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Aperto dos juros: eleição põe à prova a independência do Banco Central

Publicado em: 01/08/2022 08:41

Pela primeira vez, as eleições terão um BC autônomo, mas não se sabe até que ponto ele exercerá essa independência -  (Foto: Ed Alves/CB)
Pela primeira vez, as eleições terão um BC autônomo, mas não se sabe até que ponto ele exercerá essa independência - (Foto: Ed Alves/CB)
A independência do Banco Central (BC), conquistada com a sanção da Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, será finalmente testada na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que ocorre nas próximas terça e quarta-feira. As apostas do mercado variam entre 0,50 e 0,75 ponto percentual de alta na taxa básica de juros (Selic), atualmente em 13,25% ao ano, mas analistas avaliam que o mais aguardado da reunião será o comunicado do colegiado. Nele, o BC deverá dizer se vai interromper o processo de elevação da taxa ou seguir o fluxo de alta nos juros internacionais, promovido pelos bancos centrais com o objetivo de combater a inflação global, que não dá sinais de trégua.

Para a maioria dos especialistas ouvidos pelo Correio, o argumento de que o BC brasileiro iniciou o ciclo de aperto monetário mais cedo, em março de 2021, quando a Selic estava no piso histórico de 2% anuais, não será suficiente para justificar a interrupção da alta dos juros em um cenário em que o câmbio segue pressionado, devido às incertezas na política e à expectativa de piora da inflação e do cenário fiscal em 2023. Eles ressaltam que não adianta olhar para a inflação de 2022 porque, mesmo com a perspectiva de queda pontual devido à redução dos tributos sobre combustíveis, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) continuará acima do teto da meta, de 5%, neste ano, e de 4,75%, no ano que vem. Ao mesmo tempo, afirmam que a principal consequência da continuidade do aperto monetário é uma só: recessão, que pode acontecer entre o fim deste ano e o começo de 2023.

grafico copom
 (Foto: pacifico)
grafico copom (Foto: pacifico)
 
Atuação criticada
 
Pela primeira vez, as eleições terão um BC autônomo, mas não se sabe até que ponto ele exercerá essa independência. Nos pleitos anteriores, a atuação do BC sempre foi criticada — principalmente pelo ministro da Economia, Paulo Guedes — por interromper os ciclos de aperto monetário durante as campanhas políticas. Mas analistas reconhecem que não será fácil para o Copom se explicar caso resolva parar com o aumento da Selic em meio à campanha eleitoral, que começa oficialmente no próximo dia 16.

Se quiser dar um sinal de que é realmente autônomo, o BC poderá jogar contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) na corrida eleitoral. Juros mais altos significam crédito mais caro e menos impulso na economia. Não à toa, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2023 projetado pelo mercado, abaixo de 0,50%, não para de encolher diante da perspectiva de que os juros devem continuar elevados e acima de dois dígitos até dezembro do ano que vem. Para piorar, o Executivo não ajuda o trabalho do BC no combate à inflação, porque está tomando medidas que aumentam despesas e pioram o quadro fiscal — apesar do discurso das autoridades de que o processo de consolidação está em curso.

Na visão de especialistas, os riscos fiscais aumentaram com medidas recentes do governo, como o pacote de R$ 41,2 bilhões aprovado com a PEC Kamikaze, denominação dada pelo ministro Paulo Guedes. Esse pacote de benefícios, que começam a ser pagos nesta semana, deve ajudar e armar uma série de "bombas fiscais" no próximo ano, porque as benesses dificilmente serão suspensas.

O principal problema que deverá ser considerado na reunião do Copom é a desancoragem das expectativas de inflação. Apesar de a tendência dé desaceleração dos índices nos próximos meses, o BC caminha para o fracasso na política monetária por três anos consecutivos. No último boletim Focus, a mediana das estimativas do mercado coletadas pelo Banco Central para o IPCA — que mede a inflação oficial — passou de 5,20% para 5,30% em 2023, acima do teto da meta, de 4,75%.

Estados Unidos
 
Os Estados Unidos entraram em recessão técnica com queda no PIB por dois trimestres seguidos neste ano. Esse fato pode até deixar o Banco Central em uma posição menos desconfortável, reconhecem os analistas, o que poderia ajudar no argumento de interromper a alta da Selic a partir de setembro. "Com os EUA em recessão técnica, fica mais fácil para o BC vender a estratégia de estabilidade na política monetária a partir da reunião de agosto. Mas o mercado não compra muito isso, porque a mediana das projeções continua subindo e está acima do teto, mesmo com a Selic no fim do ano em 13,75%. Por isso, o mercado acha que ficar com os juros parados nesse patamar não será suficiente", destaca Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV.
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