segundo ele, que foi prefeito de Nova York, democratas têm políticas pró-criminosos e contra policiais, e "está claro que votar em Biden e nos democratas vai levar anarquia e ilegalidade para sua cidade."

De olho em um eleitorado importante para sua eleição em 2016, mas que desertou em parte e votou nos democratas nas eleições legislativas de 2018, Trump voltou a apelar para os moradores dos subúrbios americanos, geralmente populações de classe média branca.

"Se a esquerda ganhar, eles vão demolir os subúrbios, confiscar armas e indicar juízes que vão acabar com a Segunda emenda [permissão para porte de armas] e outros direitos garantidos pela Constituição."

O governo Trump acabou com normas que atrelavam repasses de recursos a comunidades a esforços para reduzir a segregação - tradicionalmente, populações negras e de minorias não conseguem morar nos subúrbios, onde a moradia é mais cara, e ficavam segregados em regiões empobrecidas e decadentes nos centros das cidades.

"A dona de casa do subúrbio vai votar em mim. Elas querem segurança e ficaram muito felizes porque eu acabei com o programa que fazia com que habitação de baixa renda invadisse a vizinhança delas", publicou Trump no Twitter neste mês, em um apelo racista.

O presidente até tentou alardear conquistas de seu governo e fez promessas ambiciosas, como "anunciar uma vacina contra Covid-19 até o final do ano, talvez muito antes".

Ele e vários outros republicanos afirmaram na convenção que, sob Trump, os EUA tiveram o melhor desempenho econômico da história do país. Mas a economia cresceu 2,2% em 2019, dentro da média da última década, diante de 2,9% em 2018 e 2,4% em 2017. Como comparação, no governo Bill Clinton o PIB avançou 4,5% em 1997, outros 4,5% em 1998, e 4,7% em 1999.

Mesmo assim, é fato que o desemprego estava em níveis historicamente baixos no governo Trump, em 3,5%, e a bolsa de valores teve desempenho excepcional.

Mas isso tudo foi antes da pandemia da Covid-19. Com o desemprego em 10,2%, levantar o fantasma socialista, o espectro da criminalidade desenfreada e a ameaça chinesa é mais fácil.

"O seu voto vai decidir se nós vamos proteger americanos que respeitam a lei ou se daremos passe livre para anarquistas violentos, agitadores e criminosos que ameaçam nossos cidadãos."

Resta saber se os americanos vão comprar o discurso do medo, reduzindo a vantagem de Biden sobre Trump nas pesquisas. A margem já vem caindo.
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