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Notícia de Economia

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Saiba por que a era dos juros a 2% deve acabar em 2021

Publicado em: 31/12/2020 07:40

 (Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil)
Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil
A pandemia do novo coronavírus derrubou a taxa básica de juros (Selic) à mínima histórica de 2% ao ano, levando o Brasil à rara situação de juros reais negativos (menores do que o custo de vida anual). Mas, para que se volte a cumprir as metas de inflação, o país pode estar vivendo o fim de um período com a Selic no mais baixo patamar de todos os tempos. O debate, agora, é em torno de qual será a intensidade do ajuste a ser feito pelo Banco Central (BC), nesse indicador, a partir de 2021.

Quando a pandemia se instalou no Brasil, boa parte do mercado acreditava que não havia mais espaço para corte da Selic — que tinha caído dos 14,25%, de 2015, para 4,25%, no início de 2020. Porém, diante do impacto do novo coronavírus na economia do país, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC rediscutiu o piso da taxa básica por entender que a crise sanitária exigia um nível de estímulo monetário extraordinariamente elevado. A Selic saiu de 4,25% para 2% em apenas seis meses e ainda ganhou um estímulo a mais: a prescrição de que os juros não vão subir no curto prazo, o chamado forward guidance — que, segundo a autoridade monetária, representou um corte extra de 0,12 ponto percentual nos juros básicos.

Essa redução brusca não foi uma exclusividade brasileira. Bancos centrais de todo o mundo cortaram suas taxas para tentar estimular a economia devido às incertezas trazidas pela Covid-19 e, hoje, diversos países trabalham com juros reais negativos. Levantamento da Infinity Asset Management mostra que apenas seis das 40 principais economias mundiais têm juros reais positivos: Turquia, Indonésia, Rússia, China, México e Malásia. Segundo a Infinity, o Brasil trabalha com juros reais negativos de 1,69% ao ano — o equivalente aos 2% da Selic menos a inflação projetada para os próximos 12 meses, de 3,69%.

"Boa parte do mundo deve continuar com os juros reais negativos por mais um tempo, pois o momento ainda é complicado. Então, o estímulo se faz necessário, até que se tenha um rearranjo mais estável da economia. No Brasil, o ajuste deve começar um pouco antes", explica o superintendente de investimentos da Infinity, Camilo Cavalcanti. Para ele, o BC subirá a Selic, gradualmente, ainda no primeiro semestre de 2021.

Redução das metas
Segundo Miguel Oliveira, diretor-executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), frente a um cenário de inflação mais alta, dólar pressionado e um ambiente de maior crescimento econômico, o BC precisará subir os juros. A questão é quando começará esse processo". Ele lembra que, se a instituição não fizer isso, as críticas de que estaria sendo leniente com o descontrole da carestia podem ganhar força, fazendo com que as incertezas do mercado aumentem. “O BC precisa carregar mais nos juros para evitar que a inflação continue elevada”, salienta.

A percepção do mercado é a de que a inflação deve continuar pressionada no início de 2021, sobretudo porque há dúvidas sobre a capacidade de crescimento do país diante do fim do auxílio emergencial e do crescimento dos números da segunda onda da pandemia. “O primeiro trimestre é a chave da decisão, pois o BC não vai subir os juros enquanto não perceber de forma clara os efeitos do fim do auxílio e da retomada econômica”, pondera o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato.

Mercado discute dosimetria
Apesar de haver um consenso de que a Selic vai subir no próximo ano, a intensidade desse ajuste suscita dúvidas. A mediana das projeções aponta para a taxa básica de juros em torno de 3% ao ano, no final de 2021, segundo o Boletim Focus — relatório do Banco Central (BC) que reúne as estimativas do mercado ––, ante os atuais 2% ao ano.

O Santander, por exemplo, acredita que a taxa básica vai só até 2,5%, por conta da grande ociosidade da economia brasileira. “Não estamos tão otimistas com o crescimento econômico. O BC projeta um PIB (Produto Interno Bruto) de 3,8%, em 2021, mas nós acreditamos em um PIB de 2,9%. A ociosidade pode durar mais do que o esperado, fazendo com que as expectativas de inflação sejam revisadas para baixo mais à frente”, explica o superintendente de pesquisa econômica do Santander, Maurício Oreng. A XP Investimentos vai na mesma linha, mas aposta em uma Selic cravada em 3% ao ano.

Porém, cada vez mais instituições têm projetado juros básicos mais altos. O Itaú Unibanco e a Armor Capital trabalham com uma Selic de 3,5% ao ano. Já o Bradesco vê a taxa básica subindo a 4% em 2021.

Economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato lembra que a inflação ultrapassou a meta de 4%, em 2020, e vai continuar pressionada no início de 2021, pois os alimentos permanecerão caros e muitos preços administrados que não foram reajustados neste ano que termina, por conta da pandemia, agora serão revisados — como é o caso dos planos de saúde. Por isso, acredita que a inflação vai bater em até 6% no primeiro semestre, para só depois desacelerar para o centro da meta de 3,75%.

"Com a Selic em 2% ao ano, o Brasil vai chegar a juros reais negativos de 3% ou 4%. Isso gera um incômodo. E o BC vai começar a olhar para a inflação de 2022, que está em torno do centro da meta. Então, vai haver uma normalização dos juros, com a taxa real mais próxima de zero", acredita Honorato.

Ele frisa que, atualmente, a Selic está em terreno que era desconhecido pelos brasileiros até a pandemia. E diz que, por isso, vai chegar a hora de o BC recolocar os juros de volta à "normalidade". “É excepcionalmente baixo para o padrão brasileiro, e foi um instrumento útil para um momento atípico. Mas, isso também teve efeitos colaterais, como o dólar indo para perto dos R$ 6. Por isso, agora está na hora de normalizar", defende.

Essa projeção da Selic, no entanto, ainda sobe mais um pouco para a Austin Rating, que vê uma taxa de 4,75% ao ano no fim do próximo ano. “O desafio de controlar a inflação vai ser ainda maior a partir de 2021, pois a meta será decrescente, o que diminui a margem de erro, e o espaço de ociosidade da economia também será menor, o que reduz a capacidade do país de crescer sem gerar inflação. Por isso, o BC vai precisar subir os juros”, argumenta o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini.
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