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Notícia de Moda
Alta-costura Requinte danado de Catende No universo criativo do estilista João Luíz Battista, bordados, tecidos e aplicações ganham formas de alta-costura em plena Mata Sul do estado

Por: Aline Ramos

Publicado em: 03/08/2017 09:42 Atualizado em: 03/08/2017 10:02

Recentemente, Battista desenvolveu o editorial inspirado na mitologia grega Mênades. Foto: João Luíz Battista/Divulgação
Recentemente, Battista desenvolveu o editorial inspirado na mitologia grega Mênades. Foto: João Luíz Battista/Divulgação

Há 13 anos, a vida do antigo garoto que sonhava em ser psicólogo mudou. Seguir os passos de sua avó costureira foi o que, de fato, estava plantado no coração de João Luís Battista. Ver Dona Maria moldando “desejos” para suas clientes despertou o lado criativo do jovem, da cidade de Catende, localizada a 142 quilômetros do Recife. “Com minha avó, tive as primeiras experiências em alta-costura. Eu ficava observando ela fazendo os acabamentos impecáveis e como ela executava”. Mesmo sem o apoio inicial dos pais, o catendense resolveu seguir em frente.


Autodidata, iniciou sua carreira em 2003, quando participou do extinto Recife Fashion e conseguiu destacar-se como um dos quatro novos designers. Após essa conquista, João começou a produzir peças em casa e há 10 anos abriu um ateliê, na Rua Estudante Ivan Aguiar, 18, Nova Catende, no município que o viu crescer. Apaixonado pelo trabalho do estilista francês, Emanuel Ungaro, o fashion desiginer, atualmente com 27 anos, traz em suas peças uma releitura de tecidos usuais acrescentando um toque de requinte. “As matérias primas são as mais diversas possíveis. Uso desde a seda pura ao couro. Gosto de desenvolver texturas, experimentando diferentes materiais como bordados artesanais, tingimentos e aplicações”, explica.


Segundo João, são produzidos por mês de três a cinco vestidos de noivas, madrinhas e debutantes, tudo sob medida. “Meu processo de criação parte das referências físicas e emocionais de cada cliente. Mas sem dúvida, a forma de concepção de um vestido de noiva me encanta. O que mais me atrai é poder realizar, junto com a cliente, o seu sonho”, revela. O estilista conta com uma equipe formada por cinco pessoas, entre assistentes, pilotos, bordadeiras e costureiras. As peças são produzidas em torno de dez dias. Além de roupas, são desenvolvidos sapatos, bolsas, joias e adereços para cabelo.


O ateliê fica em Nova Catende, na Mata Sul de Pernambuco. Foto: João Luíz Battista/Divulgação
O ateliê fica em Nova Catende, na Mata Sul de Pernambuco. Foto: João Luíz Battista/Divulgação

Mesmo com a demanda do ateliê, Battista sempre reserva um tempo para criar coleções para editoriais e passarela. Recentemente, ele desenvolveu o editorial inspirado na mitologia grega Mênades, onde ninfas seguidoras e adoradoras do culto de Dioniso eram conhecidas como selvagens e endoidecidas. Normalmente eram representadas com cabelos desgrenhados entrelaçados de serpentes e vestidas com uma pele de veado, de raposa ou de pantera e tigre, com uma grinalda de hera e empunhando um tirso (bastão envolto em ramos de videira).


“Sentimento é palavra-chave para cada coleção. A necessidade de mergulhar em cada universo e transmutar as referências de vastas pesquisas, observações e transformar em roupas faz do meu trabalho atemporal e da mulher que a veste uma cosmopolita. As ideias do meu trabalho nascem completas desde a trilha sonora, beleza, acessórios, e claro, a roupa. Com um mix de materiais, trabalho a identidade dessa mulher que usa, desde as tramas artesanais de um bordado com pedraria, fios de seda e de algodão ou aplicação de couros. Alguns tecidos são relidos, passando por processos de tingimento e texturas – enobrecendo o resultado final de cada peça”, afirma. Questionado sobre quem ele desejaria vestir, João pontua: “Dilma Roussef, por sua coragem; Madonna, por sua ousadia e atemporalidade; Vanessa da Mata, por sua poesia”.

Autodidata, João iniciou sua carreira em 2003, quando participou do extinto Recife Fashion e conseguiu destacar-se como um dos quatro novos designers. Foto: João Luíz Battista/Divulgação
Autodidata, João iniciou sua carreira em 2003, quando participou do extinto Recife Fashion e conseguiu destacar-se como um dos quatro novos designers. Foto: João Luíz Battista/Divulgação
>>Fast fashion com João Luís Batista

O que a moda significa pra você?
Moda pra mim é uma ciência visual.

Como você enxerga o mercado da moda na sua cidade?
Na região em que vivo não existe um mercado de moda. Existe, uma excelente mão de obra, que atrai clientes de outras regiões.

O que te inspira?
Formas femininas, conceituais, arquitetônicas e poéticas – misturadas a diferentes materiais, texturas e cores.

Quem são seus principais clientes?
O público alvo são as mulheres de todas as idades, que apreciam alta-costura pernambucana.

Quem são seus ícones da moda?
Julien Fournié, Emanuel Ungaro, Gorethe Pugh.

Qual é a sua perspectiva para os próximos anos?
Aprimoramento de técnicas e visão de novas linhas de materiais e suas misturas.

Qual é seu maior sonho?
Ampliar cada vez mais meu trabalho.


Ateliê João Luís Battista
Rua Estudante Ivan Aguiar, 18, Nova Catende, Catende – PE.
Contatos: (81) 9 9400.4976 | (81) 3673-2084 | joaoluisbatista@yahoo.com.br



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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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